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Crianças podem tomar antidepressivos?

Joel Rennó Jr. 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Só psiquiatra infantil habilitado pode prescrevê-los

por Joel Rennó Jr.

Resposta: Não podemos nos esquecer que antes de medicar uma criança devemos ter em mente que o jeito dela sentir, entender e expressar-se difere do adulto.

Portanto, o conhecimento sobre sua maturidade e desenvolvimento do sistema nervoso central (SNC), assim como sobre suas experiências acumuladas ao longo da vida é essencial na determinação da necessidade de tratamento farmacológico.

Crianças diferem dos adultos tanto do ponto de vista neuropsicológico, quanto em relação à absorção, excreção e metabolização dos antidepressivos. Não podem ser encaradas como “adultos em miniatura”.

Tradicionalmente, os antidepressivos mais comumente utilizados em crianças e adolescentes se restringem aos antidepressivos tricíclicos, aos serotoninérgicos (que atuam sobre o neurotransmissor serotonina) e mais recentemente a bupropiona (que atua também sobre o neurotransmissor dopamina).

Os sistemas de neurotransmissores como a noradrenalina e dopamina só estão inteiramente desenvolvidos no final da adolescência. Já o sistema do neurotransmissor serotonina amadurece mais cedo. Esses dados sugerem que as crianças podem responder melhor aos antidepressivos serotoninérgicos (fluoxetina, sertralina, citalopram).

Antidepressivo só pode ser prescrito em crianças por um psiquiatra infantil devidamente habilitado.

Devem ser utilizados em doses baixas e aumentados gradualmente até a obtenção do melhor efeito terapêutico possível e menor número de efeitos colaterais.

Da mesma forma, a retirada deve ser gradual, pois há sempre efeitos colaterais por descontinuação abrupta (cefaleia, tontura, náusea, vômito, dor muscular, calafrios, ansiedade intensa, irritabilidade e distúrbio de sono).

Aproximadamente 3% a 8% das crianças e adolescentes que utilizam os antidepressivos serotoninérgicos (ISRS) para depressão e ansiedade desenvolvem impulsividade, agitação psicomotora e irritabilidade. A esse conjunto de sintomas dá-se o nome de “comportamento ativado”.

Há um pequeno, porém crescente, aumento dos riscos de suicídio associado ao uso de ISRS em crianças e adolescentes. A equação risco-benefício precisa ser avaliada. Tal efeito pode ser decorrente da agitação, desinibição e comportamento misto, ou a criança ser uma bipolar em crise. Imaginem uma criança com pensamentos suicidas, em inicio de tratamento que fica mais agitada e com comportamento desinibido. Ela tem maiores chances de concretizar o pensamento suicida que apresenta do que a criança apática e letárgica, sem energia e iniciativa para tal.

Na prática, os antidepressivos só devem ser utilizados em crianças quando a depressão é grave e quando as outras abordagens (psicoterapia individual e familiar) tiverem fracassado.

Atenção!

Esse texto e esta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracterizam como sendo um atendimento.




Joel Rennó Jr.

Dr. Joel Rennó Jr. MD, Ph.D. Professor do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria da USP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein- São Paulo. Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). www.psiquiatriadamulher.com.br



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