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Excesso de timidez pode ser doença

Joel Rennó Jr. 01/01/2016 PSICOLOGIA
Grande parte das pessoas sente-se ansiosa em situações de exposição social

por Joel Rennó Jr.

Grande parte das pessoas sente-se ansiosa em situações de exposição social. Alguns ficam nervosos nas famosas entrevistas de emprego ou exposição de seminários no local do trabalho. Outros são tímidos para convidar alguém para um encontro pra lá de especial. O coração pulsa forte e acelerado, o rubor facial delata a timidez, as mãos tremem e ficam com sudorese, os músculos ficam tensos, dá-se um nó na garganta e um sentimento de frio na barriga.

Quando tal ansiedade é normal, logo ela passa. Outros podem ficar com memórias negativas de tais situações estressoras, ficando ansiosos pela simples lembrança de tais episódios. Tais pessoas costumam ter medo de serem avaliadas, criticadas ou julgadas de forma negativa. Projetam que os outros irão lhes julgar e recriminar de forma severa e voraz, considerando-as incompetentes ou incapazes.

Podemos fazer o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Social (TAS) ou Fobia Social (FS) nas situações em que a ansiedade, perante situações sociais, torna-se intensa, incapacitante e paralisante; prejudicando as atividades do dia-a-dia e os relacionamentos interpessoais, com grande sofrimento psíquico. Portanto, o TAS é muito mais que timidez. A timidez é uma ansiedade normal que diminui com a exposição e a experiência de vida, podendo até contribuir para um desempenho melhor nas situações sociais. Só falamos em fobia social quando a ansiedade é persistente, de alto grau e incapacitação plena.

Situações mais temidas

Há várias situações temidas, tais como: falar em público, comer em público, assinar cheques na frente de terceiros, frequentar banheiros públicos, abordar uma possível paquera.

A ansiedade excessiva pode estar restrita a uma ou poucas situações, sendo chamada, neste caso, de circunscrita, ou então, pode ocorrer em várias funções sociais (falar com estranhos, comer em público, expor um trabalho para chefias), sendo aqui conhecida como generalizada.

O TAS acomete cerca de uma em cada oito pessoas. As mulheres são ligeiramente mais acometidas do que os homens, sendo os quadros femininos mais propensos ao uso indiscriminado de benzodiazepínicos (tranquilizantes), enquanto os homens abusam do álcool. O início do quadro de FS nas mulheres costuma ocorrer no final da adolescência, enquanto no sexo masculino, logo no início.

A biologia da ansiedade inclui o medo condicionado, processado por vias ou conexões existentes entre algumas estruturas do cérebro como o tálamo, o córtex sensorial e o sistema límbico (amídala e hipocampo). Este último rege as emoções e sentimentos. Humanos com lesão na amídala cerebral (não confundir com a outra "amídala", a da garganta), não conseguem reconhecer o medo na face de uma pessoa e não identificam os estímulos que levam ao perigo. Poderíamos dar o nome de "circuito do medo" às conexões entre tais estruturas cerebrais. A ativação da amídala cerebral-principal estrutura responsável pela sensação do medo - parece ter um componente genético responsável, com vários mensageiros químicos cerebrais envolvidos como a serotonina, a norepinefrina, o glutamato e o GABA).

Sinais

O TAS pode levar a pessoa a deixar o trabalho ou a escola, pode impedir que as pessoas façam novos amigos, enfim, trazer enormes prejuízos sóciofuncionais às mesmas. Tais pessoas começam, em qualquer contexto social, a ter pensamentos automáticos negativos, como "vou dar vexame", "vão me considerar incapaz ou despreparado", "vou ter um branco ou gaguejar". Tais pensamentos já produzem o medo que leva à resposta de ansiedade, com todos os sintomas físicos já citados. Com tanto sofrimento, alguns comportamentos de esquiva e mesmo evitação são realizados, mudando a rotina de vida de tais pessoas.

Geralmente, os pacientes com FS têm também depressão e abuso de álcool ou drogas.

Tratamentos

A terapia comportamental cognitiva costuma ser útil no tratamento, envolvendo quatro etapas importantes:

1ª) Psicoeducação: É importante que o paciente tenha um conhecimento aprofundado sobre o transtorno, tendo através de um aprendizado pleno mais confiança e determinação para superar o problema.

2ª) Reestruturação Cognitiva: Faz com que o paciente entenda o quanto os pensamentos automáticos negativos influem na ansiedade gerada, ensinando técnicas de combate a tais pensamentos.

3ª) Treinamento de habilidades sociais e Técnicas de Controle de Ansiedade: Técnicas úteis para um melhor desempenho nas situações sociais

4ª) Exposição: Enfrentamento progressivo das situações temidas.

Quanto às medicações utilizadas, incluímos os beta-bloqueadores (controlam sintomas específicos como o tremor e a taquicardia) e os antidepressivos. Os antidepressivos mais utilizados são os que atuam sobre a serotonina, ou os conhecidos de duplo mecanismo de ação, que atuam tanto sobre a serotonina quanto sobre a noradrenalina.

É importante que as pessoas não se decepcionem durante o curso do tratamento com eventuais recaídas. Isso pode acontecer, é normal. Qualquer ser humano, durante o processo de novos aprendizados comete equívocos ou falhas, isso é típico. A família também é uma forte aliada. O paciente precisa ter um papel ativo na recuperação, não pode ficar de braços cruzados jamais. No final, todo esforço valerá a pena.




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Joel Rennó Jr.

Dr. Joel Rennó Jr. MD, Ph.D. Professor do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria da USP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein- São Paulo. Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). www.psiquiatriadamulher.com.br



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