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As formas que você utiliza para lidar com seus problemas são eficazes?

Monica Aiub 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
Filosofia clínica se propõe a ser um método filosófico não interpretativo

por Monica Aiub

E quando a pessoa não se expressa por palavras, como coletar os dados para a leitura clínica? Essa é uma pergunta feita por vários leitores que se interessaram pela prática da filosofia clínica.

Didaticamente, costumamos dizer que o partilhante (paciente) chega ao consultório, perguntamos o que se passa, ele nos conta sobre as questões que o incomodam e, uma vez expostas e contextualizadas as questões, passamos ao relato da história de sua vida.

Conforme observado no artigo anterior (clique aqui), nem sempre isso ocorre de maneira ordenada logicamente, há, conforme exposto, singularidades nas lógicas. Mas também há singularidades nas formas de expressão.

Umberto Eco, no livro As Formas do Conteúdo, demonstra que os significados variam com as formas de expressão escolhidas. Um mesmo conteúdo, expresso em formas diferentes, pode apresentar significados diferentes. Não é à toa que escolhemos dizer algo a alguém por meio de um veículo específico. Já notou como isso pode fazer toda a diferença?

Às vezes o partilhante tem dificuldade em expressar suas questões ou contar sua história pela expressão oral. Falar não é o veículo mais adequado. Pode ocorrer de faltarem palavras, ou delas não trazerem o significado adequado para o que deseja expressar. A inefabilidade de alguns sentimentos, de profundidades ou intensidades da existência, é descrita por vários pensadores e literatos. Por que os partilhantes estariam isentos dela?

Veículos de expressão

Caso a pessoa tenha dificuldade em expressar-se pela fala, são pesquisados outros veículos de expressão utilizados por ela: desenho, pintura, escultura, música, poesia, diários, cartas, e-mails, blogs, contos, dança, gestos, expressão corporal, fotografia, vídeo, teatro... enfim, o que se apresentar.

Há vários momentos da clínica em que os elementos expressos por essas e outras formas podem ser explorados. Se a pessoa quiser iniciar a clínica usando outro veículo de expressão, isso é possível. A questão inicial, o assunto, pode ser colocada numa carta, exposta através de fotos, de um livro, de um filme...

Obviamente, como a filosofia clínica se propõe a ser um método filosófico não interpretativo, o material apresentado será significado pela própria pessoa, e não pelo filósofo clínico.

Para ilustrar, citarei dois exemplos. No primeiro caso, uma senhora trouxe sua questão expressa em uma carta. Após assistir uma entrevista sobre o funcionamento da filosofia clínica, considerou a dificuldade de tocar num tema que a incomodava muito e optou por escrever. Colocada a questão na carta, ela fez alguns comentários e iniciou sua história, agora contada a partir das fotografias que trouxe. No segundo caso, um rapaz trouxe algumas de suas ilustrações para expor sua questão. Contextualizou cada ilustração, e apontou o que o incomodava a partir delas. Apresentado o assunto, iniciamos seu histórico, também acompanhado por ilustrações que, cronologicamente, traziam vários dados de suas vivências.

Semiose

É também possível que a pessoa coloque o assunto através da fala, mas que tenha dificuldade em contar a história. Nesse caso, pesquisamos se há outros dados de semiose (assim são chamados os diferentes veículos de expressão) e os exploramos. Para exemplificar, uma partilhante contou seus 25 anos de vida em 10 minutos, e encerrou dizendo que havia falado demais, que não gostava de falar sobre si mesma. Durante seu relato, comentou uma situação em que olhou as fotos no quadro de sua casa e outra em que escreveu um conto. Pedi que trouxesse na consulta seguinte, suas fotos e seus textos, organizados cronologicamente, e seu histórico foi contado a partir deles.

O leitor deve estar se perguntando: que diferença faz contar a história com ou sem fotos? Que diferença faz mostrar um texto ou uma imagem e contar a história a partir deles, ou simplesmente contar a história? Não há, é claro, um padrão que defina as diferenças. Cada pessoa tem os dados de sua memória acessados a partir de determinados elementos. Há quem rememore por sons, por timbres, há quem o faça por imagens, outros o fazem por palavras... São diferentes caminhos de acesso, alguns levam a um percurso, outros a outro.

Por isso, ainda que a pessoa não tenha dificuldade em contar sua história, caso ela faça uso de outro dado de semiose, este será explorado nos procedimentos clínicos. Conforme apresentado em artigos anteriores, após contar a história de vida, o filósofo clínico pede ao partilhante que reconte, agora dividida em trechos menores. Esse procedimento chama-se divisão. No processo divisório, é possível fazer diferentes divisões utilizando diferentes dados de semiose.

Composição e trilha sonora da vida

Alguns exemplos: atendendo um partilhante compositor, quando iniciamos, no processo divisório, o período de sua vida em que começou a compor, pedi que trouxesse suas músicas, e trabalhamos a partir delas. A riqueza de dados novos que surgiram nesse procedimento era inimaginável, visto ser ele um falante sem dificuldades. Acontece que ao trazer suas músicas, ele pode expor outros elementos, que não haviam surgido ao relatar sua história.

Num outro caso, o partilhante não era compositor, mas um amante da boa música, companheira em muitas situações. As músicas funcionavam, para ele, como a trilha sonora de sua vida. Pedi que selecionasse algumas dessas músicas e trouxesse para a consulta. Novamente, ao contar a parte de sua história, relacionada a determinada música, ouvindo-a, muitos dados surgiram, inclusive expressões novas, relações não citadas, lembranças não surgidas anteriormente.

Muitos são os casos que poderiam ser citados, mas observe o que acontece com seus pensamentos quando ouve uma música, lê uma poesia, vê um filme, lê uma carta, contempla um quadro que tenha feito parte de sua história. Algumas pessoas dirão: nada ocorre. Outras despertarão, com isso, lembranças, sentimentos, ideias...

Significados e artes

Outro momento da clínica em que esses dados podem ser pesquisados são os procedimentos de enraizamentos. Pesquisar o significado de um determinado dado de semiose, de uma obra produzida, de uma carta, de uma música citada, enfim, de dados que se mostrem relevantes no histórico do partilhante e que se apresentem em diferentes veículos de expressão, também é tarefa do filósofo clínico. Assim como os outros termos pesquisados nesse procedimento, cada elemento pesquisado é contextualizado no histórico do partilhante, e significado por ele. Assim, não cabe ao filósofo clínico interpretar o significado de uma música, de uma pintura, de uma poesia, por mais que tenha conhecimentos sobre arte e por mais que lhe pareça óbvio, o significado sempre deve ser atribuído pelo partilhante.

Há ainda, pessoas que utilizam outros veículos de expressão para resolver suas questões. A arte, a criação como forma de lidar com as questões da vida. Nesse caso, mais que um dado de semiose, o filósofo clínico pesquisará a forma de uso desse submodo (modos, maneiras, formas de lidar com os problemas, subordinados ao modo de ser do partilhante).

Há pessoas que resolvem suas questões escrevendo textos, cartas, poesias, músicas ou pintando quadros, ou ainda dançando... Com isso, colocam para fora, expurgam de si tudo o que lhes faz mal, o que lhes incomoda. Esse submodo é denominado Esteticidade Seletiva. Pode ser observado informalmente, e pode ser utilizado clinicamente, respeitando a forma de uso própria da pessoa.

Outras pessoas só conseguem compreender e resolver suas questões quando as traduzem para outro veículo de expressão. Assim, a mesma ação de escrever um texto, uma carta, uma poesia, compor uma música, pintar um quadro, dançar... significará, aqui, não uma catarse, mas uma Tradução do que se passa no íntimo dessa pessoa.

Poderíamos descrever aqui inúmeras formas de lidar com os problemas que envolvem o fazer artístico, diferentes formas de expressão, e ainda assim elas seriam insuficientes para descrever todas as possibilidades existentes. Cada pessoa é única e pode criar para si, diante de cada situação vivida, diferentes formas, formas também únicas, de lidar com tais situações.

Muitos dos atendimentos em meu consultório resultaram em composições, em pinturas, em peças de teatro, em filmes, em livros, em álbuns de fotografias, em cartas de amor, em belíssimos concertos ou apresentações de dança. Não porque eu me interesse por arte (me interesso e também possuo minhas formas de produção artística, contudo não por isso), mas porque essas formas de expressão encontravam-se na estrutura dos partilhantes e, por intermédio delas, trabalhamos as questões do cotidiano.

Submodos analíticos

Muitos outros atendimentos passaram longe do fazer artístico, pois esse não era um dado da estrutura do partilhante. Nesses casos, o trabalho seguiu outras formas de expressão, submodos às vezes mais analíticos, às vezes mais matemáticos, às vezes mais sensoriais. O que quero dizer com isso? Que possuímos inúmeras formas para lidar com nossos problemas. Algumas delas nos são mais prazerosas, algumas são mais eficazes, outras são inviáveis. Escolhemos, entre elas, aquelas que fazem sentido para nós, aquelas que conhecemos, aquelas com as quais nos sentimos bem.

Mas fica uma questão: se desenvolvêssemos mais formas para lidar com nossos problemas, diferentes daquelas que já possuímos, resolveríamos nossas questões mais facilmente? Quais são as formas que você, habitualmente, utiliza para lidar com seus problemas? Elas são eficazes? São agradáveis a você? Há outras possibilidades?

Referências Bibliográficas:
ECO, Umberto. As formas do conteúdo. São Paulo: Perspectiva, 1999.




Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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