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Como tratar de grave síndrome de abstinência do cigarro?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Danilo Baltieri

"Peço socorro, necessito de ajuda com urgência. Tenho 32 anos, fumei por 17 anos e resolvi parar por perceber que estava fazendo mal. Parei de vez e hoje, 29/06, faz 34 dias que parei. Estou tendo abstinência: dores de cabeça, tremedeira, calafrios, MUITA irritação. Mas de todos os males, o pior deles, que está me enlouquecendo, é que não paro de ter ânsia de vômito, muitas náuseas e tonturas; fico o dia todo assim. Desde o 8º dia que comecei a sentir essas coisas. Já consegui brigar no trabalho, em casa minha mulher não me suporta. Preciso controlar a ansiedade, em 34 dias engordei 8 kg, perdi algumas calças e as camisas estão horríveis. Aliás, desde criança tenho ansiedade, mal que controlei com o cigarro."

Resposta: De fato, a síndrome de dependência de tabaco é um importante problema de saúde pública, tendo em vista as várias consequências negativas do uso dessa substância. A interrupção do seu consumo por dependentes é consideravelmente difícil, e entre aqueles que tentam por si mesmos, cerca de 85% recaem.

Os principais sintomas da síndrome de abstinência incluem:

a) irritabilidade;
b) prejuízos do sono;
c) fissura intensa pelo tabaco;
d) prejuízo na concentração e atenção;
e) aumento do apetite;
f) sintomas depressivos;
g) ansiedade;
h) náusea.

Estes sintomas da síndrome de abstinência costumam iniciar poucas horas após o último cigarro fumado. O pico dos sintomas geralmente ocorre nos primeiros dias da interrupção. Para algumas pessoas, os sintomas de abstinência perduram por meses.

Embora os sintomas da síndrome de abstinência sejam ocasionados pelos efeitos farmacológicos da nicotina no cérebro, muitos fatores comportamentais podem afetar a gravidade desses sintomas. Para algumas pessoas, o cheiro, a luz do cigarro, a sensação do cigarro entre os dedos, o ritual para manusear, acender e fumar estão associados com os efeitos prazerosos do fumo.

É importante registrar que a nicotina não é o único ingrediente do tabaco que tem potencial para induzir dependência. Isso, certamente, contribui para o alto potencial aditivo do tabaco.

Fatores relacionados à gravidade dos sintomas

Alguns fatores têm também sido relacionados com a maior gravidade dos sintomas da síndrome de abstinência entre dependentes de tabaco, tais como:

a) tempo de dependência: quanto mais tempo o indivíduo fumou, mais difícil é a interrupção, geralmente. Com um maior tempo de consumo, o cérebro associa cada vez mais experiências com o uso de tabaco;

b) transtornos psicológicos subjacentes: se o consumo de tabaco servia (e serve) para lidar com sentimentos de solidão, baixa autoestima, depressão, ansiedade etc, então os sintomas da síndrome de abstinência podem ser maiores e, consequentemente, a dificuldade para cessar o consumo será maior;

c) frequência do consumo por dia: quanto mais cigarros o indivíduo consome por dia, mais intensos poderão ser os sintomas da síndrome de abstinência;

d) falta de uma rede de apoio ou suporte;

e) falta de motivação clara que induza o dependente a interromper o consumo deletério do tabaco.

Além da satisfação conseguida através do fumo e da esquiva aos sintomas da síndrome de abstinência, existem vários fatores que dificultam a cessação do consumo de cigarros. Essa substância exerce efeitos na modulação do humor, redução do estresse, redução da dor, controle do peso e melhora cognitiva. Dessa forma, o tratamento para deixar de fumar pode ser mais difícil entre pacientes com outros transtornos psiquiátricos (como depressão e ansiedade), preocupados com o ganho de peso e com quadros crônicos de dor.

Na sua pergunta, você menciona que sempre foi ansioso e que o consumo do cigarro foi uma forma que você encontrou para lidar com esse problema. De fato, isso não é incomum, infelizmente.

Embora algumas pessoas consigam interromper o consumo de tabaco sem receber ajuda especializada, muitas outras não têm o mesmo sucesso. Isso não depende simplesmente da tão falada "força de vontade". Isso depende de uma miríade de fatores individuais, inclusive da gravidade da dependência.

Existem tratamentos propostos para este problema que demonstram efetividade. Todavia, muitos dependentes demonstram notável dificuldade para cessar o consumo dessa substância, mesmo quando submetidos a tratamentos que integram a abordagem com medicações e as psicoterapias.

A grosso modo, as propostas farmacológicas visam a combater a fissura e os demais sintomas de abstinência; e as propostas psicoterapêuticas visam a fornecer ao dependente instrumentos cognitivos para identificar fatores de risco, gatilhos para o uso e desenvolver habilidades para driblar as situações de risco.

Preteritamente, neste mesmo site (veja aqui), forneci algumas informações sobre as medicações atualmente usadas para o manejo desse problema. Recomendo a leitura.

Como você mesmo reconhece a dificuldade para cessar o consumo da droga, bem como os sintomas de abstinência, recomendo que procure auxílio de especialista. Seguramente, o especialista poderá auxiliá-lo nessa difícil, mas altamente benéfica, tarefa de interromper completamente o consumo do tabaco.

De qualquer forma, parabéns pela sua iniciativa.

 

 

 

 

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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