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Por que parte dos pais não quer que seus filhos se profissionalizem no futebol

Renato Miranda 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Por que parte dos pais não quer que seus filhos se profissionalizem no futebol
Fonte: Google Imagens
Hoje muitos atletas de futebol profissional viraram um péssimo exemplo de comportamento

por Renato Miranda

O esporte, como atividade que pode trazer benefícios aos jovens, é inúmeras vezes citado como meio de facilitar o desenvolvimento da autoconfiança, da disciplina, das relações sociais, do preparo físico e outros.

No Brasil, o futebol como esporte mais praticado, via de regra é procurado por muitos garotos para vivenciar práticas que vão do lazer ao treinamento especializado.

Como o número de praticantes é alto, naturalmente muitos jovens começam desde cedo a se dedicar aos treinamentos para se tornarem atletas de fato. Especialmente os meninos passam um bom tempo de suas vidas desejando um dia se profissionalizarem. Outros nem tanto, mas mesmo assim se dedicam ao esporte como uma parte importante em suas vidas.

Além de proporcionar benefícios físicos, psicológicos e sociais, o futebol se tornou uma possibilidade de ascensão social e somado ao reconhecimento que a mídia dá ao futebol nada mais natural o desejo que os jovens têm de se tornarem profissionais.

No entanto, um fato me despertou curiosidade para fazer conjeturas e avaliações. Alguns pais de “garotos bom de bola” não querem que seus filhos continuem a jogar seriamente. Segundo eles, o futebol brasileiro não é um bom modelo para os jovens.

Os pais chamaram minha atenção para a seguinte situação: Hoje muitos atletas de futebol profissional, considerados ídolos (os de menor expressão também) viraram um péssimo exemplo de comportamento dentro e fora de campo e, por conseguinte, são copiados por aqueles que estão no início de suas formações esportivas. Motivados pela repercussão da mídia de suas conquistas esportivas, se comportam como se estivessem acima da lei e de qualquer outra coisa.

Dentro de campo se comportam como verdadeiras “estrelas”, que em cada gesto demonstram desrespeito com companheiros, adversários, árbitros, jornalistas e torcidas, através de atitudes grosseiras que vão desde o tratamento impróprio com as pessoas, a comemorações excessivamente debochadas e infantilizadas.

Fora de campo, se consideram onipotentes, “lançadores de moda”, esbanjadores e com direito a fazerem o que bem entendem. Ou seja, tudo ou quase tudo, que uma boa educação recrimina.

O que esses pais dizem é que essa situação é uma tendência e não um comportamento definitivo, mas arriscam dizer que são poucos os jogadores que se “salvam”. Não sei exatamente se é bem assim, todavia pelo que repercute a mídia parece-me que esses pais têm razão.

Muitos garotos, principalmente os das cidades do interior (por que precisam mudar para a capital e, portanto perdem o convívio familiar), quando por volta dos 15 anos se revelam verdadeiros craques de futebol e possuem uma boa formação intelectual e social, e por isso poderiam se dedicar ao futebol em algum grande clube desanimam rapidamente ao constatar o que os reserva.

Isso por que sabem que nos grandes clubes nas ditas divisões de base, os jovens que já estão por lá “replicam”, naquilo que sua condição de vida (econômica e de status principalmente) permite o comportamento dos profissionais. Ou seja, em uma única palavra: hostilidade.

Aqueles que se aventuram e saem de suas cidades para morar em algum clube encontram constrangimento, precariedade de relacionamento e desilusão. Assim sendo, cada vez mais atletas de cidades do interior com certa condição social e econômica que poderiam contribuir para o futuro do futebol brasileiro, sequer tentam ser atletas.
Resultado: observem que em quase na totalidade apenas garotos das classes mais desfavorecidas se submetem ao ambiente futebolístico, já que não têm outra opção para progredir na vida.

Não sei se as considerações desses pais são muito dramáticas ou exageradas, mas uma coisa é certa, em quase todos os casos, jogadores de futebol dificilmente são de origem das classes socialmente mais ascendentes. Em consequência o Brasil perde um grande potencial de revelação de novos atletas e com isso, alimenta um preconceito às avessas ao reproduzir a ideia de que só os pobres é que se profissionalizam, pois não têm outra coisa para fazer.

Aumentar o nível profissional das chamadas concentrações para jovens atletas com formação cultural e humanizada. Abrir possibilidades para que qualquer garoto seja bem recebido por um clube independentemente de sua origem social, dar formação escolar com devida atenção e com qualidade, amparo psicológico e social para que cresçam longe da família com segurança e afeto.

Talvez, para um “boleiro” essa conversa seja uma grande bobagem. Possivelmente seja, no entanto não vejo outra saída para melhorarmos o nível de nossos futuros jogadores de futebol. Crescer e achar que fama e dinheiro já bastam para o homem é assistir o que vemos hoje, dentro e fora de campo.

Em poucas palavras, nossos jogadores profissionais (não todos) são incapazes de reconhecer as fronteiras daquilo que é certo ou errado, estético ou ridículo e lentamente vão escorregando para o fundo da esquisitice.




TAGS :

    filhos, profissionalizar, futebol, pais

Renato Miranda

Professor da Faculdade de Educação Física da UFJF; Mestre e doutor em Psicologia do Esporte (UGF); Especialista em didática e psicologia do esporte na Alemanha (Escola Superior de Esporte Alemã - Colônia) e Rússia (Instituto de Cultura Física de Moscou); Consultor de atletas em psicofisiologia (concentração, estresse. motivação e flow-feeling).



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