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Pavor de ser rejeitado pode ser doença e tem nome: transtorno de borderline

Tatiana Ades 01/01/2016 PSICOLOGIA
O medo do abandono é porque sozinhas não nos aguentamos

por Tatiana Ades

Você deve conhecer diversas pessoas com oscilações de humor, altos e baixos, sem limites para a compulsão, exageradas nas atitudes, algumas vezes muito sedutoras e teatrais.

Muitos pacientes são diagnosticados de forma errada. Geralmente são tratados como maníacos depressivos, mas possuem a personalidade borderline de humor, quadro patológico que causa enorme sofrimento ao paciente e às pessoas que o cercam.

O amor para essas pessoas é questão de vida ou morte e havendo uma separação, sentem-se humilhados, tornam-se agressivos, e muitas vezes tentam o suicídio. Isso porque não conseguem lidar com a rejeição e o abandono. A outra pessoa se torna parte simbiótica e não o complemento.

Veja as características principais do quadro:

(1) esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado.

(2) padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização (enaltecer o outro) e desvalorização (torná-lo descartável)

(3) perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da autoimagem ou do sentimento de self. Ou seja, falta de conhecimento real da verdadeira identidade: a pessoa não sabe ao certo quem é; tem a sensação crônica de vazio e uma perturbação interna por não entender quem é ela de fato - o que gosta, o que quer da vida... é como se ela não tivesse algo concreto em termos de imagem e conhecimento de si mesma.

(4) impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por ex. gastos financeiros, sexo, abuso de substâncias, direção imprudente, comer compulsivamente).

(5) recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante.

(6) instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor (por ex. episódios de intensa disforia (mudança repentina de humor), irritabilidade ou ansiedade geralmente durando algumas horas e apenas raramente alguns dias).

(7) sentimentos crônicos de vazio.

(8) raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (por ex. demonstrações frequentes de irritação, raiva constante, lutas corporais recorrentes - aqui há agressão contra quem o rejeitou e contra si mesmo quando rejeitado.

(9) ideação paranoide (mania de perseguição) transitória e relacionada ao estresse ou severos sintomas dissociativos - falta de percepção e lucidez de quem realmente é.

São indivíduos bastante reativos a pequenos estressores, ou seja, o limiar para o surgimento das emoções é baixo, e eles reagem rapidamente e de forma exagerada e intensa. Apresentam instabilidade afetiva, muitos altos e baixos, oscilando drasticamente entre emoções opostas. Isso é particularmente importante na experiência dessas pessoas no que diz respeito a situações que causam frustração e/ou rejeição, e é muito frequente um grande exagero nas reações de raiva: o que causaria alguma irritação na maioria das pessoas, pode causar fúria no borderline. Além disso, é comum que o retorno ao *nível emocional basal seja lento. Isto é, as reações emocionais são percebidas como duradouras. O quadro emocional das pessoas com TPB pode ser caracterizado, então, como um quadro de experiências afetivas aversivas crônicas.

Há extrema dificuldade de abrir mão de um relacionamento, mesmo que esse seja difícil. Os indivíduos borderline podem apresentar esforços intensos para impedir que pessoas significativas os abandonem. A necessidade de apoio e afeto contínuo surge com frequência na forma de exigência, o que explicita uma real intolerância à ausência e à separação.

Muitas vezes atacam a pessoa da qual dependem. Apresentam a habilidade em conseguir dos outros o que querem, mas recebem como quem nada deve. A expectativa é a de que o outro atenderá suas necessidades de apoio, atenção, carinho. Devemos tomar cuidado, porém, em chamar os indivíduos borderline de manipuladores, o que não é incomum de se fazer. É verdade que influenciam as pessoas, com seus comportamentos de automutilação ou demonstrações de dor intensa, ou ainda com crises que eles não conseguem resolver por conta própria. Mas isso, por si só, não significa que exista a intenção de enganar ou de prejudicar o outro.

Há “exigência” de intimidade e de muita atenção em relacionamentos que acabaram de começar. As expectativas do borderline são distorcidas, e a chance de se frustrarem é muito grande. É comum terem mudanças súbitas de opinião sobre as pessoas: num momento alguém é perfeito, no momento seguinte um crápula.

Não é difícil de imaginar que seus relacionamentos podem ser caóticos, intensos e difíceis.

Os indivíduos com TPB são extremamente impulsivos, apresentando tendência à adicção, muitas vezes em mais de uma área: álcool, drogas, remédios, comida. Engajam-se em vários comportamentos destrutivos e impulsivos, entre os quais os comportamentos suicidas ou automutilantes.

Um padrão comportamental bastante associado ao TPB inclusive é o de atos autodestrutivos intencionais e tentativas de suicídio. Esses atos podem variar em intensidade, desde arranhões leves, batidas com a cabeça, queimaduras com cigarro, até aqueles mais graves, como overdoses, cortes ou asfixia. Sabe-se que de 70 a 75% dos pacientes borderline têm um histórico de pelo menos um episódio de automutilação.

Para compreenderem melhor, deixo aqui um depoimento verídico de uma paciente Borderline no momento em que foi abandonada pelo namorado:

"Quando eu ouvi a porta se fechar, senti que iria morrer. Senti uma mistura de ódio e amor, mas o que mais doía era a raiva que sentia de mim mesma, uma sensação de culpa inexplicável, como se eu fosse a causadora de todos os abandonos que sofri. Morri por dentro, a dor foi insuportável, corri e peguei a gilete me cortei nas pernas, braços e barriga. A dor externa aliviou um pouco, mas não era o bastante, eu precisava ser mais castigada por ser essa pessoa tão desprezível e medonha. Então corri para caixa de remédios e tomei todos de uma vez, uma mistura de ansiolíticos, antidepressivos e álcool. Acordei no hospital, por sorte ou por azar, minha mãe foi avisada por Gustavo que eu poderia fazer besteira”.

E ela prossegue:

“Deixa eu tentar explicar melhor. Nós tentamos nos matar o tempo todo, mas é diferente de um outro suicida, por ex. nós tentamos porque precisamos que alguém sinta algo por nós, caso contrário, não aguentamos, mesmo que seja pena, ódio... alguém precisa nos notar; é diferente de quando me corto, aí sim estou querendo extravasar uma dor horrível, um vazio, alivia, alivia muito!

Tudo isso porque a pessoa se torna o centro de nossa vida, a gente tenta preencher essa carência maluca no outro, sem o outro não vivemos, minha terapeuta me explicou que é porque o border não se reconhece como pessoa. Há uma quebra em nossa personalidade que nos torna seres sem destino, sem razões, sem opções. O medo do abandono é porque sozinhas não nos aguentamos. Ser frustrada por um namorado é a morte para um border.”

*Um estresse muito alto como se a pessoa estivesse no limite da ansiedade, prontra a explodir a qualquer instante.




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Tatiana Ades

É psicanalista e escritora e teatróloga. Em seus livros, o foco de estudo é o comportamento humano e o amor patológico. Tem em seu currículo várias peças escritas e encenadas nos teatros de São Paulo, além de ter concorrido ao prêmio Shell de melhor texto teatral com Os Viúvos – Teatro Ruth Escobar (2003). Como escritora, em 1998, ganhou um concurso com o conto O silêncio da raposa. Eles são o resultado de uma pesquisa de três anos: Hades – Homens que amam demais e As escravas de Eros.



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