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Arte, neurociência e existência

Monica Aiub 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
Nosso cérebro pode ser ensinado, alterado pela arte ...

por Monica Aiub

No artigo anterior (veja aqui) abordei a possibilidade da ausência de arte gerar doenças.

Como observar esta questão na perspectiva da neurociência? Jonah Lehrer em seu livro “Proust foi um neurocientista”, apresenta vários casos de artistas, em diferentes formas de arte, que anteciparam algumas questões hoje indicadas e, em alguns casos até desvendadas pela neurociência.

Proust, Virginia Wolf, Cézanne, Stravinsky, Whitman são alguns dos artistas citados no livro. Lehrer, neurocientista que trabalhou no laboratório de Eric Kandel, descreve experimentos em neurociência capazes de fundamentar algumas das ideias apresentadas por estes artistas.

Ao falar de Stravinsky, por exemplo, Lehrer trabalha a música e alguns de seus efeitos em nosso cérebro e corpo. As composições musicais, dependendo da estética de um determinado período, possuem um padrão de composição que gera expectativas no ouvinte. Quanto mais uma composição surpreende o ouvinte com o inesperado, construído dentro e a partir daquele padrão estético, mais genial ela é. Mais genial ainda é o compositor que rompe um padrão estético, criando novas formas musicais.

Segundo as pesquisas de Lehrer, o inesperado produz uma movimentação no cérebro, gerando o desenvolvimento desse. “Na realidade, o tronco encefálico contém uma rede de neurônios que respondem apenas a sons surpreendentes. Quando o padrão musical a que estamos acostumados é transgredido, essas células iniciam o processo neuronal que culmina na liberação de dopamina, o mesmo neurotransmissor que reorganiza o córtex auditivo” (LEHRER, 2010: 207-208).

De um lado, a descrição de Lehrer nos leva a crer que a audição de diferentes formas musicais pode nos levar a desenvolver nosso cérebro, por provocar a realização da plasticidade. Além disso, quanto mais nossa expectativa for quebrada, quanto mais formos surpreendidos, maior a nossa plasticidade, nossa aprendizagem, nosso desenvolvimento cerebral. Outro dado importante apresentado por ele é relação entre a dopamina e as emoções intensas, relação essa utilizada por ele para explicar a força emocional da música.

Sagração da Primavera

Para exemplificar, ele cita Stravinsky e sua composição “A Sagração da Primavera”. Stravinsky, nessa obra, não apenas surpreende com uma nova forma musical, mas dissolve a forma tida como tradicional em sua época. Conta Lehrer, que na primeira audição da obra o público foi surpreendido de modo tal que a novidade gerou violência, a ponto de tornar-se um caso de polícia. Todavia, o escândalo gerou publicidade, que fez com que outros desejassem ouvir isso que era tão diferente. O resultado foi, em pouco tempo, Stravinsky ser aclamado como um genial compositor, e a forma musical por ele inaugurada tornar-se um novo padrão estético.

Obviamente, não se trata do poder da música de Stravinsky, mas do surgimento dessa nova e surpreendente forma naquele contexto. Hoje, a música desse compositor não é uma novidade, e temos outras formas musicais mais surpreendentes, que nos causam um maior impacto que “A Sagração da Primavera” (ainda, para muitos, impactante). O exemplo seria um elemento favorável à tese da plasticidade cultural e, também, da plasticidade neuronal, como propõe Lehrer.

De outro lado, ele nos alerta para o fato da mesma dopamina liberada nesses contextos ser responsável, em outros contextos, pelo desencadeamento de surtos esquizofrênicos. “Quando o sistema da dopamina está desequilibrado, o resultado é a esquizofrenia. Se os neurônios da dopamina não conseguirem correlacionar seus disparos com os eventos externos, o cérebro é incapaz de fazer associações convincentes. Os esquizofrênicos têm alucinações auditivas complexas exatamente por que suas sensações não são mais compatíveis com as previsões mentais. Como resultado, eles inventam padrões onde não há e não conseguem enxergar os padrões que existem de fato.” (Idem: 208). Embora o autor destaque, em nota, o fato desta ser apenas uma hipótese, uma vez que é impossível apontar uma única causa à esquizofrenia, ele defende ser esta hipótese a explicação mais sustentável em neurociência.

Considerando a hipótese dopaminérgica, então, é possível derivar das afirmações de Lehrer que, dependendo do grau de quebra da expectativa, dependendo do organismo, dependendo dos contextos e de uma série de fatores, a música poderá provocar movimentações em nosso cérebro e, consequentemente, movimentações em nosso organismo, em nós. Compreendo aqui o nós não apenas na perspectiva dos estados físicos, corporais, mas como afetações tanto nos denominados estados físicos quanto nos chamados estados mentais.

Nosso cérebro pode ser ensinado, alterado pela arte a partir da transgressão de um padrão esperado. “Já que nosso cérebro pode ser ensinado, a música não precisa ficar enjaulada. A música necessita apenas de um padrão transgredido, uma ordem interrompida pela desordem, pois, nesse frisson acústico, percebemos uma sensação (...) É o som da arte alterando o cérebro.” (Idem: 211). O objetivo de Lehrer, em seu livro, conforme exposto na conclusão, é mostrar a necessidade não apenas da ciência, mas também da arte, para compreendermos as questões humanas e trabalharmos nossa existência.

Correlacionando o exposto com a prática da filosofia clínica, é possível a utilização da arte como forma de provocar movimentações, como forma de ativar a plasticidade, provocando aprendizagem. Contudo, o modo com isso ocorrerá sempre será dependente de inúmeros fatores apresentados na historicidade da pessoa, não sendo possível estabelecer previamente um padrão.

Por exemplo: alguns padrões musicais, presentes numa determinada cultura e época, não são necessariamente padrões para todas as pessoas. Se a ideia for provocar uma “desordem”, “transgredir um padrão”, primeiramente será necessário investigar qual é o padrão para aquela pessoa, e que tipo de alteração provocaria a surpresa. Mas também é necessário, antes, investigar quais as possíveis consequências que tal surpresa poderia trazer, visto que a mesma quebra de expectativas pode gerar desenvolvimento, movimentação, ou um desequilíbrio tal que possa originar uma crise esquizofrênica. Além disso, é preciso sempre atualizar a informação, pois aquilo que significava quebra de padrão num determinado momento poderão não mais representá-la no presente.

Para o filósofo clínico, os dados pesquisados na historicidade são de extrema importância para a condução do trabalho, uma vez que não há uma arte padrão e uma arte inovadora. Da mesma forma que a novidade de uma época torna-se padrão em outra, o padrão de uma pessoa pode ser uma novidade para outra; a novidade de um momento poderá ser padrão em outro. Além disso, nem todos serão provocados a movimentações através da música, ou de uma arte. Ainda que vivamos numa mesma sociedade, cada um de nós possui seus padrões, construídos em sua historicidade, e o diferente, a novidade capaz de provocar a desordem, estará em relação direta com tais padrões.

Estudos como os de Lehrer demonstram, de um lado, o quanto nossas movimentações existenciais encontram consonância com as recentes pesquisas em neurociência, e de outro, o quanto a neurociência não pode se pautar apenas num olhar reducionista. Mais do que isso, mostram o quanto as diferentes áreas do saber necessitam estabelecer o diálogo para que possamos nos aproximar um pouco mais do saber sobre a existência humana, e aplicá-lo à experiência do viver.

Referências Bibliográficas

AIUB, M. Como ler a filosofia clínica: Prática da autonomia do pensamento. São Paulo: Paulus, 2010.
LEHRER, H. Proust foi um neurocientista: Como a arte antecipa a ciência. Rio de Janeiro: Best Seller, 2010.




Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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