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Ética e alteridade

Monica Aiub 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
Reproduzir padrões de pensamento pode ser um entrave

por Monica Aiub

Que tal refletirmos sobre o que pensamos, sentimos e fazemos?

No artigo anterior, abordei a temática “Quem é o outro?” - clique aqui e leia. Apesar desse outro, que não sou eu, colocar-se, muitas vezes, como objeção àquilo que sou, é ele quem me provoca a refletir, a movimentar minhas crenças, atualizar meus pensamentos e até, por vezes, a modificar minhas formas de vida.

Ainda que comumente possamos resistir a tais objeções, elas nos provocam a rever, reavaliar nosso pensar, colocar em movimento muitas de nossas crenças cristalizadas. Quantas vezes, leitor, você modificou algo em sua vida por causa de objeções ou observações de outros? Ou ainda, quantas vezes a realidade mostrou que suas expectativas não eram compatíveis com os dados concretos do mundo, que seus projetos eram irrealizáveis, forçando-o a modificar suas expectativas e projetos?

Num primeiro momento, a tendência é considerar o outro insuportável, desagradável, quando ele nos traz objeções. Algumas pessoas ficam com raiva, e gostariam que esse outro não existisse, uma vez que ele “atrapalha” seus caminhos. Atrapalha? Ou ajuda a repensar, a ver sob outro prisma, a avaliar os posicionamentos? E se víssemos esse outro como alguém que traz a possibilidade de pensar, que provoca a olhar para o mundo de outra maneira, que remete à atualização de nossas formas de vida? Não seria ele, ao invés de um incômodo, um aliado, um amigo?

Para alguns, diferentemente de uma objeção, o outro representa um modelo a ser seguido, um padrão a ser alcançado. Em alguns casos, trata-se de uma decisão deliberada: admiro o outro e desejo ser como ele. Em outros casos, simplesmente passamos a imitar, a seguir os passos do outro, como se fôssemos seu espelho. E curiosamente, nem sempre aquilo que fazemos em tal processo de “imitação” é bom, é admirável. Você já foi influenciado por alguém em algo que não era agradável nem admirável a você? Você já fez algo simplesmente por seguir um modelo? Ainda mais especificamente, já se pegou repetindo expressões, formas de falar, posturas, gestos que não são seus? Como isso ocorre?

Há ainda, nesse caso, o agir a partir da ação do outro, “fazendo o que todo mundo faz”, “pensando como todo mundo pensa”, “sentido o que todo mundo sente”. Você costuma fazer, pensar e sentir assim? “Todo mundo pensa assim”, “todo mundo faz isso”, “todo mundo sente assim” são bons argumentos para orientar seus pensamentos, ações e sentimentos? Já pensou que esse “todo mundo” é apenas uma figura abstrata, constituída por aproximação? Já lhe ocorreu que esse “todo mundo” pode estar “equivocado”? Quantas ações consensuais não foram grandes desastres para a humanidade? Teriam elas beneficiado alguns? Seriam todos os membros de tal consenso conscientes daquilo que apoiaram?

São muitas questões sem respostas que surgem quando nos debruçamos sobre as relações com o outro, sobre a vida em sociedade e suas formas de organização. Muitas vezes somos levados a acreditar que existe apenas uma maneira para se viver. Quando a maneira proposta pelo outro não é condizente com nossas necessidades, quando nosso modo de ser encontra objeções no mundo, as formas como atualizamos nosso pensar, sentir e agir são diversas.

Alguns alteram o que pensam, sentem e fazem, buscando adaptação ao que encontram em seu entorno; outros tentam alterar seu entorno; há aqueles que declaram guerra ao seu entorno, e aqueles que buscam um equilíbrio entre suas necessidades e as necessidades do entorno; etc. Seja lá qual for a forma, é preciso ponderar as possibilidades existentes, estudá-las e estudar a si mesmo e ao mundo, a fim de verificar quais são as possíveis consequências de uma escolha por uma forma de vida.

Esse movimento implica num exercício de alteridade, observando as possíveis reações do outro diante de nossos posicionamentos, e também observando nossos novos posicionamentos possíveis a partir de tais reações. Trata-se de um estudo complexo, que exige a leitura de diferentes formas de interseção dos elementos do entorno, exige a capacidade de ler os padrões de regularidade existentes à nossa volta, mas também nos obriga a contar com o acaso, com o inesperado e, principalmente, nos revela a difícil constatação de que não teremos certezas absolutas, segurança total em nossos movimentos.

O outro, o mundo, nos desestabiliza, mas é exatamente esta instabilidade que nos permite observar as possibilidades, e construir novas formas de existência. Tais formas podem alterar nossa constituição, assim como podem alterar o mundo que nos rodeia. As alterações provocadas serão novas realidades, novas alteridades a nos confrontar, a provocar novos movimentos.

Plasticidade

A capacidade de movimentação diante das exigências do mundo é denominada plasticidade, capacidade que todos organismos têm. Nossas células possuem plasticidade, nós, na qualidade de organismos vivos, possuímos também. A aprendizagem é a realização desta capacidade (conforme BUNGE,2002; MATURANA, 2005) que todos temos. Se pensarmos em nossa sociedade como um organismo, se observarmos as movimentações constantes que se deram no decorrer da história, constataremos que a sociedade também possui plasticidade e, por isso, é possível a aprendizagem, a criação de novas formas de vida social.

Mas o que é preciso para aprendermos novas formas de existência, para criarmos outras possibilidades? Um dos entraves para nossas movimentações políticas é a reprodução de padrões de pensamento, sentimento e ação. Repetimos o que “todo mundo pensa, sente e age”, como se todo mundo fosse, literalmente todo o mundo. Não nos lembramos que somos parte deste todo que é nomeado como “todo mundo”, e que nossas movimentações podem ser contagiantes, reverberando em locais, às vezes, distantes de nós.

Por exemplo, “todo mundo comete pequenos delitos”. Com tal afirmação, muitos justificam seus próprios delitos, outros sentem-se intimidados em cobrar justiça. Mas se cada um de nós não cometesse seus pequenos delitos, como ficaria “todo mundo”? “Ninguém é honesto”, mas se pelo menos um de nós for honesto, a proposição perde sua verdade. Agora, se constatarmos que, de fato, ninguém é honesto, que todo mundo comete pequenos (ou grandes) delitos, que a honestidade não nos é possível, então está na hora de revisar o conceito de honestidade, assim como o significado de delito.

Exercício da ética

Não quero defender aqui um apegar-se à “letra da lei”, nem uma aproximação superficial na qual tudo é relevado. Mas proponho o exercício da Ética, em seu significado mais simples de reflexão sobre a conduta humana. Que tal refletirmos sobre o que pensamos, sentimos e fazemos? Quais os critérios que podemos utilizar para pautar nossa reflexão? Que tal buscarmos formas de pensar, sentir e agir que considerem não apenas os interesses individuais, mas dialoguem com as objeções da *alteridade? A alteridade seria um critério?

É a partir desses diálogos, desses confrontos, que encontramos nossas possíveis rotas, nossos novos caminhos. Não é um movimento fácil abandonar as certezas previamente estabelecidas e se permitir a criação de novos caminhos, novas soluções para os mesmos e velhos problemas. Também não é fácil quando nos deparamos com as novidades, com o inesperado que nos obriga a novas constituições, a novos olhares, a novos mundos.

Guattari, em As três ecologias, defende que não modificaremos o quadro social vigente enquanto não modificarmos nossa mentalidade, nossa forma de pensar, sentir e agir. Você consegue vislumbrar uma sociedade pautada no diálogo, no exercício da alteridade? Como você imagina que seria a vida nessa sociedade?

Quando você faz suas escolhas sociais, sabe, efetivamente, o que está escolhendo? Quando você faz suas escolhas pessoais, qual o peso do todo em sua decisão? Qual o peso do outro em suas decisões? É possível ser si mesmo quando você se constitui a partir do outro?

Fil. Fato de ser um outro ou qualidade de uma coisa ser outra

Referências Bibliográficas:

BUNGE, M. El problema mente-cerebro: Um enfoque psicobiológico. Madrid: Tecnos, 2002.
GUATTARRI, F. As três ecologias. Campinas: Papirus, 1990.
MATURANA, H. Emoções e Linguagem na Educação e na Política. Belo Horizonte: UFMG, 2005.

 




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Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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