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Brasil pode ter até um milhão de autistas não diagnosticados

Jocelem Salgado 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Jocelem Salgado


50% dos autistas expressam o comportamento de comerem muito rápido e 46,43% consomem porções exageradas de alimentos Um tratamento alternativo para autismo, síndrome que afeta todas as áreas do comportamento humano, foi foco de pesquisa na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ).

O aumento de número de pais que utilizam uma terapêutica coadjuvante para o controle dos sintomas em seus filhos, fez com que pesquisadoras da instituição estabelecessem uma relação entre hábito alimentar e síndrome do espectro autista.

Os tratamentos mais populares são dietas que orientam para a exclusão de alguns alimentos ou grupo de alimentos. Entre as diversas dietas propostas, a mais popular é a dieta isenta de glúten (proteína presente no trigo) e caseína (proteína presente no leite e derivados). Porém, a análise dos estudos que comprovam a eficácia da dieta isenta de glúten e caseína tem sido criticada devido a questões importantes como o desconhecimento de um padrão alimentar que possa favorecer o agravamento dos sintomas do autismo e ausência de análises laboratoriais que comprovem a eficácia da dieta. Outra hipótese é de que distúrbios do metabolismo da creatina também estão integrados à doença.

“A pesquisa teve como objetivo identificar o padrão de hábito alimentar de um grupo de autistas, promover testes para o desenvolvimento de métodos de análises laboratoriais que comprovem a eficiência da dieta isenta de glúten e caseína e, também identificar a ocorrência de alterações do metabolismo da creatina a partir da análise da concentração de creatina em urina”, assegura Nádia Isaac da Silva, do programa de pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos.

Nádia relata que o estudo foi conduzido com uma população de 28 autistas com idade entre 2 a 33 anos e que a triagem foi realizada no Centro Municipal de Especialização do Autista (CEMA) da cidade de Limeira (SP), e no Núcleo de Especialização e Socialização do Autista (NESSA) da cidade de Mogi-Guaçú (SP).

A pesquisadora revela que para atingir os objetivos da pesquisa foi elaborada uma anamnese nutricional (teste recordatório ou histórico do paciente) contendo questões sobre características sociodemográficas das famílias dos autistas participantes, histórico pessoal de doenças, comportamento autista durante as refeições e levantamento de hábito alimentar. Para caracterizar o quadro clínico da população foi realizada uma avaliação psicológica por método quantitativo Childhood Austism Rating Scale (CARS). As concentrações de creatina na urina dos autistas e grupo controle formado por parentes do mesmo sexo foi determinada pelo método de Jaffé otimizado.

Os resultados sobre a caracterização da população indicaram que 1/3 dos pais de autistas possuem baixa escolaridade e 60% renda familiar na faixa de 2 a 4 salários mínimos. Segundo o método de avaliação CARS, 64% dos autistas são casos graves e 68% se encontram na faixa de retardo mental. A renite alérgica é a patologia de maior prevalência na população estudada. Em média, 60,71% dos autistas apresentam sintomas gástricos, sendo o mais freqüente a flatulência (39,90%).

O registro sobre comportamento alimentar identificou que 50% dos autistas expressam o comportamento de comerem muito rápido e 46,43% consomem porções exageradas de alimentos. Esse fato influencia diretamente no hábito alimentar.

A avaliação de adequação de consumo de nutrientes revelou que 57,14% têm o consumo de energia superior ao recomendado e baixo consumo de fibras, ácido ascórbico e cálcio. Já as análises de concentração de creatinina revelaram que os valores são significativamente inferiores em crianças autistas e do grupo controle formados por parentes distantes, e que são similares quando comparado com grupo formado por seus pais.

“Diante disso, o conhecimento do hábito alimentar e principalmente o desenvolvimento de métodos de análises que comprovem concentrações inadequadas de peptídeos opiáceos derivados do glúten e da caseína ainda é um desafio”, afirma a pesquisadora. Hoje, continua Nádia, “é necessária a realização de pesquisas para criar metodologias de análise de peptídeos opioides em fluidos corpóreos mais confiáveis, passíveis de reprodução. Na literatura, os resultados positivos obtidos em estudos não são replicáveis, formando uma lacuna para a compreensão da relação entre alimentação e comportamento autista”, conclui.

Para Jocelem Mastrodi Salgado, orientadora do estudo, “a importância dessa pesquisa é mostrar que tanto o conhecimento como a compreensão dos fatores associados à patologia e o emprego de exames laboratoriais seguros irão contribuir para um diagnóstico precoce da doença, possibilitando dessa forma o acesso a tratamentos mais adequados. Esses tratamentos sem dúvida alguma, acarretarão a melhora do quadro clínico e, consequentemente da qualidade de vida dos autistas”.

Jocelem afirma ainda que, “as pesquisas com finalidade de criar novos tratamentos coadjuvantes e biomarcadores confiáveis de diagnóstico para o autismo são de grande importância em um país como o Brasil em virtude do elevado número de casos de autistas que não têm acesso ao diagnóstico e nem a tratamento adequado. Até a presente data, não existe no país dados oficiais sobre a prevalência do autismo. Informações apontam para a média de 50 mil autistas, mas estima-se que exista, pelo menos, 1 milhão deles sem diagnóstico”, finaliza.

O projeto de pesquisa foi desenvolvido nos laboratórios de Nutrição Humana do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição (LAN), sob orientação de Jocelem Mastrodi Salgado.

 




Jocelem Salgado

Profa. Titular de Vida Saudável da ESALQ/USP/Campus Piracicaba. Autora dos livros: "Previna Doenças. Faça do Alimento o seu Medicamento" e "Pharmácia de Alimentos. Recomendações para Prevenir e Controlar Doenças", editora Madras



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