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O amor na segunda metade da vida

Patricia Gebrim 12/05/2017 COMPORTAMENTO
O amor na segunda metade da vida
Fonte: imagem Pixabay
Maturidade nos torna mais seletivos

por Patrícia Gebrim 

No rastro do desespero em que muitos vivem para encontrar alguém com quem se relacionar, tenho ouvido com bastante frequência a seguinte frase:

"Quanto mais tarde, mais difícil."

A colocação vem num tom quase ameaçador, como se a pior coisa de uma existência fosse ter que viver sem um par.

É verdade, talvez seja mais difícil encontrar alguém quando nos aproximamos da segunda metade da vida, mas não por que "faltem pessoas", como se costuma afirmar, e sim porque aqueles que se tornam sábios se tornam mais seletivos, já não se contentam com uma pessoa qualquer, já não buscam alguém apenas para se tornarem livres da condição de estarem sós em um mundo de pares.

Escrevo este texto para poucos, para aqueles que, na metade da vida, já aprenderam a amar a si mesmos e a apreciar sua própria companhia. Porque sempre existirão os que ainda não descobriram a própria beleza, e esses, independente dos dias vividos, serão sempre frágeis caricaturas de si mesmos, prontos a agarrar-se a qualquer um que lhes pareça um porto seguro, que os salvem de sua própria falta de significado.

Somos todos belos

Escrevo para aqueles que se sabem belos. (E não somos todos?). Para quem aprendeu a amar a própria feiura, para quem perdeu o medo do que está por vir, para quem já sabe que só se respira no momento presente. Esses, e apenas esses, compreenderão o que tenho a dizer.

É preciso dar chance ao amor. Sempre. Não é verdade que o coração se torne seco, ou se amargure com a chegada da idade. Dentro de todos nós existe uma semente imortal, a semente do amor, sempre pronta a brotar quando as condições favoráveis se apresentam. No entanto, a chegada da segunda parte da vida exige que saibamos abrir mão das ilusões. As máscaras da paixão já não nos encantam ou satisfazem. Divertem, talvez, mas não podem tomar o lugar da realidade.

Após a metade da vida ansiamos pelo que é real. Com o corpo coberto por inevitáveis cicatrizes, já sofremos e _ assim espero _ aprendemos muitas coisas sobre o amor. Somos mais rápidos e eficientes em reconhecer com quem estamos lidando. Observamos os sinais e já não perdemos tempo com pessoas que não nos honram. Queremos, nos olhos do outro, a mesma luz que encontramos quando olhamos com amor nosso reflexo no espelho. Queremos palavras que venham preenchidas por verdade e atitude. Não há nada mais pobre do que essa falação sem sentido, que não significa nada, que não tem peso, que não se cumpre. Coisa oca já não nos atrai. Não há nada mais desestimulante do que uma cobertura colorida sem nada que a preencha. Queremos alma!

Na maturidade, valorizamos gente real, que nos vejam além da aparência, pois, por mais que cuidemos de nós mesmos, a juventude se esvai, a beleza se transforma, e apenas quem é capaz de enxergar com a alma pode achar bela a flor que já murchou.

Apenas a alma, livre das limitações deste mundo, vê, naquelas pétalas desbotadas, o reflexo do campo onde aquela flor nasceu, o nascimento dos primeiros brotos, o voo das abelhas que sorveram seu néctar, as palavras de amor inspiradas por sua beleza, a poesia de sua existência, a vida indestrutível e eternamente bela.

Na segunda metade da vida nos tornamos mais donos de nós mesmos, finalmente cansados de tentar agradar ou obter reconhecimento alheio, nos permitimos a liberdade de simplesmente ser quem verdadeiramente somos. Paramos de nos obrigar a estar com pessoas que nada nos acrescentam, usar sapatos que ferem nossos pés, pintar o cabelo dessa ou daquela cor, de acordo com fantasias que não nos pertencem. Entendam. Não fugimos do amor. Possuímos o mais belo amor para ofertar. Um amor cheio de liberdade, profundidade e alma. Fugimos, isso sim, dessa caricatura que chamam de amor, da superficialidade, dos encontros vazios que desperdiçam nosso tempo tão raro e precioso. Fugimos de gente que não respeite ou goste de verdade da gente, porque nada de belo pode surgir de gente que não tem a generosidade de querer bem.

Entendam, compreender isso é para poucos.

Aos que compreendem, já não faz sentido estar com alguém que não tenha olhos para ver além do óbvio. Me lembro da frase do Vinicius, "Me perdoem as feias, mas beleza é fundamental." e acho graça.

Vinícius, me perdoem os poetas, mas amor é fundamental!

(Para ser justa, li que certa vez Vinícius se explicou. Talvez tenha conseguido fechar os olhos e ver com a alma. Suas palavras: "A beleza para mim é importante. Eu amei feias lindas, feias interessantes. Namorei muita mulher que eu considero esteticamente de nenhuma beleza, mas eram mulheres interessantes, mulheres que tinham alguma coisa".)




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    amor, meia, idade, namoro

Patricia Gebrim

É Psicóloga Clínica, atua numa abordagem transpessoal. Seu trabalho é direcionado a favorecer o autoconhecimento e a transformação das crenças limitadoras que nos mantêm aprisionados a padrões repetitivos de escolhas. É escritora, publicou 'Gente que mora dentro da gente' e o best-seller 'Palavra de Criança' pela editora Pensamento



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