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O quanto você está acomodado num conforto destrutivo?

Regina Wielenska 01/01/2016 PSICOLOGIA
Quase sempre dá pra consertar um erro

por Regina Wielenska

Conheço São Paulo relativamente bem. Outras cidades, nem tanto.

Por exemplo, até consigo circular de carro por alguns trechos de Campinas, mas já me perdi, e muito, por lá a ponto de ter que pedir ajuda pra sair de uma estrada vicinal, a qual não tinha a menor ideia ou necessidade de conhecer, de forma a retornar ao bairro central do Cambuí. Enquanto estava perdida, buscando o acesso à rota de origem, senti-me aflita, preocupada com horário, combustível e outras coisas. Até que a solução foi encontrada: em uma das vezes pedi ajuda a um taxi, o qual contratei para me conduzir ao ponto onde precisava chegar, consegui aprender o caminho da volta. E aprendi uma lição: quase sempre dá pra consertar um erro, e a gente sai mais esperta da experiência que enfrentou.

Aprender idiomas quando se é adulto é parecido. Necessariamente vamos nos sentir incapazes, cheios de dúvidas, por vezes comparando a gramática da nova língua com o que conhecemos da língua-mãe, o que geralmente pouco ajuda. Tampouco traduzir cada frase acelera a fluência. O que funciona é abraçar a ignorância, se deixar levar ao longo das aulas, usar gestos e ilustrações para dar apoio às palavras, falar mesmo que errado e ficar atento ao feedback recebido, praticar ao máximo com nativos da língua que se deseja aprender, lendo livros (nem que sejam os infantis, geralmente mais fáceis), assistindo filmes sem legenda, etc..

Pronunciar palavras novas, construir a duras penas sentenças minimamente compreensíveis, se fazer entender por completo de um jeito imperfeitamente eficaz, compreender o que o interlocutor quer dizer, tudo é tão difícil... Fica mais confortável se fazer de ignorante e fugir da raia. Lição de casa, aulas e mais aulas, sensações de ignorância, como se fôssemos pessoas de um ou dois anos de idade na pele de adultos, disso tudo fogem aqueles que desistem de cursos de idiomas.

Um casamento muito ruim pode durar séculos. Eu me pergunto o que levaria um casal a ser cúmplice de tamanho sofrimento? Parece que dinheiro é uma das razões: separar geralmente traz prejuízos ao bolso, muitos estudos sinalizam isso. Outra razão é a cobrança social e a eventual falta de rede de apoio para quem sai de uma união, especialmente se tem filhos para sustentar. Há quem se engane dizendo não ter coragem de meter os filhos na enrascada de união desfeita, como se deixá-los conviver com a forte desarmonia conjugal fosse o melhor dos modelos de relacionamento interpessoal a se dar à prole. Para alguns podem ser questões morais ou religiosas, para outros pode ser o status de ser casado (a) com alguém de destaque, fator que abre portas na sociedade.

Enfim, sair de um casamento pra retomar à solteirice é mesmo difícil, mas seria a estrada para, num futuro incerto, encontrar um amor, mais igualitário, sexualmente quente, encorajador e que preenchesse o espaço afetivo agora abandonado ao relento.

Nem todo mundo tem a carreira dos sonhos. Falta de dinheiro, crises financeiras individuais ou coletivas, muitos fatores atrapalham a possibilidade de se fazer algo do qual se goste. E aí a pessoa precisaria dar um jeito de criar envolvimento afetivo e descobrir sentido no que faz, ou ir em busca de mudanças supostamente melhores. Os dois caminhos são válidos. O que está em jogo aqui novamente é que existirão riscos ao longo do processo. Vamos pisar em terrenos mais pantanosos, escorregadios, as certezas se diluem, o esforço aumenta numa escala difícil de estimar antecipadamente. É outra situação, entre um sem fim delas, na qual podemos escolher sair da área de conforto pra crescer na vida.

Li hoje no jornal que o estudante universitário típico é do sexo feminino, trabalhando de dia e estudando à noite em universidades particulares. Quantas dificuldades essas mulheres enfrentam, seus esforços provavelmente refletem a busca de ascensão econômica, de um prazer na profissão, de mudanças na vida sacrificada que levam. E para conquistar isso, se sujeitam a lutar todas as noites, cinco vezes por semana. Sábado e domingo voam, algumas trabalham fora mesmo nos finais de semana, outras precisam cuidar da casa, dar atenção aos que amam, cuidar de si, preparar trabalhos, fazer alimentos, atentar para roupas, pessoas e animais, interagir com o mundo de coisas constituintes da vida complexa de cada uma dessas fêmeas lutadoras, e que competem com o posto de estudante universitária.

Enfim, com esses exemplos queria incentivar cada leitor a se examinar atentamente: o quanto você está acomodado num conforto destrutivo, o quanto você mal experiencia o novo e sai correndo dele, qual a vida que você leva dentro ou fora da área de conforto?




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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