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Entenda a relação entre genes e doença psiquiátrica

Joel Rennó Jr. 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Determinismo genético defendido por muitos pesquisadores está equivocado

por Joel Rennó Jr.

Os relatos de conexões entre genes e doenças mentais sempre falharam ao serem reproduzidos.

Vou exemplificar... Ainda não encontramos na psiquiatria um modelo genético específico e preciso que possa estabelecer uma relação de causa e efeito-doença mental diretamente relacionada a um gene.

Observamos também que a vulnerabilidade das pessoas ao ambiente varia. Muitos cientistas renomados, como o Professor Aushalom Caspi, do Instituto de Psiquiatria de Londres, apontam um verdadeiro “pool” de candidatos a fatores de risco ambientais para distúrbios antissociais, depressão e esquizofrenia. É bom salientarmos que a concordância das doenças altamente hereditárias não é perfeita em gêmeos monozigóticos (idênticos).

Portanto, a grande pergunta é:

Por que, perante a mesma exposição ambiental, algumas pessoas podem desenvolver uma doença mental e outras não?

Será que a resposta pode ser encontrada em suas seqüências de DNA?

Segundo o Professor Caspi e outros, o determinismo genético defendido por muitos ilustres pesquisadores está equivocado. Nós psiquiatras observamos isso na nossa prática clínica diária.

Eventos estressantes como perdas afetivas, ameaças e humilhações costumam ter impactos diferentes nas pessoas. Algumas desenvolvem depressão ou transtorno de pânico, outras não, mesmo sendo submetidas às mesmas experiências estressoras. Livros de autoajuda medíocres (como a maioria) tentam ensinar a não ser frágil, a ser racional, objetivo, determinado, vencedor e corajoso, entre outros aspectos. Dão “receitas de bolo” sobre como pensar e agir positivamente, fazer atividades físicas e de lazer, meditar, relaxar...

Tais autores, que geralmente nunca atenderam sequer a um paciente com depressão na vida, equivocam-se porque a falta de reação de determinadas pessoas aos estressores pode ser decorrente da maior vulnerabilidade genética ao ambiente. Até mesmo grandes empresas precisam abrir mais seus horizontes, costumam contratar para suas palestras motivacionais mais atores, esportistas e palhaços do que pessoas realmente informadas e sérias. Falam coisas que nunca servem para vários indivíduos, um desperdício de dinheiro mal empregado.

Estudo longitudinal de Dunedin

Uma das brilhantes pesquisas desenvolvidas na linha acima é o Estudo Longitudinal de Dunedin, um *estudo de coorte que acompanhou mil crianças desde o nascimento; tais crianças foram avaliadas em diversos momentos de suas vidas. Em 2003, foi descoberto que uma das causas da variabilidade de respostas ao estresse entre as pessoas é uma variação humana do gene transportador de serotonina (5-HTT) que controla toda a sinalização do mensageiro químico cerebral serotonina. Até mesmo a percepção do medo, comandada por uma estrutura cerebral chamada “amígdala”, é influenciada pelo 5-HTT.

Outro aspecto interessante é a variação genética no gene MAOA (que codifica a enzima de mesmo nome) que pode ou não influenciar crianças maltratadas a se tornarem adultos antissociais, os temidos “psicopatas”.

Fico indignado quando leio ou ouço entrevistas de alguns colegas médicos, inclusive psiquiatras, que afirmam categoricamente que o psicopata já nasce assim e não tem “conserto”. Há livros inverídicos sobre tal assunto, tentando até dar “receitas” ou “vacinas” contra tais psicopatas. Como se isso fosse possível para um leigo, com todo o respeito. Negar acesso a tratamento é outro crime.

A taxa de distúrbios de comportamento é de 20% entre os homens. Entre as crianças expostas a maus tratos, a taxa de distúrbios de comportamento é de praticamente 50%. Como médico, observo que algumas crianças maltratadas correm risco de desenvolver distúrbios de comportamento, mas outras não, embora tenham vivido na mesma situação.

Quando há menor expressão do MAOA, há maiores riscos, após maus tratos, de a criança desenvolver distúrbios de comportamento agressivo. Algumas pesquisas prévias mostraram que drogas que inibiam a ação da enzima MAOA evitavam que os animais se habituassem a estressores e tais animais tinham uma hiper-reatividade a ameaças. Exames posteriores de neuroimagem demonstraram que indivíduos com baixa atividade do gene MAOA são caracterizados por uma amígdala hiper-responsiva.

Na mesma linha de pensamento, o brilhante Professor Caspi e colaboradores vêm demonstrando a hipótese de que alguns indivíduos podem ser geneticamente vulneráveis aos efeitos de canabis (maconha). É comum eu receber jovens com surgimento de psicose, indo de sintomas como alucinações e ilusões até distúrbios graves como a esquizofrenia. Isso deve alertar pais, adolescentes e políticos conscientes, eu costumo detalhar muito isso a todos eles. Geralmente, o pico do período de risco para psicose é por volta dos 25 anos de idade. Tais pessoas são caracterizadas por uma variação específica do gene COMT. O risco de psicose em adolescentes usando canabis pode chegar a 8%, indo até a assustadora taxa de 15% naqueles adolescentes com o polimorfismo (vem do grego: poli significa muito, e morfo, forma) genético específico. Muitos podem me perguntar: “Mas, Dr. 85% dos adolescentes de risco não desenvolvem psicose com a maconha, certo?”. Sim, é correto, mas quando tal uso atinge até irreversivelmente a saúde mental de um ente querido, o raciocínio, na prática muda completamente. É inquestionável para a medicina séria e científica que a maconha provoca estragos de diversas ordens, com riscos de sequelas psiquiátricas graves.

Médicos e sociedade devem estar abertos para entender as questões envolvendo interações geneambientais. Muitos riscos genéticos podem depender do ambiente, o homem precisa voltar a viver em paz e harmonia com a natureza, com isso todos ganharão mais saúde e qualidade de vida.

*Estudo de acompanhamento longitudinal, ao longo da vida

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Joel Rennó Jr.

Dr. Joel Rennó Jr. MD, Ph.D. Professor do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria da USP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein- São Paulo. Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

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