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Sou alcoólatra, solitário e bebo todos os dias. Como saio disso?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
O alcoolismo já foi descrito como a 'doença solitária'

por Danilo Baltieri

"Sou alcoólatra e tenho uma vida miserável. Ninguém sabe ou percebe que sou. Aliás, acho que isto torna minha situação até mais difícil. Não falto ao trabalho, não dirijo quando bebo, não causo nenhum transtorno com a bebida. Mas, aniquilei minha vida pelo álcool. Bebo todos os dias (noites) após o trabalho: começo às 18h30 e vou até perder os sentidos. No outro dia, estou recuperado e sigo minha rotina: trabalho o dia todo e à noite bebo enquanto aguentar. Todo dia é assim. Percebi que o senhor enfatiza muito a importância da família e de amigos na ajuda para a recuperação, porém, não tenho nem um, nem outro. Minha ex-esposa me deixou há três anos e levou minhas duas filhas junto e minha família materna simplesmente me abandonou. Sou um profissional estabelecido e tenho um bom salário; me aposento em três anos. Tenho formação em curso superior e uma boa concepção cultural, más não consigo largar o vício. Uso apenas álcool - destilados, quase sempre. Se não bebo à noite, simplesmente não durmo, porque tenho pesadelos durante a noite toda. É possível obter cura deste meu vício, mesmo sem família e/ou sem amigos. Sou carente de ambos. Vivo só. Boa noite!"

Resposta: Relações familiares e afetivas estáveis são importantes fatores associados com o bem-estar individual e com a sensação de segurança. A capacidade para estabelecer e manter vínculos estáveis, inclusive familiares, tem sido vista como uma importante e positiva característica da personalidade. Muitas vezes, uma pessoa pode possuir essa capacidade em um grau adequado; porém, devido ao surgimento de uma doença, como a depressão e o alcoolismo, pode ter essa capacidade transitoriamente perturbada. E esse estado "transitório" comumente é bastante preocupante.

No contexto do consumo inadequado de bebidas alcoólicas, o isolamento social e familiar tem sido visto tanto como um fator relacionado com a causalidade quanto como uma das repercussões do beber pesado. Independente da direção do relacionamento solidão-alcoolismo, nos contextos clínicos, a ausência de vínculos familiares e afetivos estáveis é vista como um fator complicador no prognóstico do alcoolismo.

O alcoolismo já foi descrito como a "doença solitária", ou seja, o bebedor acaba perdendo importantes vinculações afetivas. E a solidão, nesse contexto, pode ser devastadora de fato, especialmente quando o bebedor percebe que perdeu sua rede de apoio social verdadeira. Uma rede social forte e confiável afeta positivamente a saúde mental de uma pessoa, satisfazendo-se necessidades de afiliação, reconhecimento pessoal e social, combate-se situações de estresse.

Muitas vezes, durante programas de reabilitação, portadores da síndrome de dependência de álcool consideram mais difícil reconquistar os seus familiares do que cessar o consumo de bebidas. De qualquer forma, reconhecer a necessidade de uma rede de apoio sólida e verdadeira é altamente recomendável.

Também, em um outro sentido, a presença e a insistência dos familiares junto ao portador da doença aumentam as chances da busca por tratamento efetivo. O contrário, ou seja, a falta de familiares ou vinculações estáveis complica o quadro. O bebedor se sente abandonado, não vê sentido em interromper o consumo da substância, perde o foco e mantém o ciclo nocivo.

Seguramente, você está reconhecendo que o seu estilo de vida é prejudicial ou como você mesmo diz, "miserável". Está mais do que na hora de procurar um profissional de saúde habilitado para iniciar tratamento. A sua doença pode ter colaborado de forma decisiva para o afastamento de seus membros familiares. Assim, a modificação do estilo de vida pode ser essencial na sua recuperação.

 

 

 

 

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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