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Temos motivos para acreditar em nossas crenças?

Monica Aiub 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
Deveríamos questionar nossas crenças diariamente

por Monica Aiub

1. Existe uma possibilidade significativa de que o interior da sua mente seja a única coisa que existe? Ou, mesmo que exista um mundo fora da sua mente, que ele seja completamente diferente daquilo em que você acredita?

2. Se essas coisas são possíveis, há alguma maneira de provar para você mesmo que elas não são, de fato, verdadeiras?

3. Se você não pode provar que existe alguma coisa fora da sua mente, é certo continuar acreditando no mundo externo, mesmo assim?
(THOMAS NAGEL, Uma breve introdução à Filosofia)

Thomas Nagel encerra o capítulo denominado Como sabemos alguma coisa?, constante no livro Uma breve introdução à Filosofia, com as questões aqui colocadas. Partindo da afirmação “o interior da sua mente é a única coisa da qual pode ter certeza”, Nagel mostra como nossos conhecimentos mais corriqueiros são fundamentados em crenças sobre as quais não apenas não questionamos, mas sequer nos damos conta de sua existência. Em outras palavras, todo nosso conhecimento é fundado em crenças e, na maior parte das vezes, não percebemos isso e consideramos tais crenças como se fossem evidências.

Não duvidamos das coisas ao nosso redor, não questionamos a forma como pensamos, como conhecemos. Não questionamos nosso acesso a tais evidências. Seriam elas apenas frutos de nossa mente? De que derivariam tais frutos?

A definição tradicional de conhecimento, já apresentada por Platão no diálogo Teeteto, é “crença, verdadeira e justificada”. Se todo conhecimento é, inicialmente, uma crença, o que distingue crenças e conhecimento? Pela definição, para ser conhecimento a crença necessita ser verdadeira e justificada.

Moser, Mulder e Trout em A Teoria do Conhecimento: uma introdução temática, discutem as várias teorias da verdade, assim como as formas de justificação. Tal como Nagel, concluem que não temos como provar que existe algo além do interior de nossa mente.

Contudo, não duvidamos das coisas ao nosso redor, nem da existência de nosso próprio corpo ou da existência do que nos é familiar.

Se não temos provas acerca do mundo fora de nós, por que continuamos a acreditar em sua existência?

A teoria da verdade por correspondência aponta como critério para o discernimento da verdade a verificação no mundo. Mas como ter garantias de que verifico de fato? Poderia eu enxergar um mundo que é o meu próprio olhar? As experiências em neurociência, que tratam da visão, mostram que a imagem é capturada por nossos olhos, enviada para nosso cérebro, e o que vemos é, de fato, um produto do nosso cérebro. Poderia nosso cérebro produzir imagens inexistentes na realidade?

Os estudos em hermenêutica, em especial de Gadamer, em Verdade e Método, apontam para a dificuldade em suspendermos plenamente nossos juízos a fim de compreendermos completamente o que se mostra. Sempre olhamos a partir de nossa história, de um olhar pré-determinado. A solução da hermenêutica para nos aproximarmos do que se mostra é conhecermos, termos consciência de nosso próprio olhar, a fim de distinguirmos, no momento do conhecimento, entre o que é nosso e o que se mostra. Contudo, não há como conhecer-se plenamente. Há dados que nos escapam, há crenças que nem imaginamos ter, e que orientam o nosso olhar no momento do conhecimento.

O critério de verdade por coerência é uma opção para definir a verdade. A verdade compatível com esse critério é uma verdade lógica. Ou seja, algo é verdadeiro se for coerente com um sistema de ideias vigente. Ora, e se o sistema de idéias vigente for falso? Então a idéia coerente com ele também o será.

Como avaliar a coerência de um sistema de idéias senão por outro sistema de idéias? E quem garantirá que este último é verdadeiro?

Assim, não há como propor como critério a coerência sem correspondência ou a correspondência sem coerência. Mas o que servirá de critério então?

O pragmatismo sugere o critério de verdade pragmático, que consiste em considerar verdadeiro o que encontra utilidade cognitiva, ou seja, a idéia possui validação quando colocada em prática. Dado que tal validação varia de pessoa para pessoa, de cultura para cultura, o critério de verdade pragmático é relativista, identificando os critérios com as condições de verdade.

Os critérios de identificação da verdade dependem, intimamente, da justificação que se apresenta para que possamos aceitar algo como verdade. Todavia, é possível apresentar justificativas num sistema totalmente coerente, mas falso.

Com esse percurso percebemos que, por mais que consideremos ter conhecimento sobre algo, devemos nos questionar sobre a possibilidade do conhecimento que consideramos ter ser uma crença falsa ou não justificada.

Mas se não temos como comprovar a verdade de nossas crenças, por que continuamos acreditando? Nossas crenças nos servem como mapas conceituais. Situamos-nos no mundo, pensamos, agimos, existimos a partir delas. Podemos nos preocupar, como o faz Simon Blackburn em Verdade: um guia para os perplexos, com as mentes alheias: “As crenças e fés que levam as pessoas a agir como agem são obscuras para os outros; ao lermos ou assistirmos aos noticiários, loucura somada à desconfiança mútua e desprezo parecem estar na ordem do dia”.

Devemos nos preocupar com nossas próprias crenças e seus fundamentos. Questioná-las diariamente. Ainda que seja para confirmá-las, é um excelente exercício para manter a salutar reflexão, para não sucumbir à loucura e à desconfiança típicas de nosso tempo. A avaliação das idéias, ainda que não nos apresente uma Verdade, nos aproxima de um caminho para a construção de um conhecimento com bases firmes, e nos permite flexibilidade suficiente para seguir com a proposta de Blackburn: “Se as idéias forem inadequadas ou perigosas, então precisamos de um sistema imunológico que nos proteja delas, e a única imunidade poderia ser conferida por melhores idéias”.

A constante reflexão, o incessante questionamento sobre os caminhos percorridos, as escolhas efetivadas, o modo de ser construído, o sentido da existência e tantas outras questões, nos permite a imunidade desejada e “conferida por melhores idéias”.

Você avalia suas próprias crenças? Pensa sobre elas? E sobre as crenças alheias? Você as considera? Pensa sobre elas? Como essas crenças interferem em seu modo de ser ou naquilo que você faz? Como elas interferem em suas escolhas? Elas são adequadas à intensidade de sua interferência? Que critérios você utiliza para avaliar essa adequação?

Referências Bibliográficas:

BLACKBURN, Simon. Verdade: um guia para os perplexos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
MOSER, P.; MULDER, D.; TROUT, J. A teoria do conhecimento: uma introdução temática. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
NAGEL, T. Uma breve introdução à filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
PLATÃO. Diálogos: Teeteto e Crátilo. Belém: UFPA, 1988.




Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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