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Que lição tirar do filme 'Estrelas além do Tempo'?

Fátima Fontes 12/05/2017 PSICOLOGIA
Que lição tirar do filme 'Estrelas além do Tempo'?
Fonte: imagem Youtube
Em vínculos de intimidade, infelizmente, costuma haver clima de rivalidade e competição

por Fátima Fontes

Introdução
“Todos vamos chegar ao topo juntos, ou não chegaremos lá”.
 (fala do personagem Al Harrison (Kevin Costner), ao destruir a placa colocada acima do banheiro feminino para mulheres ‘de cor’ no filme ‘Estrelas além do tempo’ [Hidden Figures], Estados Unidos, 2016).

Mais uma vez nos encontramos para juntos refletirmos sobre nós e nossos vínculos. E como em outros textos me inspirei na 7ª Arte, desta vez fui muito tocada pelo filme norte-americano: "Estrelas além do Tempo" (Direção Theodore Melfi), que de forma envolvente, nos apresenta a um valioso capítulo da história real da corrida espacial norte-americana, sob o enfoque das três mulheres negras, essenciais, para o sucesso da conquista espacial.

Já era desafiador haver mulheres no programa espacial da NASA, porém mais instigante ainda, era o fato de que elas eram em sua maioria negras, ainda num tempo de total segregação racial norte-americana. E foi a luta dessas e de outras mulheres muito inteligentes incluídas no programa espacial, a capacidade delas de superação em face dos constrangimentos e humilhações aos quais eram submetidas, e sua condição de se unirem e não competirem entre si, os elementos que serão a agulha da bússola nessa reflexão.

‘Com o outro’ ou ‘contra o outro’ eis a questão

Muito se fala ‘mal’, e até se pesquisa, sobre o padrão competitivo feminino, sobretudo, nos ambientes organizacionais e institucionais, evidenciando o quanto se perde no combate à desigualdade de gênero e na ampliação dos ‘direitos da mulher’ nas corporações, também por causa das lutas que elas travam entre si.

Mas não é este o cenário que acompanhamos no filme, ali testemunhamos a força que tem nos unirmos umas às outras, em momentos inclusive, em que duas delas se sobressaem e a terceira é desvalorizada. Elas se mostram humanas, cheias de dores e dissabores, que quando foram divididos se tornaram pequenas pedras no caminho, absolutamente removíveis.

Outro momento exemplar de união ocorreu quando uma das calculistas se dá conta de que, com a chegada dos grandes computadores, a função que ela e suas colegas desempenhavam estaria obsoleta, era preciso então aprender uma nova linguagem que permitisse manusear os computadores. Ela foi atrás dessa ferramenta, mas ao contrário de se colocar num lugar de única conhecedora de tal manejo, ela compartilhou e capacitou um grupo de mulheres para a nova função que garantiria a todas elas um trabalho.

Que lição para nós mulheres e homens, que infelizmente tendemos a manter em nossos vínculos, sobretudo os da intimidade, um clima de rivalidade e de grande competição, onde o fracasso de um é experimentado com certo “gozo” pelo outro, que ao invés de se apresentar ou ser percebido como parceiro, é identificado como oponente, a quem devemos vencer.

Nessas circunstâncias de “reino dividido” nada se conquistará, verdade milenar que no filme foi reafirmada, afinal, segregando as mulheres negras, não se chegaria a nenhum lugar, tanto quanto se as mulheres entrassem em um clima de animosidade e invejas entre si, seriam devoradas pelo sistema sexista e racista que dominava a instituição onde elas trabalhavam.

E isso precisa estar bem destacado em nossos corações e mentes: ou nos juntamos para achar caminhos de resolução e vida, ou sucumbiremos todos, assim como acompanharemos a derrocada de nossos vínculos, sonhos e projetos pessoais e coletivos.

Necessidades e objetivo comum: um caminho para o encontro

Somos seres de relação e nossa sobrevivência na terra não ocorreria, caso não tivéssemos nos unido a partir de nossas necessidades, todas elas, das mais básicas às mais complexas, em busca de soluções.

Mas percebe-se, em tempos atuais, uma corrida individual desenfreada. Parece que perdemos contato com a força da aliança com o outro, e isso em tempos de tanta comunicação em redes sociais, que facilitadas pela alta tecnologia desenvolvida, parece se pautar na frivolidade de postagens sobre o que se come em restaurantes a que se vai, nas viagens, nos lazeres, enfim tudo isso me soa como uma nova e vazia necessidade social a de que precisamos do outro só para ser testemunha de nosso sucesso.

O que ganhamos? A meu ver, nada de nada, quando não, nos tornamos alvo da inveja alheia que sobre nós dirige uma sombria energia negativa: como que desejando que tudo aquilo que soa deslumbrante em nossa vida caia por terra.

E o que perdemos? Muito, e basicamente a nossa humanidade, em sua melhor faceta, ou seja, aquela na qual existe o outro que nos vê, que nos ouve, que nos acolhe, que nos apoia e nos ajuda a prosseguir. Testemunhamos isso através dos vários vínculos apresentados no filme que nos inspirou tanto os das mulheres entre si, quanto dos parceiros de duas delas, que vencendo o sexismo que lhes foi transmitido, aprenderam a valorizar, respeitar e amar suas competentes mulheres.

Realmente nada aconteceu, ao longo da história, tanto em termos de conquistas, quanto nas grandes descobertas, sem que tivéssemos nos unido em busca de um bem comum, da conquista de soluções que garantiriam a melhoria de nosso viver e daria sentido às nossas vidas, quanto em nossas microssocialidades, ou seja, nos nossos espaços de intimidade aqueles que podem ser palco de bons encontros, carregados de afetos que aumentam a nossa potência de ação e a do outro.

E para terminar...

Podemos crer que outros modos de vida, para além dos ditados pelas densas correntes individualistas da nossa vida social atual, possam ser retomados em nosso cotidiano, nos tornando outra vez sensíveis a nós mesmos, às nossas necessidades e anseios e às demandas dos outros.

Nesse ‘novo/velho’ bom lugar, poderemos ser mais humanos, mais parceiros de caminhada, mais ‘companheiros de jugo’ e de alegrias compartilhadas, em cenários mais reais que os atuais.

E que a linda música abaixo, criada e cantada por um jovem músico inglês nos inspire. Ele, que colocou seu nome artístico: ‘Rag’n Bone Man’, que traduzido significa ‘Homem dos Ossos Rachados’, o fez pelo impacto que lhe causara a vida de um homem que existiu em sua infância, e ao qual ele teve acesso assistindo TV com seu avô, e em sua biografia (do estranho homem) constava que, após perder sua estabilidade emocional e financeira, vivia de juntar coisas abandonadas, restos de metal, vidro, papel e outros refugos do consumo.

E que sejamos mais humanos, como propõe a música: ‘Human’, de Rag’n Bone Man.

Human
Rag'n'Bone Man

Human                                            
Maybe I'm foolish, maybe I'm blind
Thinking I can see through this
And see what's behind
Got no way to prove it so maybe I'm blind

But I'm only human after all
I'm only human after all
Don't put your blame on me

Take a look in the mirror
And what do you see
Do you see it clearer
Or are you deceived in what you believe

'cause I'm only human after all
You're only human after all
Don't put the blame on me
Don't put your blame on me

Some people got the real problems
Some people out of luck
Some people think I can solve them
Lord heavens above
I'm only human after all
I'm only human after all
Don't put the blame on me
Don't put the blame on me

Don't ask my opinion
Don't ask me to lie
Then beg for forgiveness
For making you cry, making you cry

'cause I'm only human after all
I'm only human after all
Don't put your blame on me
Don't put the blame on me

Some people got the real problems
Some people out of luck
Some people think I can solve them
Lord heavens above
I'm only human after all
I'm only human after all

Don't put the blame on me
Don't put the blame on me
I'm only human I make mistakes
I'm only human that's all it takes
To put the blame on me
Don't put your blame on me

I'm no prophet or messiah
Should go looking somewhere higher

I'm only human after all
I'm only human after all
Don't put the blame on me
Don't put the blame on me

Humano

Talvez eu seja tolo, talvez eu seja cego
Pensando que posso ver através disto
E ver o que está por trás
Não tenho como provar isso então talvez eu seja cego

Mas eu sou apenas humano, afinal
Eu sou apenas humano, afinal
Não coloque sua culpa em mim

Dê uma olhada no espelho
E o que você vê
Você vê isso mais claro
Ou você está iludido no que acredita

Porque eu sou apenas humano, afinal
Você é apenas humano, afinal
Não coloque a culpa e mim
Não coloque sua culpa em mim

Algumas pessoas têm problemas reais
Algumas pessoas sem sorte
Algumas pessoas acham que eu posso resolvê-las
Senhor acima do céu
Eu sou apenas humano, afinal
Eu sou apenas humano, afinal
Não coloque a culpa e mim
Não coloque a culpa e mim

Não pergunte a minha opinião
Não me peça para mentir
Então implore por perdão
Por fazer você chorar, fazer você chorar

Porque eu sou apenas humano, afinal
Eu sou apenas humano, afinal
Não coloque sua culpa em mim
Não coloque a culpa e mim

Eu sou apenas humano, eu cometo erros
Eu sou apenas humano, isso é o necessário
Para colocar a culpa em mim
Não coloque sua culpa em mim

Não sou profeta ou messias
Você deveria estar procurando por algum lugar mais elevado

Eu sou apenas humano, afinal
Eu sou apenas humano, afinal
Não coloque a culpa e mim
Não coloque a culpa e mim
 
Ouçam a linda música
https://www.vagalume.com.br/ragnbone-man/discografia/human-7.html




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    estrelas, além, tempo, vínculos, chegar, juntos, topo

Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



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