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Estou grávida de um usuário de crack. Isto afetará o bebê?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Danilo Baltieri

"Estou grávida de um mês, infelizmente o pai da criança é usuário de crack."

Resposta: Tem havido muitas pesquisas avaliando os efeitos indesejáveis e altamente nocivos ao feto do consumo de nicotina, álcool, maconha, cocaína/crack, heroína e outros opióides (dentre outras substâncias) pela mãe durante a gravidez.

Carência de estudos

No entanto, menos estudos têm dedicado esforços na avaliação dos efeitos nocivos sobre o feto do consumo dessas substâncias apenas pelo pai. Mesmo porque, em muitos casos estudados, os dois genitores fazem uso de substâncias ao mesmo tempo.

Evidências

Embora pesquisas sobre o relacionamento entre o uso dessas substâncias pelo pai e os efeitos sobre a cognição, comportamento e saúde física do bebê têm sido limitadas, algumas evidências científicas sugerem que o consumo de drogas pelo genitor pode influenciar negativamente o feto.

Por mecanismos ainda não plenamente esclarecidos, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas pelo pai afeta negativamente o feto tanto em termos comportamentais quanto cognitivos, mesmo quando a mãe não consome bebidas alcoólicas. Prejuízos de memória, linguagem, desempenho acadêmico e atenção têm sido observados entre filhos de pai alcoolista.

De fato, é realmente muito difícil formular uma explicação para esta situação. Alguns autores têm apontado que os filhos de pai usuário de álcool e/ou outras substâncias, durante a gestação, sofrem várias influências ambientais e sociais negativas (estresse da mãe, exposição da mãe às drogas e inadequado suporte do pai durante a gestação). Realmente, o fato do genitor fazer uso de cocaína/crack frequentemente está associado com maior desgaste físico e psicológico da mãe, maior chance de comportamentos agressivos pelo pai, maior risco de complicações legais pelo usuário e várias dificuldades relacionais entre o pai e a mãe. Tudo isso, seguramente, afeta o período da gestação.

Por outro lado, alguns autores aventam que filhos de pai com dependência química apresentam maior chance de desenvolver quadro clínico de dependência química no futuro e, muitas vezes, alterações comportamentais e cognitivas discretas podem ser vislumbradas na infância.

Outros estudos têm verificado que pais usuários crônicos de cocaína podem apresentar alguns defeitos nos espermatozóides, como redução da mobilidade, diminuição da produção e maior risco de anormalidades morfológicas. Alguns estudos experimentais, realizado em ratos, têm mostrado que ratos (machos) que fizeram uso de cocaína cronicamente podem gerar uma prole com baixo peso e tamanho, além de aumentar o risco de morte neonatal. Mas, repetindo, esse estudo foi experimental.

Trata-se de assunto bastante vasto, onde inúmeras variáveis podem interagir em um resultado bastante insatisfatório. De qualquer forma, a sua preocupação é bastante pertinente e você deve sempre fazer seu acompanhamento pré-natal de forma adequada. O pai da criança deve imediatamente procurar ajuda médica e psicológica para cessar o consumo dessa substância. Isso, seguramente, amenizará quaisquer prejuízos futuros para o seu filho.

Abaixo, forneço interessante recomendação de leitura sobre este assunto.

Frank, D. A., Brown, J., Johnson, S., & Cabral, H. (2002). Forgotten fathers: an exploratory study of mothers' report of drug and alcohol problems among fathers of urban newborns. Neurotoxicol Teratol, 24(3), 339-47.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.

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