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Por que maioria dos sintomas físicos de depressão é de dor

Joel Rennó Jr. 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Tratamento requer equipe multidisciplinar

por Joel Rennó Jr.

Depressão e somatização são duas situações que podem co-existir. Há inúmeras conexões entre o Sistema Nervoso Central (SNC) com os diversos órgãos e os sistemas neuro-hormonais.

A relação entre depressão e dor deve ser focada nos neurotransmissores (substâncias químicas cerebrais que conectam as células nervosas), como a serotonina e a noradrenalina. Tais mediadores químicos, responsáveis pela modulação da dor, encontram-se diminuídos nos pacientes deprimidos. Alterações no sistema nervoso que controla a sensibilidade à dor ou no sistema límbico (que rege as emoções) causam uma mútua disfunção. Tanto a dor crônica pode levar à depressão, como o inverso também é verdadeiro.

Hoje, o transtorno depressivo é a maior causa de incapacitação do mundo. A depressão pode piorar o curso de várias doenças físicas. Por exemplo, pacientes que foram vítimas de infarto do miocárdio e que têm depressão não tratada são mais vulneráveis a novos ataques cardíacos, maior incapacitação e até à morte súbita.

Embora os sintomas depressivos sejam emocionais, como tristeza e anedonia (perda do prazer pelas atividades cotidianas), muitos sintomas físicos como fadiga, alterações do sono e apetite ocorrem nos deprimidos.

Dor e queixas gastrintestinais são também muito comuns em pacientes com depressão. A conhecida "síndrome do cólon irritável", uma doença intestinal que causa dores abdominais generalizadas, flatulência e alterações do hábito intestinal, após exames de colonoscopia negativos, tem grande porcentagem de pacientes com depressão.

A dor associada com depressão é representada por cefaléia (dor de cabeça), dor lombar ou queixas em relação à musculatura e ao esqueleto.

Depressão: maioria dos sintomas é de dor

Um estudo publicado na conceituada revista científica britânica New England Journal of Medicine, com 1146 pacientes deprimidos, detectou uma taxa de 69% de sintomas físicos, como dor. A ansiedade também foi bastante comum em tais pacientes.

Todo paciente com dor crônica deve ser investigado para depressão. Há variações quanto ao gênero na manifestação dos sintomas físicos.

A pesquisa de tais sintomas físicos da depressão é prejudicada porque algumas doenças clínicas como diabetes, asma, fibromialgia, desequilíbrios hormonais e artrite apresentam sintomas semelhantes que pioram com as situações estressoras.

Embora os mecanismos, pelos quais ocorre a interação entre a mente e o corpo, não sejam ainda totalmente compreendidos, há evidências recentes de grande relevância clínica. Pacientes diabéticos deprimidos têm um precário controle da glicemia - presença de glicose no sangue. Vítimas de acidentes vasculares cerebrais ("derrames"), com depressão, têm desempenho pior nos programas de reabilitação. A depressão reduz a expectativa de vida das pessoas.

Depressão X qualidade de vida

O tratamento da depressão deve ter como objetivo a completa remissão dos sintomas, com retorno da funcionalidade do paciente, no dia-a-dia. É muito comum, na minha prática clínica, observar pacientes com sintomas residuais da depressão, ou seja, que ainda têm alguns sintomas da doença e prejuízos na sua qualidade de vida.

Uma relação médico-paciente, fortalecida e confiável, é fundamental para o entendimento global de todas as peculiaridades que envolvem as medidas terapêuticas, medicamentosas ou psicológicas.

Finalizando, o tratamento do paciente com dor crônica e depressão responde melhor aos antidepressivos com duplo mecanismo de ação (que atuam tanto na serotonina quanto na noradrenalina). É evidente que só a medicação, embora importante, não resolva. Deverá haver uma equipe multidisciplinar, coesa e interessada pelo todo do paciente, composta por fisioterapeutas, psicólogos, médicos acupunturistas, clínicos gerais e psiquiatras, entre outros. Até mesmo valores culturais e sistemas de crenças devem ser trabalhados.

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Joel Rennó Jr.

Dr. Joel Rennó Jr. MD, Ph.D. Professor do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria da USP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein- São Paulo. Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

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