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Diálogo consigo mesmo pode levar a erros de interpretação

Monica Aiub 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
Estado ruidoso tornou-se um padrão de vida

por Monica Aiub

No artigo anterior (clique aqui), abordei parte do verbete solidão, proposto por Abbagnano em seu Dicionário de Filosofia, na acepção isolamento. Recebi muitas mensagens dos leitores, belíssimos textos, novas provocações e várias sugestões de outras abordagens à questão. Agradeço as contribuições desse frutífero diálogo tratando de alguns pontos sugeridos pelos leitores. Os demais serão abordados, paulatinamente, em outros artigos subsequentes.

A afirmação que aponta a solidão do sábio como autonomia de pensamento pode ser lida de diferentes maneiras. O que significa “estar solitário”? Pode significar não pensar como a maioria, não ser levado pela correnteza e trilhar diferentes caminhos possíveis; ou não ter medo de pensar, sentir, dizer e viver respeitando seus princípios – ainda que alguns desses princípios não sejam valorizados por uma maioria; não temer ser uma voz dissonante no todo social.

O sábio e a solidão

Quando Abbagnano aponta a solidão como característica do sábio, seu significado pode se referir a “pensar por si mesmo”, a assumir a responsabilidade por seus pensamentos, posicionamentos e atitudes. Não se trata do “sábio” como o detentor de um saber, e por isso isolado do mundo, dos outros, fechado em si mesmo. Também não se trata de alguém que vive só, que se relaciona apenas consigo mesmo, mas de uma situação de desamparo, de abandono, diante da responsabilidade dos próprios posicionamentos e ações. Não é a figura do sábio que “tudo sabe, tudo vê”. Trata-se de um sábio em constante busca, questionando, inclusive, seus próprios pensamentos.

Ele é só porque não tem companhia que lhe impulsione à investigação, é uma tarefa que lhe cabe, e ao assumi-la, torna-se o que é: sábio. Sábio porque, consciente de sua ignorância, questiona seus próprios padrões de pensamento e não se permite enganar a si mesmo, não se deixa cair e ser levado pela correnteza do “rio do esquecimento”. Mas somos capazes de autoconsciência constantemente? Sozinhos, conseguimos atingir um grau de sabedoria que nos liberte do autoengano?

Nesse sentido, você se considera só? Vivencia essa sabedoria do “pensar por si mesmo”, “ser aquilo que é”? Você assume a tarefa de questionar os próprios pensamentos, sentimentos e atitudes ou sequer os observa? Você assume a tarefa do pensar por si mesmo ou fica na dependência das provocações alheias? Diante das provocações de outros, você se dispõe a pensar ou se fecha, retruca, briga e defende uma postura não pensada, não fundamentada e não avaliada através de outro olhar que não o seu?

John Cage: ouvido e silêncio absolutos

O termo solidão também pode significar um aquietar-se, um silenciar para ouvir sua própria voz. John Cage (1912-1992), compositor americano, buscando “ouvir” o silêncio absoluto, procurou uma sala com isolamento acústico total. Reveladora foi a descoberta do ruído do sistema nervoso e da circulação sanguínea, que não lhe permitiram “ouvir” o silêncio absoluto. Dessa experiência, Cage concluiu que o silêncio é um estado de espírito, uma forma de expressão, e sua música, a partir disso, passa a explorar todas as formas de ruído. A obra Quatro Minutos e Trinta e Três Segundos, também conhecida como Silence, consiste em quatro minutos e trinta e três segundos em que o músico se posiciona diante da platéia em “silêncio”, sem tocar uma única nota. O elemento fundamental da constituição de 4’33” são os ruídos, inquietações e espanto da platéia.

A experiência de Cage revela que não há um silêncio absoluto, que ouvir o silêncio, acusticamente, não é possível, pois uma sala totalmente à prova de som, ainda possui os ruídos da vida. Assim também o “ouvir os próprios pensamentos” não possui o caráter de solidão absoluta, de total distinção entre os próprios pensamentos e aqueles originados de nossas trocas com os outros. Desta forma, a “solidão”, na acepção “ouvir os próprios pensamentos”, não corresponde a um isolamento absoluto, pois isso seria tão impossível quanto o silêncio absoluto. Corresponde a um “estado de espírito” no qual é possível observar as próprias inquietações, o espanto, os ruídos externos e internos e seus impactos.

Estado ruidoso tornou-se um padrão de vida

A estrutura da sociedade contemporânea dificulta o exercício desse “estado de espírito”. Somos chamados o tempo inteiro a “ouvir” e a “dizer”, somos levados a “estados ruidosos” como padrão de vida. Nesse padrão, a primeira atitude ao chegar em casa é ligar a TV, o som, telefonar para alguém, acessar a internet, conectar-se ao mundo para não ficar só. É ocupar-se para não se ocupar dos próprios pensamentos. Será isso um hábito, uma necessidade, uma forma de fugir de si mesmo, ou uma estrutura que nos distancia de nós?

Pequenas demonstrações de necessidade de silêncio são interpretadas como “anormalidades”: “Como você não assiste TV?”; “Você se fecha, não fala com ninguém, deve estar deprimido, doente!”; “O que há de errado com você? Só fica quieto pelos cantos, parece que nasceu deprimido!”. Não me refiro, obviamente, a situações extremas, mas à necessidade de, certas vezes, ficarmos sós. Nada há de anormal ou doentio nisso. Simplesmente, alguns de nós necessitamos de momentos de tranquilidade, sejam eles para nos esvaziar de alguns pensamentos ou para nos propiciar momentos de silêncio onde consigamos ouvir nossa própria voz.

Uma leitora relatou, juntamente com o prazer que a solidão lhe proporciona, um diálogo que estabelece consigo mesma nos momentos de solidão. Como se fosse uma personagem com a qual conversa. É possível um diálogo consigo mesma? O quanto isso é, de fato, diálogo? – pergunta ela.

Diálogo, do grego não se refere a uma conversação interna do filósofo com ele mesmo. Supõe duas razões, dois discursos em conversação. Quando dialogamos conosco, nos questionamos solitariamente acerca de nossos pensamentos, posicionamentos, ações. Mas o fazemos a partir de um lugar existencial, de nosso lugar no mundo. Esse lugar define o que nos é possível ou não vislumbrar. Isso nos impede de enxergar alguns pontos, de observar alguns caminhos disponíveis a nosso pensamento. Impossibilita-nos, outras vezes, de verificar nossos erros de raciocínio.

Ainda que assumíssemos plenamente o papel de um outro eu, com o qual estabelecemos essa conversação, ainda assim teríamos dificuldades em olhar nosso próprio olhar. Seria preciso um olho externo, que tudo vê, para abranger todas as perspectivas. Um olho que, como nos alertou Nietzsche, é pura ficção.

Introspecção

John Searle, no livro Mente, Linguagem e Sociedade, aponta alguns possíveis erros que podemos cometer sobre nossos próprios estados mentais, entre eles a incorrigibilidade. Pensamos conhecer nossos estados conscientes através de uma “faculdade especial – um tipo de visão mental interna – chamada ‘introspecção’”. Ocorre como se tivéssemos um olho interior capaz de observar nossos próprios estados conscientes. Para explicar o motivo de tal concepção ser equivocada, ele aponta o fato dela ser fundamentada no modelo da visão e descreve a dificuldade desse modelo:

“Se eu vejo essa cadeira, então, no ato da percepção, há uma distinção entre a cadeira e a experiência de percepção que me faz perceber a cadeira. Mas não podemos fazer essa distinção para as próprias experiências. Por exemplo, se percebo minha dor, não sou capaz de distinguir entre a dor e a percepção da dor. Em outras palavras, não sou capaz de fazer a distinção que faria funcionar o modelo da visão, a distinção entre a experiência de percepção e o objeto percebido”.

Como perceber os erros de raciocínio em seu processo de pensamento se você faz uso desse mesmo processo para avaliar seus raciocínios? Como distinguir entre o pensamento que observa o pensamento e o pensamento observado? Como distinguir entre a percepção de um sentimento e o próprio sentimento? Daí a introspecção não funcionar e o diálogo consigo mesmo correr o risco da “incorrigibilidade”, ou seja, errarmos e criarmos um diálogo com réplicas e contribuições equivocadas, que apenas reforçam o mesmo erro.

Diálogo consigo mesmo: probabilidade de autoengano

Além desse erro, Searle aponta outros, que também poderíamos destacar como problemas de se considerar diálogo a conversação consigo mesmo. O autoengano: “Simplesmente enganamos a nós mesmos a respeito de nossos próprios estados mentais porque é doloroso demais enfrentar nossos ciúmes, hostilidades, fraquezas e assim por diante. Recusamo-nos admitir, inclusive para nós mesmos, nossos sentimentos e atitudes mais vergonhosos”.

Você já se percebeu enganando a si mesmo? Como foi essa percepção? Já descrevi, em outros artigos, partilhantes (pacientes) que relatam no consultório: “Isso eu não conto nem para mim mesmo”; outros que, durante o relato de sua historicidade, começam a observar sua própria fala, a perceber suas dificuldades, fraquezas, hostilidades e a repensar seus posicionamentos, seus pensamentos, suas atitudes. Não é um processo fácil olhar para si mesmo e descobrir-se agressivo, mesquinho, hostil, frágil, colérico... e uma lista enorme de estados que poderíamos descrever aqui. Assim, num diálogo consigo mesmo, há uma grande probabilidade de autoengano, o que, consequentemente, poderia nos levar a escolhas ou comportamentos totalmente equivocados.

Outra forma de erro, apontada por Searle, é derivada da má interpretação: “Em algum momento de grande emoção, você pode pensar sinceramente que está apaixonado, porém mais tarde percebe que interpretou mal seus sentimentos e que a emoção era apenas um envolvimento passageiro”.

Quantas vezes você já interpretou equivocadamente seus sentimentos, seus pensamentos, suas intenções, seus desejos, e outros estados subjetivos? Quantas vezes você se envolveu com pessoas por erros de interpretação? Quantas outras vezes você se colocou em situações extremamente difíceis porque interpretou mal seus próprios desejos?

A causa de erro sobre nossos próprios estados mentais, apontada por Searle como a mais comum, e relacionada à questão da interpretação equivocada, diz respeito à confusão conceitual entre comportamentos e descrições. Muitas vezes afirmamos ter a intenção de fazer algo, mas nosso comportamento não corresponde a essa intenção.

“Muitos conceitos mentais importantes, como planejar, decidir ou executar ações, abrangem na verdade ambas as categorias, estados conscientes e comportamentos subsequentes. Pensamos, por exemplo, que estamos realmente decididos a parar de fumar, perder peso, trabalhar mais ou escrever um livro, mas nosso comportamento subsequente mostra que estávamos errados”.

Já ocorreu isso com você? Ter a intenção de fazer algo, mas não fazê-lo? Decidir algo, mas não levar adiante sua decisão? É comum sermos acusados por não cumprirmos nossas promessas, ou nos sentirmos impotentes quando avaliamos nossas intenções anteriores diante de nossas ações subsequentes. Num diálogo consigo mesmo, você conseguiria avaliar corretamente suas intenções, a ponto de ter garantias suficientes de um comportamento subsequente?

Ainda na lista dos erros, a desatenção:

“Simplesmente não prestamos atenção suficiente às maneiras como nossa consciência está se comportando. Pensamos, por exemplo, que estamos firmemente comprometidos com determinado posicionamento político mas, à medida que os anos passam, descobrimos que, sem ao menos perceber, nossas preferências políticas mudaram”.

É interessante observar que, muitas vezes, não atualizamos para nós mesmos os movimentos do nosso próprio pensar. Criamos uma imagem mental de nós mesmos e tendemos a fixá-la, como uma fotografia. Contudo, a vida é movimento, o pensamento se modifica, as ideias são construídas, desconstruídas, articuladas, sobrepostas e... surgem novas formas de pensar e de existir. Estamos atentos a elas?

Devido a esses pontos levantados por Searle, e alguns outros, o diálogo solitário não cumpre a função de diálogo em seu sentido originário. Dois discursos, dois seres pensantes em conversação. Às vezes, para enxergar a própria estrutura do pensar é preciso sair dela, e isso não nos é possível, exceto no encontro com o outro, exceto no momento em que permitimos “esvaziar a nossa taça” para que ela possa encher-se novamente, ou seja, nos permitimos ser olhados por outros olhos, observar nossa estrutura mental, nossos estados subjetivos, a partir de outras perspectivas.




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Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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