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Viver é se relacionar com pessoas

Fátima Fontes 14/03/2017 COMPORTAMENTO
Viver é se relacionar com pessoas
Fonte: imagem trailer: Warner Bros
Estamos aqui para nos conectar pela bondade e compaixão

por Fátima Fontes

Introdução
“Estamos aqui para nos conectar. Viver é se relacionar com pessoas.”
 Howard (personagem representado por Will Smith), no filme ‘Beleza Oculta’ (Colateral Beauty), EUA, 2017.

Mais uma vez nos encontramos para tratar do desafio que representa o se relacionar.

Encontrei boa parte da inspiração dessa reflexão assistindo ao filme “Beleza Oculta”, que trata das conexões relacionais com muita sensibilidade, essa que nos escapa em nossos cotidianos, abarrotados de queixas, reclamações e desencantos, como já tratamos em textos anteriores.

E meu intuito desta feita, é contagiá-los com dois elementos desenvolvidos em nossas existências humanas e relacionais ao longo de nossa história e que se colocam como virtudes humanas, fundamentais para o viver bem com o outro: a bondade e a compaixão.

E que ao final do texto sejamos inquietados a desenvolver ambas as virtudes, como maneira de vivermos com um coração mais agradecido por quem somos, e por quem nos relacionamos. Afinal, mesmo que tenhamos relacionamentos difíceis e desafiadores, estamos neles para nos aperfeiçoarmos como humanos sensíveis, que superam suas expectativas ideais e celebram as competências nossas e dos outros.

Conectados e relacionados pela bondade

Segundo o Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano (São Paulo: Editora Martins Fontes, 2007), bondade é a determinação da vontade de fazer bem aos outros, cujo grande benefício será unicamente o de ser útil ao outro.

Estarmos conectados entre nós unicamente pela vontade de fazer bem ao outro, num mundo em que os interesses são, em sua maioria, regidos pelo interesse próprio, seja de qualquer ordem: financeiro, amoroso, de afirmação e superação pessoal... Torna-se esta, uma tarefa de pessoas decididas a atingirem seus alvos, a despeito das dificuldades encontradas, diria até que é uma arte de pessoas que carregam a marca da obstinação e que não desistem jamais.

E outra vez nos depararemos com o grande empecilho que carregamos e que se encontram contidos em nossas aprendizagens sociais, nascidas em nossas primeiras relações familiares e ampliadas para os ambientes exteriores à família: escola, vizinhança, instituições, organizações etc. Somos ensinados e exigidos a sermos os melhores e a levarmos vantagens em tudo.

Dificilmente teremos trilhado o caminho da aprendizagem, da bondade, mesmo que familiares, líderes religiosos, professores e políticos se apresentem como arautos da bondade.

E o pior é que é tudo muito ambivalente e sutil em nossas aprendizagens, ora nos dizem para tratar a todos com bondade e generosidade, ora ouvimos que o mundo é perigoso, que não podemos confiar em ninguém (exceto os de casa) e menos ainda nos importar com a dor do outro, pois isso só acarretará fardo e obstáculo para nosso sucesso... Ficamos confundidos e lentamente nos afastamos do exercício continuado da bondade.

E os “danos colaterais” dessa experiência de separação da bondade são muitos: tornamos-nos pessoas egoístas, exigentes e impacientes com as nossas falhas e com as do outro, não aprendemos a nos perdoar e a perdoar o outro “setenta vezes sete”, como nos ensinou Jesus. Nem tão pouco queremos nos incomodar com o sofrimento do outro. Alias, perdemos a noção total de qualquer interesse real pela vida do outro, a ponto de nos saudarmos com a expressão “Tudo bem?”, talvez para não corrermos o risco de, em perguntando “Como vai você?”, o outro nos responda que vai mal, e isso nos constranja a mostrar o interesse que de fato não temos.

Mas se partirmos do pressuposto de que possa existir uma “beleza oculta e colateral” em nossos vínculos, poderemos tomar outro rumo em nossas relações.

Nessa nova e bondosa caminhada, o destaque se dará ao desenvolvimento de uma mirada qualificadora, que possa ressaltar os acertos, que seja marcada pelo interesse sincero com a vida do outro, e não como fonte de fofoca para preencher vidas vazias e carentes de assuntos. E que todo nosso ser esteja conectado a nos fazer bem, a celebrarmos nossa existência e a do outro e a ofertarmos nosso melhor, nossas informações e ações ao bem comum.

Sonho? Utopia? Paixão? Talvez seja, mas não consigo me manter conectada e relacionada ao outro, sem isso.

Conectados e relacionados pela compaixão

Ainda me utilizando da definição contida no Dicionário de Filosofia de Abbagnano, temos que compaixão é a participação no sofrimento alheio, como algo diferente desse mesmo sofrimento. A compaixão assim, não consiste em sentir o mesmo sofrimento que a provoca. A emoção provocada pela dor da outra pessoa é o que pode se chamar de compaixão, e que é marcada pela solidariedade.

Agora o desafio se tornou maior para cada um de nós: para além de voltarmos a ser bondosos, somos desafiados a nos “incomodar” com o mal-estar do outro, a nos solidarizarmos com seu sofrimento, ou seja, debaixo da compaixão teremos que pensar em caminhos que possam ajudar ao que sofre.

Foi isso que aconteceu no filme “Beleza Oculta” que citei no início, depois de viver a maior tragédia humana, que é a perda de um filho, principalmente na infância, na trama do filme a perda de uma filha aos cinco anos, Howard, o protagonista da história, perdeu o sentido da vida e se afastou de qualquer relacionamento humano, mas solidariamente teve seus três melhores amigos tocados por seu sofrimento.

Fiquei pensando em meus próprios vínculos e os convido ao mesmo exercício e alegremente constatei que sempre tive pessoas compassivas ao meu lado, que se solidarizaram comigo nas dores, e buscaram caminhos de saída comigo.

Isso me torna, obrigatoriamente, comprometida com a compaixão pelo que sofre! Sinto-me mobilizada e tocada pela maior parte do sofrimento que me cerca, podendo eu ajudar ou não! Há momentos em que me pego fazendo uma prece por pessoas que não conheço, mas que estão passando por grandes necessidades.

Creio que posso atuar nas macropolíticas, sou uma cidadã crítica da realidade que me cerca, mas quero e, sobretudo, posso adotar a postura de vigilância pessoal no cenário das micropolíticas, onde olho as pessoas nos olhos, não ando com fones no ouvido, gosto e acho importante ouvir os sons ao meu redor, ainda que sejam muitos os ruídos. Pergunto às pessoas como elas estão e genuinamente me mostro disposta a ouvi-las e a auxiliá-las no que precisarem.

Compartilho esse meu modo de viver compassivo, como exemplo concreto de que não há sobrecarga em mim por viver assim, e não como proposta de modelo de vida, pois sou imperfeita e me pego aprendendo a cada dia a ser melhor do que fui ontem. Ao contrário, de um viver penoso e exaustivo, sinto-me plena, a maior parte do tempo, pois tenho um sentido para minha existência: amar e cuidar de mim e do outro, pautada nos valores que acredito serem meus alicerces.

E para terminar...

Enfim, passei para vocês meu recado, com um coração agradecido por ter esse espaço de reflexão e por ter vocês como leitores!

Conto neste final com a ajuda da arte, via música, dessa vez serei mediada pela também pernambucana Flaira Ferro, uma sensível multiartsta, e que ela nos inspire a faxinarmos nosso interior, a nos curarmos de tudo o que nos impede de ser bondosos e compassivos conosco e com o outro.

Me Curar de Mim
Flaira Ferro

Sou a maldade em crise
Tendo que reconhecer
As fraquezas de um lado
Que nem todo mundo vê

Fiz em mim uma faxina e
Encontrei no meu umbigo
O meu próprio inimigo
Que adoece na rotina

Eu quero me curar de mim
Quero me curar de mim
Quero me curar de mim (refrão)

O ser humano é esquisito
Armadilha de si mesmo
Fala de amor bonito
E aponta o erro alheio


Vim ao mundo em um só corpo
Esse de um metro e sessenta
Devo a ele estar atenta
Não posso mudar o outro

Eu quero me curar de mim
Quero me curar de mim
Quero me curar de mim (refrão)

Vou pequena e pianinho
Fazer minhas orações
Eu me rendo da vaidade
Que destrói as relações

Pra me encher do que importa
Preciso me esvaziar
Minhas feras encarar
Me reconhecer hipócrita

Sou má, sou mentirosa
Vaidosa e invejosa
Sou mesquinha, grão de areia
Boba e preconceituosa

Sou carente, amostrada
Dou sorrisos, sou corrupta
Malandra, fofoqueira
Moralista, interesseira

E dói, dói, dói me expor assim
Dói, dói, dói, despir-se assim

Mas se eu não tiver coragem
Pra enfrentar os meus defeitos
De que forma, de que jeito
Eu vou me curar de mim?

Se é que essa cura há de existir
Não sei. só sei que a busco em mim
Só sei que a busco

TAGS :

    compaixão, desafio, bondade, empatia, relacionamentos
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Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008

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