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Mudar um relacionamento não é nada fácil, mas é possivel

Aurea Caetano 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Não há traição maior... que a negação de nossas reais necessidades

por Aurea Afonso Caetano

Como mudarmos mantendo nossa coerência e lugar no mundo?

Parece simples mas mudar não é tarefa fácil. Apesar de muitas vezes estarmos de fato comprometidos com a necessidade de uma transformação, ela não acontece de forma tão simples e tranquila quanto gostaríamos.

Há algo da ordem do já conhecido, do cotidiano, do aprendido e repetido milhares de vezes ao longo da vida, que quase nos impele a um caminho circular no qual mudanças apenas podem ocorrer a partir de "acidentes de percurso" ou por bravas determinações.

Pensemos, por exemplo, nos complexos padrões de relacionamento que se instauram em um casamento. Pessoas se apaixonam, namoram, moram juntas, casam e tem filhos (ou não), há variações de todo o tipo, mas é inevitável que um padrão de funcionamento vá se desenvolvendo entre os parceiros desta dupla. O relacionamento pode ser mais ou menos saudável, mas o que se espera é que seja minimamente viável para que perdure.

Ora, muitas vezes o que em um momento de aproximação e encantamento era visto como muito sedutor e interessante, com o passar do tempo, torna-se o maior pesadelo para o parceiro. Explico: a moça tímida se encantou com o sujeito extrovertido e falante, que por sua vez viu naquela moça recatada uma ancora sólida e séria, alguém em quem se poderia confiar. Com o passar do tempo e o caminhar da relação, a moça vai se cansando das brincadeiras e fanfarronices do sujeito enquanto ele começa, por seu lado, a reclamar da seriedade chata da moça. Diz ele que ela está o tempo todo criticando suas brincadeiras e que não aguenta mais suas reclamações, não consegue mais fazê-la rir; sente que está se relacionando como uma velha chata. Ela, por outro lado, parece ver naquele homem, a princípio tão interessante e divertido, apenas uma criança irresponsável e reclama do peso que aquela relação representa para ela.

Cada um deles deve ter sido atraído por seu oposto, ou seja, o homem-brincalhão-leve pela mulher-tímida-séria. Até aí, problema algum, faz parte do jogo. No entanto, questões surgem quando durante o relacionamento cada um dos parceiros acaba por viver apenas um dos polos e passa a ser o representante na relação de tudo aquilo que é o difícil de ser vivido pelo outro. Ou seja, quanto mais o homem-brincalhão-leve tem dificuldade de viver seu lado reservado e sério, tanto mais tenderá a ver isso em sua mulher e vice-versa. Quanto mais dificuldades a mulher tiver de lidar com seu lado divertido e leve, mais tenderá a ver isso apenas em seu companheiro.

Ora, qual seria a saída possível para esse dilema (possível, mas não fácil): cuidar de não ficar fixado em apenas um tipo de funcionamento. O que atrai é normalmente aquilo que me falta, o que me completa... mas atribuir ao parceiro a responsabilidade por viver em meu lugar esses aspectos, é manter o relacionamento paralisado, e mais impedir, em cada um de nós o crescimento de novas possibilidades de funcionamento.

Para que continuemos crescendo e nos desenvolvendo (aqui outra palavrinha complicada) precisamos acolher as possibilidades de mudança mesmo que elas possam nos parecer, em algum momento, uma traição à relação. Não há traição maior a qualquer tipo de relacionamento que a negação de nossas reais necessidades. Para manter saudável qualquer relacionamento é necessário, acima de tudo, que sejamos inteiros.

Como já disse o poeta:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis (Fernando Pessoa).

 




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Aurea Caetano

É psicóloga formada pela PUC-SP, trabalha em consultório com atendimento de adolescentes, adultos e casais. Mestranda em Psicologia Clínica na PUC-SP, analista junguiana formada pela SBPA- IAAP (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica).



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