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O que há de sério no riso?

Monica Aiub 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Você já foi vítima do riso?

por Monica Aiub

Depois de apresentar nos últimos artigos diferentes observações sobre o riso, inspiradas no texto de Henri Bergson, intitulado O riso, coloco algumas questões acerca de aspectos sérios, e talvez até trágicos, do riso.

“O rígido, o esteriótipo, o mecânico, por oposição ao flexível, ao mutável, ao vivo, a distração por oposição à atenção, enfim, o automatismo por oposição à atividade livre, eis em suma o que o riso ressalta e gostaria de corrigir.” (Bergson, 2007: 97).

Seria então o riso uma forma de correção?

Uma forma de denunciar nossos modos de vida, muitas vezes automatizados, preconceituosos, provocando-nos à reflexão sobre o existir?

Ou seria o riso um instrumento para moldar o indivíduo à sociedade, pois para escapar do ridículo, a pessoa optaria pela adaptação às exigências sociais, ainda que essas fossem incompatíveis com suas necessidades? O que você pensa a respeito?

Bergson, nas páginas seguintes, aponta alguns elementos de significado e alcance social do riso. Entre eles, afirma ele, o riso exprime inadaptação à sociedade. Você já se sentiu inadaptado à sociedade em algum momento? Isso gerou riso a você ou a outras pessoas? Como você lidou com tal inadaptação? E com o riso? O que ele provocou em você?

Muitas vezes, rir de si mesmo é uma forma de refletir, de compreender os próprios processos e revê-los. Bergson afirma que para uma situação ser risível, não podemos nos comover com ela; o riso é incompatível com a emoção e exige certa insensibilidade. Num sentido, podemos observar tal afirmação nos contextos em que estamos tocados, sensibilizados por uma situação. Somos afetados, sofremos com isso, entristecemos, nos deprimimos, ou ficamos felizes, nos alegramos. Nosso envolvimento emocional nestes momentos inviabiliza, por vezes, um distanciamento suficiente para uma reflexão acerca do processo vivido. Por outro lado, quando nos distanciamos o suficiente para conseguirmos rir do que nos afetava, a possibilidade de encontrarmos formas mais eficazes para lidar com a situação aumenta.

Outras vezes, rir de si mesmo é uma forma de colocar-se em situação de ridículo. No intuito de sair dela, podemos nos exigir adaptação. Podemos observar nossos comportamentos, sentimentos, ações, posicionamentos e modificá-los por temor ao ridículo. Eis um segundo significado e alcance social do riso descrito por Bergson: “enrijecimento para a vida social”. Você já passou por isso? Já se enrijeceu para se adaptar à vida social? O enrijecimento, neste caso, foi provocado por sua própria vontade ou por pressão externa?

Aqui surge outra questão: o enrijecimento para a vida social é uma forma de alienação, de massificação social? Ou o enrijecimento, neste caso, pode romper exatamente com tais formas, por denunciar os automatismos e corrigir nossa distração?

Na mesma página (100), Bergson afirma: “Quando a pessoa do outro deixa de nos comover, só ai pode começar a comédia” e “é cômica a personagem que segue automaticamente seu caminho sem se preocupar em entrar em contato com os outros. O riso estará lá para corrigir sua distração e para tirá-la de seu sonho”. Ao mesmo tempo em que o riso revela os preconceitos de uma sociedade, pode funcionar como “trote social”, “humilhação”, imposição desses mesmos preconceitos.

Riso e bullying

Em nossos contextos, quantas vezes o riso, na tentativa de ser denúncia, correção, expressa unicamente preconceitos irrefletidos, gerando bullying? Você já foi vítima disso? Como lidou com a situação? Você conseguiu refletir acerca de seus posicionamentos ou apenas sofreu as consequências de ser violentado em seu modo de ser, simplesmente por ser diferente do “comum”, do “socialmente aceito”? Você já foi autor disso? Qual era sua intenção no momento? Você conseguiu perceber o que seu ato provocou na pessoa que foi “vítima” de seu riso?

É cômico, ainda segundo Bergson, o isolamento; além da insociabilidade, insensibilidade, rigidez, distração, automatismo. Bergson não era um precursor e um defensor do bullying. Ao contrário, ele nos trouxe uma belíssima reflexão acerca do significado da comicidade: um remédio para a vaidade, não apenas de um indivíduo, mas até de uma cultura; uma denúncia aos preconceitos de uma sociedade; uma reflexão sobre os costumes, as ideias relativas a uma cultura, a uma época; uma possibilidade de observação dos sonhos.

“Não vemos as coisas mesmas; limitamo-nos, no mais das vezes, a ler etiquetas coladas sobre elas”, afirmou ele. O riso pode nos provocar a observar para além das etiquetas, pode nos alertar, nos tirar de nossa distração, de nosso esquecimento cotidiano, e nos provocar a observar as possibilidades através do que, num primeiro momento, poderia parecer completamente absurdo. “O absurdo cômico é de mesma natureza do absurdo dos sonhos”, ou seja, a comicidade possui uma lógica particular, que extrapola os limites do logicamente aceitável no senso comum de nosso entorno social. Ao mesmo tempo em que quebra os automatismos provocados pela rigidez de tal “lógica social”, abre possibilidades para a construção de novas formas de coexistência. Daí a seriedade e, dependendo da situação revelada, talvez até o trágico que habita o riso.

Referências Bibliográficas:
BERGSON, H. O riso: Ensaio sobre a significação da comicidade. São Paulo: Martins Fontes, 2007.




Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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