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Relações se constróem em jogos nem sempre conscientes

Redação Vya Estelar 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Outras vezes usamos subterfúgios

por Angelina Garcia

A confusão se estabeleceu quando o namorado chegou trazendo um filhote angorá. Escolhido a dedo, o mais bonito da loja. Estava ansioso para ver os olhinhos de Eunice - que ele amava tanto - brilharem de satisfação. Nem de longe suspeitou que o presente de aniversário lhe causaria tamanho aborrecimento. Ouviu poucas e boas e acabou sendo taxado de insensível. Às vésperas do casamento e ele nem sabia que ela não gostava de gato!

Desconcertado, justificava-se lembrando que ela não tirava o gatinho do colo quando ele a levava para visitar tia Clô.

- Ora essa, você não percebe que eu agrado o bichano porque sua tia está velha, doente e adora o gato. É um jeito de deixá-la contente.

Embora comovido com o gesto da namorada, o rapaz não sabia se agradecia, se lhe dava os parabéns por representar tão bem, se a chamava de dissimulada, ou o quê. Perdeu o chão.

Por conta das contradições próprias do humano, a moça pode ser considerada tudo isso a partir de uma única atitude, sem que se entre em mérito ou demérito.

O relevante aqui é a sua indignação.

Muitos mal-entendidos podem ocorrer quando nos relacionamos à base do “sub”. Algumas vezes o subjetivismo é tamanho que não deixa o menor espaço para aventarmos outra possibilidade de interpretação que não a nossa. Acreditamos até que o que queremos dizer está presente pelo simples fato de querermos dizê-lo. Mas estava subentendido, defendemos com veemência.

Se, por exemplo, o sujeito tivera desde a infância seus desejos satisfeitos, porque os pais, ou demais pessoas da sua convivência, estavam atentos aos sinais mais sutis, ele crescerá esperando que essa prática dê sempre o mesmo resultado. Ao ver frustrada sua expectativa, sente-se ofendido e culpa o outro por não adivinhar o que, na verdade, não era evidente.

Outras vezes usamos subterfúgios, ora para não magoar alguém e acabamos por magoá-lo ainda mais, ao subestimar sua capacidade de perceber nossos ardis; ora recorrendo à chantagem emocional que, ao tirar as defesas do outro, coloca-o à mercê de nossos intentos. Se a linguagem, mesmo que tenhamos clara nossa intenção, já não é transparente, uma vez que o dito pode significar várias coisas; que dirá quando usada com o propósito de confundir o outro.

É fato que as relações se constróem em jogos nem sempre conscientes, mas compreender como eles funcionam aumenta as chances de relações mais saudáveis.

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