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'Ditadura do sim' é prejudicial à educação dos filhos

Redação Vya Estelar 01/01/2016 PSICOLOGIA
O não foi alijado do processo educacional

por Cybele Russi

Uma vida voltada para o SIM. Este é o lema do novo milênio. Tudo deve ser positivo, alto astral, belo, arrumado, bem posicionado, perfeito, limpo, alegre, sorridente, rico, sadio e sempre que possível, jovial; tudo deve ser focado para o SIM. Qualquer coisa que faça uma leve menção ao NÃO, ao negativo, ao triste, ao feio, ao frustrante, ao não agradável, ao desconfortável, deve ser banido com todas as forças. O NÃO passou a ser, desde as últimas décadas, politicamente incorreto. Dizer não pode ser muito arriscado, ou até mesmo perigoso. Com um simples não corre-se o risco de perder amigos, de não ser considerado simpático, de não ser aceito pelo grupo e, conseqüentemente, ser socialmente banido.

A 'ditadura do sim' é um conceito que foi inventado, não se sabe por quem; possivelmente, pela ideologia global/capitalista/consumista, que nos obriga, há anos, a ser uma massa comum, onde todos, indistintamente, devem ser, pensar, agir e sentir da mesma maneira. Quem se insurgir contra a 'ditadura do sim', estará automaticamente fora do sistema.

Do ponto de vista do marketing, nada poderia ser mais inteligente e bem pensado do que isso. O sim ajuda a vender produtos de todos os tipos, desde cosméticos, que nos possibilitam ficar jovens para sempre, uma vez que não é mais permitido envelhecer (envelhecer, que era um fato natural da vida até anos atrás, virou sinônimo de relaxo e de descuido, conceitos altamente negativos em nossa sociedade); até o ecstasy, que nos faz ficar alegres e vibrantes uma noite inteira, quando nosso desejo sincero seria o de voltar para casa e dormir o sono dos anjos. Mas na ditadura do sim, não se pode admitir que se está cansado, que aquela festa está uma porcaria, que as pessoas são vazias e desagradáveis; que a música é um lixo e que a companhia é horrível. Na era do sim, aceita-se tudo, absolutamente tudo, porque não é permitido dizer não. Em nome do sim, fica-se com qualquer companhia, submete-se a qualquer coisa, agüentam-se todas as músicas, todas as festas, todas as modas. Veste-se como palhaço, mas não se diz não, isto é horrível, eu me nego a usar esta roupa ridícula!

Do ponto de vista da educação, nada poderia ter sido mais danoso e desastroso. A enorme quantidade de sins que se diz hoje em nada contribuiu para a educação de nossas crianças e jovens. O não ajudava a definir limites e ensinava a lidar com a frustração, pois, queiramos ou não, viver é administrar frustrações. A cada escolha que fazemos, temos uma frustração e uma perda para administrar. E viver é fazer escolhas. Se escolhemos ser casados, temos de abrir mão da vida de solteiros. Se escolhemos se maduros, temos de abandonar a infância. Se optamos pela medicina, temos de deixar de ser bailarinas. Não é possível ser dentista e jogador de futebol ao mesmo tempo. Se escolhemos o bolo de chocolate, abrimos mão do de creme. Assim é a vida: uma seqüência diária e infinda de escolhas e por conseqüência, uma eterna administração de frustrações. Ou era assim, até que surgiu a ditadura do sim.

Para não haver frustração nem perdas, só existe o sim. Todos as possibilidades são consideradas e nenhuma escolha é feita ou assumida de forma definitiva. Então, os casados continuam levando vida de solteiros; as mães continuam saindo com as amigas da adolescência, freqüentando a academia, fazendo pós-graduação, falando ao celular enquanto dão o peito, trabalhando na empresa, e os filhos não conseguem mais se decidir por um único programa de TV, pois passam a noite inteira de controle remoto na mão, zapiando diante da tela sem conseguir assistir a um único programa, enquanto falam ao telefone, teclam no computador, ouvem música, comem e estudam ao mesmo tempo. Tudo isso, é claro, porque seria terrível ter de admitir no dia seguinte aos colegas de classe "Não, eu não vi o show pela TV, nem o futebol, nem o filme, nem teclei. Apenas ouvi música e dormi." E também: " não fiquei com todos os rapazes na balada do sábado. Fiquei com apenas um."

Mas ficar com apenas um seria muito complicado, porque exigiria que se abrisse mão de todos os outros que estavam lá, e isto representaria uma grande perda e frustração para o ego. Como ficar com um único rapaz? Isto obrigaria a fazer uma escolha e, portanto, uma perda. E como lidar com perda, com frustração de não ter todos?

O não foi alijado do processo educacional.

Entretanto, era com o não que se educavam as crianças, quando elas aprendiam que a vida não é só beleza, nem só prazer, nem só alegria, nem só felicidade, nem só juventude, nem só riqueza; que as festas tem hora para começar e para acabar; que algumas companhias não valem nossas horas de sono; que alguns programas de televisão não merecem sequer um minuto de nossa atenção; que algumas músicas são horríveis mesmo e que, portanto, não devem ser ouvidas; que algumas roupas são tão ridículas que deveriam ser queimadas em praça pública, e que a maior parte das coisas do mundo merecem um enorme e gordo NÃO.

A doença faz parte de nossas vidas, envelhecer é um fato normal da natureza e perder faz parte do processo de aprendizagem do ser humano. Perda, medo, dor, solidão, fracasso, frustração, insucesso, feiura, velhice, tristeza, morte, angústia, pobreza, fome, sono, cansaço, depressão, ignorância, desconhecimento, são fatos normais da vida, mas foram associados à idéia de negativo, e assim, devem ser sumariamente repelidos e afastados de nossa existência.

O que há de errado no fato de uma pessoa entrar em depressão se perdeu o emprego ou a namorada? O que há de errado no fato de termos fracassado em nosso projeto apesar de nossos esforços? O que há de errado se sentimos solidão e tristeza em nossas vidas? O que há de errado em admitirmos que estamos cansados; que queremos dormir; que não gostamos de determinada música; que achamos certas pessoas super chatas; que não queremos ir a todas as festas; que detestamos passar a noite beijando caras que nunca vimos antes? Todos estes são acontecimentos normais de mentes sadias.

Assim como é saudável vivenciar a alegria, é igualmente saudável viver a tristeza. O louco é justamente aquele que sorri e acha tudo divertido o tempo todo. E como cães correndo atrás do próprio rabo, quanto mais fugimos da frustração, da dor e do fracasso na busca insana de alegria e de prazer, mais eles correm atrás de nós, pois nossa sociedade nunca foi tão doente, tão deprimida, tão triste e desamparada como hoje. O que nos leva a acreditar que a negação da frustração e a ausência de limites não gerou felicidade, mas só fez aumentar o sentimento de angústia, de solidão, de tristeza e de fracasso.

Em nossos artigos nesta coluna, temos falado repetidamente sobre a importância do limite na formação da personalidade da criança e do adolescente, não apenas para garantir uma boa formação de caráter, mas, sobretudo, para assegurar uma estrutura emocional sólida e sadia para crescer e conviver num mundo cada vez mais competitivo, exigente e desleal, que expõe crianças e adolescentes a situações extremas, em que só pessoas com estruturas emocionais excepcionalmente sólidas conseguem sobreviver. Quando falamos em "sobreviver" não estamos nos referindo a simplesmente manter-se vivo, mas manter-se são e equilibrado.

O NÃO, além de contribuir para a formação da personalidade, fortalece o ego quando a pessoa se percebe dona de sua vida e de suas escolhas, dando-se conta do tamanho do seu poder e do de controlar sua própria vida. Isto sim, traz um profundo sentimento de alegria e de bem-estar internos, pois reforça sobremaneira a auto-estima e o sentimento de ser pessoa única num universo pastoso de iguais.

Ora, se o mundo nunca foi tão competitivo e desleal, e quase todos são 100% iguais, é de se supor que, dos 100 que concorram a qualquer tipo de vaga, seja à de emprego, seja à de namorado, pelo menos 50 ficarão do lado de fora. (Estou chutando os números, mas a média deve estar por aí.) Então, como sobreviver do lado de fora do muro, se não temos sequer nossa auto-estima reforçada para nos amparar nesse momento? Esta é a pergunta que devemos nos fazer.

Penso que este artigo não será conclusivo, até porque não temos respostas prontas, mas acredito, firmemente, na necessidade de uma reflexão profunda sobre os encaminhamentos que estamos dando às nossas vidas e à de nossos filhos, pois, se não o fizermos agora, só nos restará imaginar que no futuro suas mamadeiras terão de ser abastecidas com suplementos de anti-depressivos, ecstasy, anabolizantes, energizantes, e outros aditivos que lhes permitirão passar um dia inteiro acordados sem sucumbir a todos os SINS que terão de dizer ao longo da vida.




Redação Vya Estelar



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