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Por que não conseguimos mudar uma crença negativa?

Roberto Goldkorn 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
A única maneira de derrubar padrões nefastos é substituí-los por outros

por Roberto Goldkorn

O Juca Chaves contava a seguinte piada no seu show nos anos 70.

"Um programa do governo militar estabelecia um prêmio para quem denunciasse comunistas. Era assim: se você conhecesse um comunista ganhava um fusca de prêmio pela denúncia. Se conhecesse dois ganhava dois fuscas, se conhecesse três, três fuscas, se conhecesse quatro, quatro fuscas, se conhecesse cinco ... bem ... aí você ia em cana porque conhecia comunistas demais."

Todos riam e alguns por conhecerem comunistas demais riam de nervoso porque sabiam que o bicho pegava naqueles tempos.

Mas não quero falar de política, nem de coisas passadas e acontecidas. Quero falar de padrões perversos, de esclerose psicológica, mas antes preciso contar outra história essa infelizmente bem real.

Um velho conhecido me ligou recentemente. Já vendo o seu número no identificador me arrepiei todo, sabendo que algo de sinistro viria por aí. Ele fez alguns rodeios até que chegou onde queria. Disse que seu irmão o havia roubado. Senão como explicar o fato dele estar de carro importado? Como explicar esse mistério se o irmão ganhava apenas um salário? Jurei para mim mesmo que nunca mais retrucaria, ou tentaria mostrar-lhe a dimensão do seu delírio com fatos. Isso sempre se mostrou inútil. Pensei em dizer-lhe que durante todos esses anos que nos conhecemos praticamente TODOS que passaram pela vida dele, o roubaram!

Pensei pela quinquagésima vez em tentar chamá-lo à razão, mostrar esse padrão cristalizado e inflexível, que não poderia ter nenhuma base de verdade, e se tivesse a coisa seria bem mais grave. Mas no último instante freei esse jorro de “presta atenção” inútil.

Por que as pessoas são prisioneiras de um script perverso e com ele acabam se casando?

Por que não conseguem perceber, tomar consciência de que estão repetindo um padrão?

E por que alguns ao perceberem, mesmo assim não conseguem entender o que essa linguagem quer dizer, para então desfazer seu enunciado?

São muitas as possibilidades de resposta. No fim das contas que sempre terminam em dízima, resta a pergunta: por que as pessoas não conseguem mudar?

Um das possíveis respostas é: não mudam porque a sua solidão e isolamento não permitem que haja uma “oxigenação” de seus padrões mentais. E quando são poderosas, não mudam porque conseguem impor aos outros a sua cultura engessada e assim não há estímulo para mudar. Nesse ponto existe uma infeliz convergência: tanto o sucesso quanto o fracasso sistemático, realimentam o congelamento desses programas mentais, emocionais.

Crença negativa se realimenta e ganha cada vez mais força

O escritor Alan Deutschman em seu excelente livro Mude ou Morra (Ed. Best Seller) coloca a questão de forma simples e brilhante:

“Pegamos os fatos e os encaixamos nas estruturas mentais que já possuímos. Quando não se encaixam tendemos a questionar se realmente são fatos, ou a desconsiderar as informações e, de algum modo insistir naquilo em que queremos acreditar”. Isso isola o indivíduo, e dentro desse isolamento ele se realimenta daquilo que produz, e produz mais desse material, convencendo-se assim de que: “Assim é porque assim me parece”

Mas isso não ocorre apenas com o meu conhecido psicótico, paranoico, tem muita gente boa marchando nesse passo. Conheço médicos que se negam a acreditar em outras possibilidades terapêuticas (novamente aqui recomendo o Mude ou Morra para esses, embora com pouca esperança de que venham a se arriscar a lê-lo). A sua crença absoluta nos cânones da medicina ocidental é tão absoluta que nada que dissermos poderá dissuadi-los ou persuadi-los a admitir outras possibilidades.

O psicólogo Carl Rogers deu um nome a isso, chamou os arraigados de etnocêntricos - pessoas enraizadas como árvores em suas próprias crenças a ponto de se tornarem imobilizadas. Em geral esse tipo de atitude diante da vida é punido com uma espécie de autoenvenenamento. O padrão adotado e projetado acaba se voltando contra o indivíduo, como um bumerangue que retorna e atinge o seu lançador na cabeça.

A grande ironia desse enigma da esfinge é que a única maneira de derrubar padrões nefastos é substituí-los por outros padrões mais saudáveis, mas ainda assim padrões. Meu antigo mestre dizia: “Todos os hábitos são ruins inclusive os bons”. Mas então o que fazer, já que se é hábito é ruim? Abrir a cabeça e o coração (como disse um autor, abra o seu coração antes que um cardiologista o faça). Assim poderemos ir adaptando nossos hábitos às sempre mutantes manifestações da vida.

Mas buscar decifrar os padrões que se repetem em nossa vida ou por que o bumerangue que atiramos insiste em nos atingir na cabeça (e na mesma região) também é uma alavanca de mudança.

Há um velho ditado que diz: se alguma coisa acontecer a você uma só vez, há uma boa chance de que nunca mais volte a acontecer, mas se acontecer a segunda vez, certamente vai se repetir três, quatro, cinco, etc.

Recentemente bati o carro. Foi a terceira vez em três anos. Exatamente a mesma batida. O carro da frente parado num cruzamento em T. Ele arranca e eu olhando para o outro lado arranco atrás. Ele para. Eu não consigo. O estrago é mais ou menos o mesmo, tanto no meu quanto no do outro carro, e as dificuldades idem. Além de pagar a conta, preciso entender a linguagem do que o padrão quer dizer, para poder mudá-la. Você aí tem alguma ideia?




Roberto Goldkorn

É escritor e autor dos seguintes livros: "Feng Shui para Brasileiros - A Medicina da Habitação", "Feng Shui - Energia e Prosperidade no Trabalho", "Feng Shui Para Brasileiros - A Cozinha" - todos pela Editora Campus. "Não Te Devo Nada" e "Solidão Nunca Mais" ambos pela Bertrand Brasil.



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