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Viver só tem sentido se nos abrimos ao mundo do outro

Fátima Fontes 01/01/2016 COMPORTAMENTO

por Fátima Fontes

“As cidades têm sido um locus de poder, cujos espaços tornaram-se coerentes e completos à imagem do próprio homem. Mas também foi nelas que essas imagens se estilhaçaram, no contexto de agrupamentos de pessoas diferentes – fator de intensificação da complexidade social – e que se apresentam umas às outras como estranhas. Todos esses aspectos da experiência urbana – indiferença, complexidade, estranheza – sustentam a resistência à dominação ”
(Richard Sennett, Carne e Pedra, p. 24).

Seguimos nossa aventura de neste espaço pensarmos sobre nós e nossos vínculos. Para este encontro, fui tocada pela nossa luta, principalmente em nossos grandes centros urbanos, em lutarmos com certa frieza e estranheza frente ao outro com quem convivemos.

Percebo que andamos meio que pedindo: “Socorro, não estou sentindo nada...”

Como fala essa canção de Arnaldo Antunes, estamos bastante letárgicos, talvez correndo o risco de lentamente perdermos os sentimentos e a sensibilidade, já não nos dispondo mais a nos alegrar com os que se alegram, nem chorar com os que choram.

E somente nós poderemos transformar esse gelo que insiste em nos congelar: somos nós que participamos desta construção relacional humana, e se desejarmos qualquer mudança ao nosso redor, ela precisará se iniciar em nosso próprio mundo pessoal.

Mas evidentemente, como tudo na vida, haverá um preço a pagar nesse degelo relacional: iremos entrar em contato com a dor, essa emoção que além de humana, é presente em todo ser vivente, mas que em tempos de excessiva individualidade, queremos cancelar de nosso repertório pessoal humano. E somente sensíveis outra vez à nossa dor e à dor do outro, poderemos nos encontrar com a vida que faz sentido e comporta sentimentos.

Não vai dar mais pra chorar se não sentirmos a dor

Se vamos nos abrir aos sentimentos, nos abriremos ao contato com o desconforto da dor, diante da qual já não poderemos continuar passivos.

Vivemos na cidade de São Paulo, num chuvoso e frio dia 17 de julho de 2012, um marco que mostra nossa sensibilidade cidadã: inauguramos a Praça Memorial 17 de Julho em homenagem aos mortos na queda do avião da TAM, que totalizaram 199 vítimas da explosão do Airbus A-320, em 2007, no Aeroporto de Congonhas, na cidade de São Paulo.

Para além das famílias, todos os cidadãos de nossa fria metrópole, têm mais um lugar onde chorar, onde simbolizar a dor dessa perda, e talvez de outras, que carecem ser simbolizadas, para serem elaboradas. E podemos chorar juntos, o que mostra que apesar de termos construído um mundo que é dominado pelo individualismo e pela negação da dor, não foi possível deixar de lado pequenas brechas que nos lembram de que sentimos e ressentimos, porque somos humanos.

E essa dor nos pode servir de elo de ligação com outros que choram, que às vezes estão também em nosso pequeno mundo privado. Recebi, uma mensagem de pedido de ajuda que foi motivado pela leitura dessa coluna, e esse pedido se dava por se estar vivendo conflitos inter-relacionais familiares. E confesso que essa solicitação me ajuda a continuar nesse exercício reflexivo, pois mostra que estamos avançando na direção da partilha e do fim da dor solitária.

Em momento social e existencial tão carregado pela incessante chamada ao lazer, à diversão e ao consumo que não nos deixa sentir o vazio do ser, assumir que nos perdemos em nossos vínculos, é o primeiro e grande passo para achar saídas: quer elas nos levem a uma reconstrução de nossos vínculos, ou mesmo à necessidade de uma separação, que poderá ser feita com a dor das perdas, mas em regime de dignidade humana.

Quando podemos chorar, e melhor ainda, chorar juntos, descobrimos, como na Praça 17 de Julho, que apesar da tragédia partes não foram destruídas, como a forte amoreira que resistiu à explosão e hoje, nesse memorial, simboliza a força da luta pela vida. É assim que, podendo chorar e elaborar nossas tragédias pessoais e coletivas, nos tornaremos resilientes (capazes de superar as adversidades), capazes de crescer e nos tornarmos melhores com as aprendizagens trazidas pelos infortúnios do viver.

Socorro, alguém me dê um coração

Outra decorrência que vem com nosso degelo afetivo é que voltaremos a sentir, e aí não entra somente a dor e a tristeza, mas também a alegria de viver, que nos torna mais fortalecidos pela boa presença do outro, que nos tranquiliza e confirma.

Estou vivendo uma experiência ímpar em minha vida há pouco mais de um mês, no dia 14 de junho de 2012 me tornei a vovó do pequenino Mateus. Mirá-lo silenciosamente, ou cantando canções de amor, se converte em momento de profunda alegria, e percebo o quanto a alegria desse bom encontro nos acalma e enriquece: ele relaxa totalmente e dorme em paz.

Precisamos praticar mais o sermos boa presença para o outro, pois temos nos perdido em nossa pressa cotidiana, em nossa luta por nossa sobrevivência, por nossas carreiras, por nossas viagens, etc... E muitas vezes temos nos tornado duros, intolerantes e insensíveis, perdendo a nossa paz, produzindo assim um mundo privado e público de desassossego e intranquilidade.

Parece que saímos da rota do simples, da contemplação, da gratidão e nos tornamos reféns de substâncias da alegria, do relaxamento, das deliciosas viagens para além da dor, e muitas vezes, sem a presença de uma substância psicoativa não conseguimos mais dar uma gargalhada ou mostrarmos nosso bem querer pelo outro.

Somos então convidados a sermos outra vez coração: que pulsa, que bombeia vida, que transmite vida. Assim poderemos ultrapassar a atual insensibilidade corporal e sua consequente passividade diante da dor e das promessas de prazer, num continuado exercício de um ‘conhecimento espiritual’ a ser adquirido pelo corpo, que poderá encontrar na cidade e em suas relações, um asilo para si, como nos propôs o Psicólogo Social norte-americano Richard Sennett.

Enfim, um convite ao sentir para dar sentido

Desejo ter contribuído com essa reflexão para um alargamento de nossos horizontes inter-relacionais, na firme crença de que nossas vidas precisam de um sentido, que somente poderá ser encontrado a partir de nossa abertura ao sensível mundo com o outro.

Que juntos, mais atentos à qualidade de nossas trocas, possamos atender ao apelo que mais uma vez nos fez um sensível músico, o Arnaldo Antunes: Socorro, alguma rua que me dê sentido...

Socorro
Arnaldo Antunes

Socorro
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir

Socorro
Alguma alma, mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada

Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!

Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva

Socorro
Alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento
Acostamento, encruzilhada
Socorro! Eu já não sinto nada

Socorro
Não estou sentindo nada (nada, nada)
Nem medo, nem calor, nem fogo
Nem vontade de chorar
Nem de rir

Socorro
Alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Eu Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada

Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!

Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva

 

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Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008

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