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Por que nos isolamos?

Monica Aiub 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
E por que é tão dificil pensar por si mesmo?

por Monica Aiub

No artigo anterior (clique aqui), abordei a questão da solidão. Alguns leitores perguntaram: o que é, afinal, solidão? Em seu Dicionário de Filosofia, Abbagnano significa solidão de duas maneiras: o isolamento dos outros ou a busca de uma melhor comunicação.

Iniciemos pela primeira acepção: isolamento dos outros. Quais os motivos que levam alguém a isolar-se dos outros? Você já esteve numa situação de isolamento? Muitos pontos podem ser levantados aqui: que tipo de isolamento? Isolamento total? Isolamento de um grupo que não partilha as mesmas ideias que você? Isolamento de um grupo que o exclui por pensar diferente? Isolamento em um tipo de relação em especial, por exemplo, numa relação afetiva, ou de trabalho, ou familiar, ou ainda com alguns membros da família? Isolamento porque o convívio lhe aborrece?Assusta? Incomoda?

Abbagnano aponta duas situações de isolamento: o do sábio e o patológico. O sábio isola-se porque é autônomo, pensa por si mesmo. Assim sendo, o isolar-se dele não é um fechar-se para o mundo, ao contrário, exige abertura, disposição para ser provocado a refletir acerca de suas posições, e autonomia de pensamento para defendê-las ou abandoná-las independentemente do que pensa a maioria das pessoas, do que pregam as instituições vigentes.

Zaratustra

Ao ler o trecho do verbete de Abbagnano que diz: “No primeiro sentido a solidão é a situação do sábio que, na sua figura tradicional, é perfeitamente autárquico e por isso isolado em sua perfeição”, a primeira impressão é de alguém que como o Zaratustra de Nietzsche, um dia resolveu viver apenas consigo mesmo.

“Aos trinta anos de idade, deixou Zaratustra sua terra natal e o lago da sua terra natal e foi para a montanha. Gozou ali, durante dez anos, de seu próprio espírito e solidão, sem deles se cansar.”

Você já experimentou, como Zaratustra, gozar de seu próprio espírito e solidão? Como é conviver consigo mesmo? Você se cansa de si mesmo? Fica entediado? Ou desfruta de sua agradável companhia? No consultório, observo, em grande parte dos casos, pessoas que não suportam viver consigo mesmas. Não suportam um segundo desse tipo de solidão. Algumas porque têm uma visão excessivamente negativa de si mesmas; outras porque têm medo do que podem descobrir estando em própria companhia; outras, ainda, porque interpretam essa solidão como abandono, como rejeição.

Há também pessoas, mas esses são casos mais raros, que convivem muito bem consigo mesmas, convivência essa que pode ser de diferentes níveis. “Preciso de um tempo comigo mesmo, um tempo pra mim”, com essa fala, alguns se jogam no sofá ou na cama por um tempo, voltam a atenção para dentro de si, sem necessariamente observar algo. Entram num mergulho absorto e nada aproveitam disso. Como quando ficamos horas em companhia de um amigo e o resultado disso é somente ter estado horas acompanhado desse amigo: nada observamos nele nem em nós, nada pensamos, nada sentimos, nada fizemos durante esse longo período. Não afirmo, é claro, que isso seja algo pernicioso ou desagradável, apenas uma forma de visitar seu próprio interior.

Autoleitura

Num outro nível, há pessoas que mergulham em si mesmas e fazem uma espécie de leitura do que se passa dentro de si. Suas fragilidades, seus medos, seus anseios, sua força, sua determinação... uma espécie de auto-avaliação a partir da qual decisões são tomadas, posturas são assumidas, formas de ser são modificadas. É como conviver com um amigo, novamente o amigo, um outro eu, que lhe questiona, que lhe mostra como você é, que lhe provoca a olhar seus pontos frágeis, que valoriza suas qualidades e lhe ajuda a decidir sobre os caminhos a serem trilhados. Mas nem sempre esse é um processo agradável e tranquilo, como nem sempre a conversa com um amigo é agradável e tranquila. Podem ocorrer conflitos, divergência de opiniões, sentimentos contraditórios, choques... você já esteve em choque, em conflito com você mesmo? De que maneira lidou com isso?

Há ainda muitos outros níveis e possibilidades, talvez tantos quanto as pessoas existentes no mundo, talvez bem mais do que isso, afinal, nossas relações variam no tempo, nos diferentes contextos e situações, dependendo de inúmeros fatores. Se você se relaciona com você mesmo, como faz isso? Talvez você me responda que depende da circunstância, do momento, se há ou não um assunto em questão. Enfim, mesmo em nossa própria companhia, em nossa relação com nosso próprio ser, não é possível delimitar um padrão.

Depois dos dez anos de convivência e gozo com seu próprio espírito e solidão, Zaratustra modifica-se: “No fim, contudo, seu coração mudou; e, certa manhã, levantou-se ele com a aurora, foi para diante do sol e assim falou: ‘Que seria a tua felicidade, ó grande astro, se não tivesses aqueles que iluminas! São dez anos que sobes à minha caverna; e já se te haveriam tornado enfadonhos a tua luz e este caminho, sem mim, a minha águia e a minha serpente (...) Vê! Aborreci-me da minha sabedoria, como a abelha do mel que ajuntou em excesso; preciso de mãos que para mim se estendam’”.

Observemos que Zaratustra não estava totalmente sozinho. Ele partilhava a companhia de sua águia, de sua serpente, do sol, e ainda assim não lhe bastaram. Ele precisava “esvaziar sua taça que estava a transbordar”, partilhar o que viveu, descobriu, sentiu, pensou. “E Zaratustra desceu a montanha”, em busca dos homens.

Pensar por si mesmo

Mas não pense que ele foi muito bem acolhido, aceito, ouvido, compreendido. Não! Ele trazia um discurso diferente: “Nenhum pastor e um só rebanho! Todos querem o mesmo, todos são iguais; e quem sente de outro modo vai, voluntário, para o manicômio”. E você, como é acolhido quando partilha as descobertas do “pensar por si mesmo”? Conclui que deve ir, voluntário, para o manicômio? Muitas pessoas sentem-se assim quando pensam por si mesmas. As conclusões de seu pensar diferem, divergem radicalmente, do que pensa a maioria. E a maioria, surda e cega ao diferente, avessa a qualquer divergência, massacra, exclui, isola quem resolve caminhar por outras sendas.

Ainda na acepção isolamento, para definir o verbete solidão, Abbagnano prossegue: “Fora desse ideal, o isolamento é um fato patológico: é a impossibilidade da comunicação que se liga a todas as formas da loucura”.

É interessante observar a proximidade entre a sabedoria e a loucura nesse conceito. O sábio e o louco são afetados pela solidão, solidão como isolamento. Mas no caso do sábio, trata-se apenas de uma postura de autonomia; no caso do louco, a impossibilidade de comunicação.

Você já esteve em situações onde comunicar o que pensava ou sentia era totalmente impossível? Onde não havia palavras ou meios para se fazer entender? Já passou pela sensação de “viver em outra dimensão”?

Ninguém é totalmente sábio, ou totalmente louco

Talvez pudéssemos alterar o ditado popular e dizer que: De sábio e de louco, todo mundo tem um pouco. Ninguém é totalmente sábio, ou totalmente louco. E o que apontamos, muitas vezes, como uma patologia, diz mais respeito às nossas afecções do que a modos de ser doentios.

Não quero, com isso, fazer uma apologia à loucura, à patologia, ou dizer que não existem situações em que a pessoa encontra-se tocada de forma tal que necessita de um tratamento. O termo patologia vem do grego pathos, afetado por. Todos nos afetamos, de uma maneira ou de outra, e por isso todos somos, num certo sentido, “animais doentes”, e por esse motivo, como diria Nietzsche, “animais interessantes”.

Quero apenas dizer que todos nós nos isolamos em determinados momentos, seja em nome de nossa autonomia de pensamento, seja porque nos encontramos impossibilitados de comunicação. Muitas vezes, ambas as situações ao mesmo tempo.

Talvez o sofrimento, apontado por muitas pessoas, como resultado da solidão, esteja entre a dificuldade em assumir a perspectiva de seu pensar autônomo – e consequentemente, expor-se à interrogação, à avaliação, ao questionamento, e muitas vezes, ao julgamento externo – e a dificuldade de comunicar algo tão distinto da opinião vigente.

Como você se posiciona? Procura, voluntariamente, o manicômio? Fecha-se em si mesmo? Cala-se? Ou desce da montanha e esvazia a sua taça?

O tema solidão não se esgota aqui. Há ainda, outra acepção, acerca da qual trataremos em outro momento.




Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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