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O amor sob o prisma das canções ? Parte V

Regina Wielenska 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Negligência mata qualquer relação

por Regina Wielenska

Este é o quinto artigo da série em que abordo os padrões de comportamento na relação amorosa a partir de algumas canções. Para ler o quarto artigo da série - clique aqui.

Este texto encerrará minhas conversas sobre relacionamentos a dois a partir de canções de amor. Por certo é um fim arbitrário, já que música e amor são temas de tal forma entrelaçados que renderiam colunas quinzenais por anos a fio.

Creio que todos se recordam do samba Só vendo que beleza, de Henricão e Rubens Campos. Sua letra segue abaixo, os mais jovens provavelmente conhecem esta música interpretada pelo grupo Los Hermanos, sem saber que há décadas ela fora lançada na voz de Carmen Costa.

Eu tenho uma casinha lá na Marambaia
Fica na beira da praia, só vendo que beleza
Tem uma trepadeira que na primavera
Fica toda florescida de brinco de princesa
Quando chega o verão eu sento na varanda
Pego o violão e começo a tocar
O meu moreno que está sempre bem disposto
Senta-se ao meu lado também a cantar

Quando chega a tarde um bando de andorinhas
Passa em revoada fazendo verão
E lá na mata um sabiá gorjeia
Uma linda melodia pra alegrar meu coração
Às seis horas da tarde o sino da capela
Bate as badaladas da Ave Maria
E a lua nasce por de trás da serra
Anunciando que acabou o dia

Este casal parece estar harmonia. Um toca o violão enquanto o outro corresponde cantando. A palavra chave do bem-estar, do sucesso desse relacionamento parece ser a tal da disposição. O que é isso? Por exemplo, é ficar sensível às necessidades do parceiro e se dispor, na medida do possível, a supri-las. Parece também ter a ver com a capacidade de desfrutar dos recursos externos com sabedoria. Aqui não se passa fome, não se briga por dinheiro, vive-se com modéstia, desfrutando despudoradamente do que se tem ao redor.

Só para fazer contraste com Amélia (clique aqui e leia), eles vivem numa casinha e estão de acordo com isso. Na Marambaia eles não se ocupam comprando presentes dos quais o outro nem precisa, como na outra canção já analisada nesta coluna. Aqui tampouco se desperdiça o verde como cenário para o amor (lembram-se de Erasmo Carlos e seu coqueiro verde? - clique aqui e leia). Há uma casa com pé na areia, lugar simples que abriga o casal, e uma natureza à qual eles respondem, curtindo gorjeios e revoadas, apreciando flores. Algum estado de espiritualidade eles parecem viver, importam-se com o sino que sinaliza a hora da Ave Maria. O luar serve de pano de fundo para abraços e seus desdobramentos.

Tudo parece fácil, fluido, leve, não é? No mundo real, nem sempre conectado às letras de músicas, as coisas parecem ser mais difíceis. Mesmo na Marambaia paga-se impostos, tsunamis podem destruir a paisagem do amor, um deles pode adoecer, e eles precisarão descobrir formas de cultivar o relacionamento a despeito das tormentas. Quanto mais árdua a vida de um casal, mais cativante deve ser o lar e a parceria amorosa que dele faz abrigo.

No mundo das relações de consumo, o comerciante que deseja sobreviver não pode esmorecer em épocas de crise. Negligência mata qualquer relação. O lojista faz promoções, cria programas de fidelização (sim, este é o nome das estratégias de marketing que mantém o freguês interessado em consumir naquele estabelecimento...), procura captar as necessidades do cliente e interage com ele. Uma relação mercantil bem-sucedida é aquela na qual ambas as partes cedem um pouco para satisfazer ao outro e eles sentem-se respeitados, levados em consideração.

Pois é, o amor é parecido com as atividades mercantis, tudo precisa de dedicação, conquista antecede a manutenção. Esta última é a etapa mais preciosa, dá um trabalho danado não se acomodar após os louros conquistados ou esmorecer frente às adversidades. Cada um precisa descobrir o jeito mais amoroso e sincero de cultivar o amor, não há receitas prontas e disso todos sabem.

Surpreendi-me com uma informação postada no blog O Couro do Cabrito (http://ocourodocabrito.blogspot.com/2009/05/tal-casinha-da-marambaihttp://vyaestelar.uol.com.br/post/4/como-perceber-se-estou-tendo-sonhos-premonitoriosl), e achei que vinha a calhar muito bem para ilustrar o ponto de vista de que relações maravilhosas podem findar se não forem nutridas. Olhem o que Henricão e Rubens Campos compuseram algum tempo depois:

Casinha da Marambaia
Nossa casinha lá da Marambaia
A mais bonita da praia se desmoronou
A trepadeira brinco-de-princesa
Ficou triste, amarela e depois secou
Minha varanda vive no abandono
É um destroço sem dono
Numa solidão
Até você que parecia ser sincero
Sem motivo abandonou meu coração

O sabiá também mudou seu ninho
Eu já não ouço a sua canção
As andorinhas foram em revoada
Quebraram-se as cordas do meu violão
E há quem diga que isso é desumano
E eu não mereço tanta ingratidão
Quero que volte como antigamente
Para dar sossego ao meu coração

Pois é, leitores, amor é substância rara, volátil, evapora rapidinho ou entra em combustão com qualquer faísca, e acaba sem que nos apercebamos do motivo.

Decifrar a química do amor e fazer da casinha na Marambaia lugar de encantamento é o desafio para cada amante. A todos, meus melhores votos de sucesso. Empenhem-se o tanto que o coração de cada um achar justo e necessário.




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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