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Três necessidades reais da vida

Fátima Fontes 29/12/2016 PSICOLOGIA
Três necessidades reais da vida
Fonte: imagem Pixabay
Alegria: habilidade de ver beleza nas pequenas coisas

por Fátima Fontes

“Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada”.
Clarice Lispector, no livro: “Correio Feminino”.  Rio de Janeiro: Rocco, 2006, p.7.

Introdução

Amados leitores de nossa coluna “Nós e nossos vínculos”, ainda que não tenha podido estar mais perto de vocês nesse ano, tanto quanto gostaria, estava vinculada a vocês e não poderia deixar que acabasse esse desafiador ano de dois mil e dezesseis sem conversar com vocês.

Estamos outra vez no apagar das luzes de mais um ano, momento de constantes avaliações e planos de transformações, me ocorreu então falar sobre nossas reais necessidades, aquelas que não se vendem em nenhum shopping, nem loja alguma, e que dinheiro algum pode comprar. Fantástica essa possibilidade, afinal em tempos de hiperconsumo, tudo vira produto vendável...

Mas essas necessidades, se percebidas, trazem em si o caminho para obtê-las. O convite está feito e que essa jornada em busca de nossas reais necessidades nos auxiliem a melhorar nossos vínculos e nosso viver em dois mil e dezessete.

Necessidade de nos alegrarmos

Segundo o filósofo do século XVII, Baruch Espinosa, a alegria é um afeto que “aumenta a potência de ação”, como já escrevi em outros textos, e ainda segundo o sábio rei judeu Salomão, em seu clássico livro de Provérbios, “ a alegria aformoseia o rosto e a tristeza abate o espírito”. Podemos dizer então que o afeto da alegria é um ótimo elixir de qualidade de vida e por que não, um tônico rejuvenescedor.

Mas do que é composta essa necessidade? No meu ponto de vista, ela pode ser encarada como necessidade, pois todos nós precisamos de força para realizarmos qualquer tarefa em nossa vida, e sem alegria, com nosso espírito entristecido e abatido, adoecemos da alma e da vontade.

Dito isso, torna-se imprescindível uma nota de esclarecimento, a alegria é feita da habilidade de vermos beleza nas mínimas coisas, de contemplarmos o que nos cerca, de sermos agradecidos pelo bom momento, tanto quanto pela dificuldade que nos torna mais humildes e cuidadosos com o que temos e somos.

Com o espírito alegre, podemos sorrir e celebrar cada detalhe de nosso viver, podemos abençoar nossos vínculos, podemos perdoar nossas faltas e as dos outros e a partir daí nos tornarmos aptos, verdadeiramente, a lutarmos por uma sociedade mais respeitosa, tolerante e justa.  

Trata-se, portanto, de uma alegria ética e política, não uma alegria boba e inconsequente! Espíritos alegres se alegram com a alegria do outro e chora com suas tristezas, se mobilizam em torno do bem comum, e não só do próprio bem.

E onde está essa tal alegria? Como disse no início desse artigo, a alegria não é vendável, logo ela é imaterial, e eu a localizo dentro de cada um de nós, como um lindo tesouro, às vezes escondido, precisando ser recuperado, restaurado e cuidado por cada um de nós.

Necessidade de amar

Tive e tenho o privilégio de ter crescido num ambiente familiar e comunitário, incluindo excelentes escolas públicas, que estimularam minha paixão pelo conhecimento, e numa das minhas andanças pela psicologia do desenvolvimento humano, fui apresentada a alguns estudos que mostraram o quanto somos seres de apego, o quanto precisamos de espaços de aceitação e aconchego, mais até do que de alimentos para nosso corpo.

Há um experimento clássico nessa direção em que macaquinhos famintos eram apresentados a uma “mãe de arame que os alimentava” e a uma ‘mãe felpuda” que oferecia calor e aconchego, mas não alimentos. A totalidade dos animaizinhos escolhia a “mãe felpuda”, o que nos assegura de que a necessidade de estar em paz com o outro, numa ambiência de aconchego e respeito é uma necessidade marcada em nosso cérebro, em nossa alma e em nossos vínculos, somos seres de “boas relações”.

Portanto, mais do que amor, palavra que foi banalizada e de certa forma bastante comercializada e romanceada, falamos aqui de uma “atitude de amar”, que pressupõe uma postura de pacificação diante do outro, de querer respeitar, valorizar e fazer bem ao outro, independente do que ele sinta por nós, afinal se condicionarmos o nosso desejo de amar a merecimento, não conseguiremos amar nem a nós mesmos, nem ao outro, pois nem sempre somos “mãe felpuda” conosco e com os outros.

A atitude de amar tem sido muito problematizada em nossos viver, em todas as fases da história da humanidade, uma vez que criamos nos distintos tempos históricos e nas distintas culturas, formas prescritas de belo e de “conhecido”, onde tudo o que não se encaixar com os padrões idealizados vigentes, tende a ser rejeitado e visto como ameaçador. Essa é uma das origens dos preconceitos e intolerâncias entre nós. Aprendemos a amar o “igual a nós” e a ver no diferente sinal de perigo e ameaça, como poderíamos amá-los?

Mas o nosso chamado é que desenvolvamos a atitude de amar, para além de nossas aprendizagens, que “nos tornemos crianças outra vez”, que nos surpreendamos sim, com o diferente de nós, mas que passado o impacto do ser diferente, possamos perguntar seu nome, possamos nos interessar por ele e criarmos com ele um espaço de boa convivência e respeito, em outras palavras, que possamos amar, amar e amar.

Para isso, precisaremos vencer uma segunda barreira, anos imposta pelos processos de convivência: aprendemos a ser amados, e passamos a exigir isso de todos aqueles com quem nos relacionamos, pouco aprendemos sobre o “dever de amar”. Ou somos capazes de vencer nosso complexo de “me amem a qualquer preço”, ou jamais desenvolveremos nossa capacidade de amar.

Necessidade de crer

Agora falemos de uma terceira necessidade que também se apresenta como fonte de vida e de qualidade relacional, a necessidade de crer. Para além de religião ou credo, falamos aqui da necessidade de transcendermos, de nos projetarmos para além de nosso mundo concreto, visto que acredito (por isso creio) que a nossa humanidade é composta de uma parte não concreta a pneuma, de uma dimensão espiritual, algo que nos leva a contemplação e à responsabilização pelo nosso existir, pelo bem-estar do outro, do planeta e do universo.

A necessidade de crer nos ajuda a ampliar nosso viver concreto, ela nos lança naquilo que não vemos, mas que desejamos alcançar, é aquilo que nos desafia a prosseguir, a perseguirmos uma melhor forma de vida e de relações. “É a certeza de coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem”. (Como escrito no livro de Hebreus 11:1, da Bíblia sagrada).

Crer e ver são opostos, precisamos crer em algo novo e melhor, que ainda não está ao nosso alcance. Do contrário, o viver é enfadonho e nos transforma em seres insuportavelmente queixosos, lamuriosos, insatisfeitos e infelizes, cujo convívio está repleto de desamor e tristeza.

Precisamos crer que há sempre sonhos que não realizamos, às vezes coisas pequenas como dançar, praticar um esporte, escrever uma carta (nossa, o que é isso?), sim aquela escrita de próprio punho, que se coloca num envelope, se leva aos Correios, se compra um selo, cola-o no local indicado e as envia para alguém a quem se quer bem. Infelizmente as únicas cartas que recebemos atualmente são as de cobranças ou de extratos bancários.

Outras vezes tratam-se de sonhos médios ou grandes, que também ficaram naquele baú interior, no qual mora a alegria perdida, lembra? É possível sondarmos o nosso interior e nele encontrarmos estímulo para a construção de um viver mais realizado e satisfatório, para nós e para os que nos cercam, vale a pena a busca!

E para finalizar

E que venha a alegria, o amar e o crer em nossas vidas, e que com ele sejamos capazes de abraçar tanto aqueles a quem queremos bem, quanto o novo ano que se aproxima, com esses três recursos que se desenvolvidos, nos auxiliarão a fazer desse ano de dois mil e dezessete um ano realmente novo!

E que usar pela última vez esse ano aquele “som da alma” que vem dos poetas, para ser a cereja do bolo de nossas reflexões, dessa vez é uma canção da Ana Vilela, “Trem Bala”, e que ela embale nossa passagem de ano!

Trem – Bala
Ana Vilela

Não é sobre ter
Todas as pessoas do mundo prá si
É sobre saber que em algum lugar
Alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar
Mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida
Que cai sobre nós

É saber se sentir infinito
Num universo tão vasto e bonito
É saber sonhar
E, então, fazer valer a pena cada verso
Daquele poema sobre acreditar

Não é sobre chegar no topo do mundo
E saber que venceu
É sobre escalar e sentir
Que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo
E também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo
Em todas as situações

A gente não pode ter tudo
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso, eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe
Pra perto de mim

Não é sobre tudo que o seu dinheiro
É capaz de comprar
E sim sobre cada momento
Sorrindo a se compartilhar
Também não é sobre correr
Contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera
A vida já ficou pra trás

Segura teu filho no colo
Sorria e abraça teus pais
Enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir

Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá
Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá

Segura teu filho no colo
Sorria e abraça teus pais
Enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir




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    alegria, amar, crer, esperança, afeto

Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



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