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Somos um ou vários?

Monica Aiub 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
Onde é o nosso começo?

por Monica Aiub

“Escrevemos o Anti-Édipo a dois. Como cada um de nós era vários, já era muita gente. (...) Não somos mais nós mesmos. Cada um reconhecerá os seus. Fomos ajudados, aspirados, multiplicados”. Assim Deleuze e Guattari iniciam a introdução do livro Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, intitulada Rizoma. Um Rizoma é descrito por eles como um intermezzo, um entre as coisas, algo que não começa nem termina, não é delimitado, é todo tipo de devir... (vir a ser) Considerando a afirmação “como cada um de nós era vários”, podemos ser vários?

Muitas pessoas chegam ao consultório preocupadas, porque sentem como se fossem várias. Observam as contradições existentes entre seus diferentes “eus”. Eu e a outra, eu e eu mesma, meus vários “eus”. Uma quer e a outra proíbe; uma cria e a outra destrói; e não somos apenas duas, somos múltiplas pessoas contidas em nós mesmos. Quais os limites de cada um de nossos eus? Há uma forma de unificá-los? Posso matar um de meus eus? Posso criar novos eus? A outra pessoa, que não sou eu e me habita, quem é ela? Quem sou eu? Há uma linha que delimita o “eu” e o distingue dos outros eus?

Herança cartesiana

Poderíamos abordar essas questões por diferentes caminhos, mas o caminho escolhido será uma aproximação ao conceito de rizoma. A herança cartesiana nos fez, ao mesmo tempo, seres seccionados, cindidos em corpo e mente, natureza e cultura, prática e teoria... mas também seres que julgam ser e pensar de forma totalmente linear, ponto após ponto, um gerando o outro, segundo uma ordem natural. Assim, buscamos nossa genealogia, buscamos a constituição de nosso eu, como se ele pudesse ser construído exclusivamente com um mesmo material, e moldado por um mesmo centro e propósito, numa perfeita lógica da natureza.

Ao contrário, a idéia de rizoma permite que qualquer ponto seja conectado com outro. Não se fixa um ponto, não há uma ordem necessária, não há raiz que origine todo o restante. Há pontos de contato, há múltiplas possibilidades de conexões.

“Ele não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda. Ele constitui multiplicidades lineares a n dimensões, cresce e transborda, sem sujeito nem objeto, exibíveis num plano de consistência e do qual o Uno é sempre subtraído (n – 1). Uma tal multiplicidade não varia suas dimensões sem mudar de natureza nela mesma e se metamorfosear” (DELEUZE; GUATTARI).

Onde é o nosso começo?

Poderíamos, de maneira reducionista, dizer que nosso começo é o nascimento, ou nossa concepção biológica. Mas o contexto no qual nascemos e que, muitas vezes, é constituinte daquilo que somos, já estava traçado muito antes de nossos pais pensarem ou desejarem nos conceber. Então, se quisermos, definitivamente, achar o começo, teremos uma grande dificuldade. Como é difícil achar o começo! Mais difícil ainda convencer-se de que o ponto escolhido é o começo... teria a existência de cada um de nós um começo?

Na filosofia clínica, para compreender o que se passa com a pessoa, como ela se “constitui”, pedimos que conte sua história, desde o começo. Há quem comece das primeiras lembranças, há quem inicie do contexto do nascimento, contado pelos pais. Outros contam como os pais se conheceram, como o planejaram ou desejaram; outros traçam uma pré-história, contando o histórico de seus avós, de seus pais... há quem vá bem mais longe, fazendo uma árvore genealógica de seus ancestrais. Há até aqueles que decidem iniciar contando suas outras vidas. Onde é o começo? Difícil saber, então traçamos um ponto, mas muitas vezes precisamos recorrer a uma retroação: e antes disso, e antes disso, e antes disso...

E o fim? Onde delimitar o fim? Muitos apontam o fim como sendo a morte, mas dependendo das crenças, pode-se continuar após a morte. Todavia, independentemente das crenças em vida após a morte, muitos de nós continuarão existindo, após a morte, em nossas obras, em nossos feitos, em nossa contribuição para a constituição do mundo em que vivemos.

“Ele [o rizoma] não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda”. Assim também é nossa existência. Podemos delimitar um começo e um fim, respectivamente, no nascimento e na morte, mas não são limites precisos. Nossa vida cresce e transborda, e isso pode se dar a partir do presente, de cada passo, de cada dia vivido, em cada forma de existência construída, em nossa multiplicidade.

Multiplicidade

“Uma tal multiplicidade não varia suas dimensões sem mudar de natureza nela mesma e se metamorfosear”, ou seja, cada forma de existência construída, cada variação de nosso ser, muda nossa natureza, nos coloca em movimento, nos faz ser o que somos, enquanto somos. Assim, essa multiplicidade nos permite um constante devir, ou melhor, todos os devires. Somos, deixamos de ser, tornamos a ser... assim podemos ser vários: um de cada vez, todos ao mesmo tempo, deixar de ser alguns, voltar a ser outros. Nada há de patológico nisso.

Tal qual os heterônimos de Fernando Pessoa compunham um e vários dele, temos nossas multiplicidades e nos compomos diariamente nesses diferentes eus, que se mesclam, se confundem, se interpõem, se contrapõem, se metamorfoseiam, se tornam aquilo que são em seus devires. Quem somos? A multiplicidade de nossos devires.

“Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo” – seríamos esse intermezzo? O entre que nos permite o constante metamorfosear? Quando tentamos dizer quem somos de maneira estática, perdemos a dimensão do movimento da vida. Todas as nossas afirmações ficam aquém do que de fato somos, nosso discurso parece vazio, é como se fôssemos muito mais do que o que conseguimos pronunciar, e o somos, somos todas as possibilidades de existência contidas num único ser.

Somos vários? Sim! Somos os vários que nossa multiplicidade nos permite ser, somos vários diante de nossas constantes metamorfoses, somos vários de acordo com nossos processos de significação, mas também somos vários de acordo com os papéis que escolhemos exercer na vida. Assim, a questão que se coloca não é mais: quem sou eu? A questão colocada agora é: como convivo comigo mesmo?

Referências Bibliográficas:
DELEUZE, G; GUATTARI, F. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.




Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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