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Timidez ou birra? A criança birrenta-tímida

Ceres Alves Araujo 01/01/2016 COMPORTAMENTO

por Ceres Araujo

"Porém, muitas vezes, crianças maiores de 5 anos mostram a birra camuflada em timidez. Esse quadro é mais difícil de ser percebido pelos pais e mesmo pela escola..."

Nas idades adequadas (explico mais abaixo), timidez e birra são comportamentos normais, esperados e até desejáveis.

Depois dessas idades, essas características podem prejudicar o desenvolvimento psicológico e a adaptação ao mundo.

Ao aprender a lidar com relações de causalidade, as crianças descobrem a possibilidade da previsibilidade. Em decorrência, tudo o que é conhecido e, portanto, previsível, tranquiliza. Ao contrário, o que é novo, diferente e imprevisível costuma dar medo. Assim, por medo do desconhecido, por medo do que poderá acontecer e por medo da exposição, muitas crianças apresentam timidez. Tornam-se mais cautelosas nos ambientes sociais, demoram mais para se colocarem de uma maneira mais relaxada, espontânea frente aos outros que não são seus familiares. Ao crescerem, ao ganharem mais segurança quanto a si mesmas, essas crianças aprendem a controlar essa timidez e se tornam mais confiantes na sua apresentação ao mundo.

Quando a timidez não consegue ser controlada, ela pode se transformar em timidez patológica, com danos importantes para o futuro do indivíduo. Essa pessoa excessivamente tímida perde oportunidades na vida e tende a passar a se arrepender do que não teve coragem de fazer.

Idades da birra

No que diz respeito à birra, sabe-se que é uma conduta esperada a partir dos dois anos, ganha seu auge entre os 3 e 4 anos e tende a diminuir e desaparecer até os 5 anos de idade. É uma conduta desejável nessas idades, pois significa que a criança está testando os limites, para delimitar as fronteiras de seu campo de ação e do campo dos demais. Motivada pela intenção de manter a ilusão da própria onipotência, quando contrariada, a criança faz birra. Quando essa birra é adequadamente lidada pelos pais, a criança aprende a lidar com a frustração, adiar a satisfação das suas necessidades e desejos, ganhando a possibilidade de começar a controlar seus impulsos e regular suas emoções.

Existem crianças, entretanto, que depois dos 5 anos, permanecem muito birrentas, com dificuldade para aceitar os limites, as interdições e que não admitem serem contrariadas. São filhos que causam muito estresse para seus pais, mantendo a casa toda em um clima de elevada tensão, na luta constante de submeter todas as pessoas aos seus desejos. Muitos pais acreditam que têm filhos com “personalidade forte”. Ledo engano! Na realidade essas crianças, que não aceitam limites e que não aprendem a lidar com frustrações, são frágeis internamente e desperdiçam energia no esforço de se indispor ao que lhe é proposto. Essa energia, ao contrário, deveria estar disponível aos processos criativos do desenvolvimento. Ademais, existe o risco de crescerem assim e se transformarem em adultos que não desenvolvem a capacidade da adaptação inteligente ao mundo.

Quando a birra tem manifestação externa e exuberante é fácil de ser percebida e tratada. Porém, muitas vezes crianças maiores de 5 anos mostram a birra camuflada em timidez. Esse quadro é mais difícil de ser percebido pelos pais e mesmo pela escola, principalmente se o adulto, no caso, foi uma criança tímida de verdade. Aí, ele tende a projetar seus sentimentos sobre a criança, a ter pena dela e a reforçar a conduta birrenta-tímida.

Nesse quadro, a pseudotimidez é manifestada fora de casa, principalmente em ambientes novos. O filho esconde-se atrás dos pais, quer se enfiar entre suas pernas, recusa-se a olhar, a responder, a atender a todo tipo de solicitação que lhe seja feita por qualquer interlocutor. Pode permanecer um tempo longo, absolutamente parado, na recusa à interação, deixando seus pais angustiados e muitas vezes suplicantes para que o filho colabore. É uma criança que está acostumada a ver o adulto insistindo com ela, seduzindo-a, fazendo barganhas, para que ela se disponha a fazer o que deveria. Ela tem, é evidente, o adulto sob seu controle.

Essa pseudotimidez é um instrumento poderoso de manipulação. Na escola, essa criança espera que a professora dê a atenção individualizada, a qual está acostumada, para que produza. Também na socialização, existirão sempre dificuldades, pois essa criança não consegue manipular seus pares. Tende a ser marginalizada pelos colegas, pois não sabendo nem ceder, nem se impor adequadamente, não consegue brincar em grupo, se fazer querida pelos demais. A justificativa errônea dada em tais circunstâncias, é a que a criança é muito tímida.

Na família nuclear (constituida pelos pais e irmãos) na família extensa (avós, tios, primos, parentes em geral), a criança birrenta-tímida consegue êxito nos seus esforços de manipulação e controle. Vista como coitadinha, por ser muito “tímida”, ela tem todos a seu serviço e, com o tempo, pode vir a se tornar uma criança extremamente autoritária e de convívio difícil. Com certeza, ela não tem culpa, pois foi condicionada a se comportar assim.

Tal manifestação de birra, necessita ser tratada exatamente como as demais formas de birra. Birra não se sustenta sem plateia! Se os adultos que cuidam de uma criança birrenta-tímida retirarem totalmente sua atenção nos momentos onde esse comportamento aparece e conseguirem deixar que a criança sozinha resolva a situação, já estarão deixando de reforçar a birra.

Poderão fazer mais, parando com os pedidos, súplicas e chantagens para que a criança colabore. Poderão fazer ainda mais, ao não se deixarem ser afetados por essa pseudotimidez.

 




Ceres Alves Araujo

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.



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