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Por que envelhecer para o homem e a mulher é tão diferente

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Processo de envelhecimento é heterogêneo

por Elisandra Vilella G. Sé

Neste 1º de outubro comemora-se o Dia Internacional do Idoso, presto aqui, através deste texto, minha homenagem a eles. Vamos lá...

No que diz respeito à diversidade do processo de envelhecimento, a questão de gênero é um conceito importante que transita na literatura gerontológica, uma vez que a feminização da velhice que significa o aumento do número de mulheres na população idosa é um fenômeno que merece atenção dos estudiosos.

A maioria da população de idosos é constituída por mulheres com 65 anos ou mais. De acordo com os dados do IBGE (2000), 55% dos idosos brasileiros são mulheres, sendo que os grupos mais idosos, com 80 anos ou mais, esse perecentual aumenta para 65%, sendo maior nos países desenvolvidos, o que dificulta estudos comparativos.

Feminização da velhice

A feminização da vellhice é vista como um problema médico-social, porque estudos epidemiológicos mostram que a maior longevidade das mulheres idosas significa mais risco do que vantagem, uma vez que ela é física e socialmente mais frágil do que os homens. As mulheres idosas em particular são objeto de um discurso ambíguo das instituições sociais.

Os idosos brasileiros, principalmente as mulheres, são um segmento populacional cada vez mais visível da sociedade, não só porque são mais numerosas, mas porque têm se envolvido na conquista de espaço na sociedade e porque estão criando novas demandas para as instituições e os agentes sociais. Homens e mulheres não envelhecem da mesma maneira, em vários sentidos. E a acentuação das diferenças em papéis de gênero dá origem a estereótipos de masculinidade e feminilidade.

Envelhecimento feminino é multifacetado

O processo de envelhecimento feminino é uma experiência multifacetada. Não só por que fatores demográficos e de saúde e funcionalidade física fazem a diferença no processo de envelhecimento de homens e mulheres, mas também o modo sobre como mulheres enfrentam o processo de envelhecimento e a velhice. Fatores tais como os de personalidade, os papéis desempenhados pelas mulheres no trabalho, no lar, a identidade sexual, a maturidade feminina, as histórias de vida que configuram um momento sócio-histórico, a caracterização das mulheres como cuidadoras, a ascensão no mercado de trabalho, as representações do corpo e as pressões da propaganda no que diz respeito à estética do envelhecer e a busca da juventude.

Enfim, são diversos fatores que contribuem para o envelhecer na condição de mulher. Assim como merecem atenção todos aqueles que estão envelhecendo, o processo de feminização da velhice também merece compreensão das necessidades das mulheres idosas para uma melhor contextualização desse processo.

Entre as mulheres idosas existe uma tendência ao empobrecimento e à dependência da econômica, em decorrência de valores tradicionais que condicionavam a mulher a ficar em casa, a cuidar da família, obedecer a autoridade do pai, pelo fato de terem sido discriminadas, e a falta de oportunidade de estudos no passado.

No âmbito da economia, a mulher vem ocupando um espaço significativo, com firme ascensão no mercado de trabalho, mas ainda continua empreendendo dupla jornada de trabalho, com menor remuneração, fato que se refletirá no futuro, quando terá uma renda per capita menor.

Por outro lado, as mulheres têm melhores condições relativas de viver envolvidas e produtivas na vida social e familiar, pelo fato de terem a possibilidade de estabelecer fortes laços familiares, de amizade e uma produtividade doméstica, circunstâncias geralmente inacessíveis aos homens idosos. As mulheres idosas mesmo de classe baixa e média tendem a freqüentar espaços específicos criados para atender essa demanda como, por exemplo, Faculdades Abertas à Terceira Idade, oficinas de memória, bailes, grêmios recreativos, sindicatos de aposentados. Elas tendem a afirmar-se pela atividade, participação, independência e autonomia para gerir suas vidas.

Pesquisa

Uma pesquisa realizada por Mattos (1990) em sua dissertação de mestrado “Identidade Feminina na Velhice”, um pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele descreve o entusiasmo das mulheres que freqüentam grupos de convivência em Porto Alegre e a maneira encontrada por elas para construir uma identidade feminina. Um dos relatos da pesquisa de Mattos é de uma senhora que dizia: “Isso aqui é que é vida”, caracterizando seus sentimentos em relação à experiência no grupo de convivência. A realidade é que quando idosos chegam aos centros, clubes, grupos de convivência, suas queixas são constantes em relação aos familiares e à sociedade discriminativa.

Sexualidade e maturidade

Um outro aspecto enfrentado pelas mulheres idosas são as representações acerca da sexualidade e da maturidade feminina. Nas sociedades contemporâneas e ocidentais, o climatério, período de transição entre a vida reprodutiva da mulher e a senescência, que se estende dos 35 aos 65 anos de idade, vem sendo utilizado quase como parâmetro para demarcar a maturidade feminina, indicando domínio que o discurso médico-farmacêutico exerce sobre a vida cotidiana.

Um discurso que contribui para a afirmar que o climatério e a menopausa têm papel importante enquanto indicadores de transição entre a vida adulta e a velhice. Um discurso científico atrelado às questões da anatomia e fisiologia, a ênfase no corpo biológico, como se a história feminina fosse marcada pela biologia. Essa transição tanto pode ser da maturidade para a velhice, como também uma passagem silenciosa, ou um bom motivo para dar início a um combate cultural.

É certo que com o passar dos anos o corpo sofre modificações naturais. Na nossa cultura o corpo da mulher é tratado como receptáculo, um lugar sagrado para a concepção de uma nova vida e como depois da menopausa inviabiliza a concepção, muitas mulheres podem se sentir a sexualidade como algo que deveria ser aposentado. Os anos também modificam os desejos e a capacidade para ter relações sexuais, mas nada impede que pessoas com mais idade possam vivenciar sua sexualidade com prazer e qualidade de forma saudável.

Menopausa e pós-menopausa

Um assunto de relevância também sobre a menopausa são os sintomas que logo se fazem presentes em muitas mulheres. Entre os sintomas na pós-menopausa que preocupa as mulheres são as alterações da pele e o até aumento de peso corporal que determinam um grande impacto na auto-imagem e na auto-estima. Aí chegamos em outro assunto polêmico, que é a preocupação com os valores associados à velhice, à imagem da mulher que envelhece, o culto ao belo e à supervalorização da juventude, onde o padrão juvenil de beleza é altamente valorizado e imposto pela mídia, como se as mulheres que estão envelhecendo fossem obrigadas a salvar o corpo idoso da rejeição social.

Com relação à saúde e funcionalidade física das mulheres um dado que é quase universal é que as mulheres vivem mais do que os homens devido às doenças que acometem uns e outros. A taxa de doenças letais é muito maior entre os homens idosos do que entre as mulheres idosas, entre as quais predominam as doenças não fatais, mas incapacitantes e crônicas, como artrite e hipertensão.

As mulheres idosas têm taxas mais altas de morbidade (capacidade produzir doenças), mas exibem taxas de mortalidade mais baixa do que os homens para as mesmas doenças. As mulheres idosas têm 2,5 vezes mais chances de fragilidade e disfuncionalidade do que os homens. Elas consomem mais medicamentos, mostram níveis mais elevados de incapacidade do que os homens, mas a percepção da saúde física é igual para homens e mulheres, ou seja como a pessoa avalia sua condição de saúde.

Mulher na terceira idade e família

Um outro fator que é impactante na condição da vida da mulher que envelhece é a atividade de cuidado prestado à família, aos filhos, netos, etc. Em virtude de normas sociais, o papel de cuidar é especificamente feminino. Quando jovens, as mulheres cuidam dos filhos. Na meia-idade e na velhice cabe-lhes cuidar dos maridos quando adoentados, dos pais, sogros quando fragilizados e dos filhos e netos. O fato das mulheres serem mais envolvidas e mais longevas, de serem uma fonte de apoio, lhes cabe o papel de cuidadora causando ônus e benefícios.

Resumindo a idade é um fator de risco para várias condições na velhice, mas gênero é muito importante, uma vez que homens e mulheres mostram diferentes domínios no funcionamento no curso de vida. As mulheres continuam mais expressivas e envolvidas do que os homens, por causa de fatores sociais e aprendizagem social.

Não podemos deixar de lembrar que o processo de envelhecimento é heterogêneo, nem todas as pessoas, homens e mulheres envelhecem da mesma forma. Para algumas mulheres envelhecer é como navegar em rio plácido que desemboca em águas tranqüilas. Outras mulheres, contudo enfrentam correntezas e maremotos que as levam em caminhos às vezes desconhecidos que podem levar ao não reconhecimento da própria imagem no espelho como ilustra no verso do poema de Cecília Meireles. “Eu não dei por essa mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: em que espelho ficou perdida a minha face?”.

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Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.

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