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Irritação que o outro lhe causa pode ter como fonte você mesmo

Fátima Fontes 01/01/2016 PSICOLOGIA
Devemos sempre 'retemperar' nossas relações

por Fátima Fontes

Introdução
"Devemos ser muito cuidadosos com o que penetra nossos corações para que estes não sejam poluídos"
(Nilton Bonder, livro: A Cabala da Inveja - RJ: Imago Editora, 1999, pág.296).

Queridos e queridas leitoras desta coluna, mais uma vez estamos juntos e juntas neste espaço reflexivo sobre nossas relações interpessoais, matéria complexa e necessária ao nosso viver em meio a uma sociedade que criamos e confirmamos a cada dia como portadora de grandes doses de egoísmo e solidão.

A meta nesta reflexão é a de que nos desafiemos sempre a "retemperarmos" as nossas relações, como nos incentiva o Rabino Nilton Bonder, citado na epígrafe deste texto, lutando com o ódio e rancores circulantes em nossas veias e relacionamentos.

A base da reflexão é a da sabedoria contida nas prescrições de homens sábios, alguns religiosos, que lutaram com suas próprias naturezas e muito contribuíram para que melhorássemos o nosso jeito humano, carregado de amores e ódios, que nos têm transformado em pessoas queixosas, iradas e inconformadas umas com as outras.

Régua muita rígida para com os nossos erros e os dos outros: consequências

1ª) Fonte de muito amargor

Uma das fontes de muito amargor nas nossas vidas é o uso de uma régua muito rígida para com os nossos erros e os dos outros. Percebo como cuidadora de pessoas em sofrimento psíquico e relacional, há décadas, o quanto temos nos tornamos cada vez mais intolerantes e condenatórios.

2ª) Supervalorização do erro

Nossos erros são supervalorizados primeiro por nós mesmos e sobre nós mesmos imputamos palavras de ordem do tipo: é melhor desistirmos, não aprenderemos nunca, é melhor ficarmos sozinhos etc.

3ª) Tristeza

Com um roteiro deste passamos a pautar nossas ações, para nós mesmos e para com os outros, por um sentimento de tristeza que nos rouba a potência de ação positiva e transformadora deste estado.

4ª) Visão limitada sem perceber o todo

E como num movimento de "correr atrás do rabo", não miramos nada além de nossos erros e os do outro, tornando-nos cegos ou míopes, para avaliarmos o que realmente se passa. E neste estado paralisante, precisaremos sem dúvida, da presença de alguém que nos ajude a olhar em outras direções.

Solução para o problema

Se quebrarmos a rígida régua com que nos medimos e ao outro, teremos muito mais chances de assumirmos nossa parte nos nossos próprios descaminhos, além da parte que às vezes temos no descaminho do outro, assim como a própria responsabilidade do outro em relação aos seus próprios descaminhos.

Mas se tivermos sido socializados por rígidos padrões de condenação, a tarefa ficará ainda mais árdua, pois parece que há uma voz interior nos impelindo a crer que, sem a condenação, nos tornaremos pessoas débeis, manipuláveis e passíveis de dominação.

Quanto engano está contido "nesta voz": quando nos condenamos constantemente e ao outro, já somos reféns do inatingível e também assim fazemos ao outro. Paralisamos, portanto qualquer movimento de liberdade transformadora, além de amargarmos o fel da decepção e da desilusão que nos torna "obesos de queixas".

A palavra de ponderação é aqui recomendada: precisaremos ser menos arrogantes em relação aos nossos próprios erros e aos erros do outro: pois se somos humanos, a carga de erros e acertos é renovada a cada manhã, e um bom caminho a seguir pode ser o da compaixão e misericórdia por nós mesmos e pelo outro.

Aprenda a brigar a boa briga no diálogo com o outro

Outro ponto que nos tem tirado a alegria e o sabor do viver com o outro é a nossa incompetência para a "boa briga" em nossas relações dialógicas, mas o que seria isso?

Segundo os ensinamentos da cabala judaica, há um alerta claramente dado: nas questões de discórdia e briga apresentadas em nossas discussões verbais, estamos sempre sujeitos a uma agenda interna, a interesses que nos justificam antes mesmo de qualquer imparcialidade, logo, tendemos a estabelecer posições parciais e tendenciosas.

O grande mistério e alquimia contidos na boa briga são muito exigentes, e vão na contramão de nossos ensinamentos competitivos pós-contemporâneos que exigem o vencer a qualquer custo. Acontece que o "alto custo" cobrado na boa briga prescreve a "luta para perder", terá que ser dada ao outro, em disputa conosco, a chance de nos provar que ele está certo e nós estamos errados, sem que nós esqueçamos em momento algum, qual é a nossa posição pessoal. Nesta nova e difícil posição, ainda que o outro vença ou nós mesmos sejamos vitoriosos, o diálogo não estará fechado, pois "eu continuarei sendo eu, apesar da derrota ou vitória" e o "outro continuará sendo ele mesmo".

Vejam como isso se distancia de uma aparente submissão à opinião do outro, ao contrário estamos debatendo, brigando por nossa própria opinião, mas como no judô: usamos a força argumentativa do outro, ou seja, se vencermos, o outro se sente "derrotado", mas não destruído e o mesmo acontecerá se perdermos no debate das posições.

Aliás, essa é também a proposta do sábio educador brasileiro Rubem Alves, em seu livro Retorno e Terno, para nossos relacionamentos. Segundo Rubem Alves, nossos relacionamentos precisam se assemelhar a uma partida de frescobol e não de tênis, pois na partida de frescobol o grande afã dos participantes é para que a bolinha em jogo não caia, logo, você não desejará que o outro "erre" e sim que "acerte", pois de outra feita não haverá ganhadores! Ao contrário no jogo de tênis o alvo é precisamente o inverso: o "erro do outro" é a única chance de vitória, e ao final da partida quando ambos estão exaustos, um celebra sua vitória e o outro chora a sua derrota.

Sábios exercícios contra a irritação

E para nos separamos deste encontro mediado por este texto, lhes proponho alguns sábios exercícios propostos na Cabala Judaica para melhorar o sabor de nossas desavenças e discórdias e assim torná-las digeríveis e até fonte de crescimento:

1. Torne-se consciente de sua irritação no momento em que ela ocorre. Portanto, seja responsável pelo que você está sentindo e do como agirá em função disso, sem responsabilizar o outro que o provoca pelo que você está sentindo e menos ainda pelo que você decidirá fazer.

2. Não se precipite. Aconselha-se que você deixe um dia passar para poder comunicar ao outro a sua irritação com ele, pois a chance de você ser mais racional é bem maior.

3. Quando acordar diariamente procure se preparar para viver a dinâmica das relações humanas: poderá ser surpreendido com grandes ou pequenas doses de afetos ou desafetos.

Como ocorre em todos os exercícios, somente a prática disciplinada e diária garantirá os bons resultados e nesse caso, preparemo-nos todos para um exercício de vida inteira. Mas os bons resultados nos contarão que terá valido a pena.




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Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



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