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Há lugar para o amor na sociedade contemporânea?

Monica Aiub 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Reflita sobre as relações amorosas que você estabelece

por Monica Aiub

No texto “Entre os vários eus: o amor” (clique aqui), apresentei a ideia de Humberto Maturana acerca de nossa natureza biológica de amor. Segundo a concepção apresentada, não somos seres ambiciosos e competitivos por natureza, mas seres de amor. Foi o amor que permitiu o surgimento do humano no processo evolutivo. Mas qual a concepção de amor por ele utilizada?

Os seres vivos, segundo ele, interagem uns com os outros, provocando mudanças estruturais a partir de suas interações, ou seja, ao interagirmos uns com os outros, constituímos uns aos outros, e uns junto com os outros. Essas interações ocorrem sem planejamento intencional, se dão espontaneamente, sem justificativas, apenas por prazer.

O amor é fonte de socialização

Como fenômeno biológico que não requer justificação, o amor acontece ou não acontece, permanece enquanto permanece. Assim, conforme sua presença ou ausência, há ou não socialização. Com isso, Maturana afirma que o amor é fonte de socialização.

“Do ponto de vista biológico, o amor é a disposição corporal sob a qual uma pessoa realiza as ações que constituem o outro como legítimo outro em coexistência. Quando não nos comportamos dessa maneira em nossas interações com o outro, não há fenômeno social. O amor é a emoção que fundamenta o social. Cada vez que se destrói o amor, desaparece o fenômeno social. Pois bem: o amor é algo muito comum, muito simples, mas fundamental” (Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller)

A concepção de amor proposta por Maturana é muito simples, trata-se de uma disposição corporal, natural e fundamental ao ser humano. É o que nos permite viver como seres sociais, é o que nos permite aceitar o outro sem exigências ou justificativas, é o que abre espaço à cooperação.

Por um lado, tal definição retira do amor a característica especial, inexplicável, mítica, essencial, abordando-o como fenômeno biológico. Por outro lado, impede que a competição seja tida como uma atividade humana legítima, pois a competição nega o outro e reduz a criatividade, nega o amor.

Nossa cultura enfatiza a competição, a ambição, instrumentalizando nossos atos e relações. Nos provoca a um distanciamento do presente, com a atenção sempre focada no futuro, em busca de sucesso. Tal postura é vista como a natural, como aquela que permite a sobrevivência de nossa espécie. Maturana tenta desconstruir essa ideia, mostrando que a ambição e a competição são fenômenos culturais, e que a leitura que os prioriza em prol da sobrevivência da espécie o faz a posteriori, ou seja, a partir de interpretações dos resultados últimos do processo evolutivo.

O amor sim, é natural e, portanto, sempre à primeira vista. A hipocrisia, por sua vez, é uma demonstração de amor e respeito ao outro, seguida de ações que a colocam em dúvida. Se amo, se aceito o outro como inteiramente outro, minha ação, minha postura diante dele revela isso e permite a socialização. Se finjo, minha postura, em algum momento, impedirá a socialização. Nessa acepção, o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença.

Ao exemplificar o amor, Maturana faz uso de exemplos comuns, desde a coexistência de dois homens que viajam num trem, um ao lado do outro, respeitando a legitimidade do outro, até a dimensão de um casal que se ama e constrói uma vida em comum. Ainda cita as peculiaridades do amor a um animalzinho de estimação. Amor é sinônimo de co-existência respeitosa.

O grau de violência, de abuso, de opressão encontrados em nossa sociedade nos leva a questionar a possibilidade de vivermos algo parecido com o que nos provoca Maturana, nos torna cada dia mais anestesiados, indiferentes, distantes do amor e da possibilidade de socialização. Vemos o outro como um inimigo, o negamos para afirmar a nós mesmos, competindo por nossa destruição sem, ao menos, avaliar a possibilidade. O outro nos aterroriza e é, por nós, aterrorizado. Confiamos nesse outro? Em que medida? Se não confiamos, não o aceitamos como inteiramente outro e, portanto, não o amamos.

Se amamos, não competimos, compreendemos, aceitamos sua forma de ser, respeitamos sua legitimidade de ser o que é e como é, co-existimos nos construindo mutuamente, permitindo que o outro nos provoque movimentos e, simultaneamente, levando-o a movimentar-se, construímos modos de vida pautados na cooperação. Não precisamos de motivos, de justificativas para amar, simplesmente amamos, porque nossa natureza assim é.

Idealização do amor

É comum encontrarmos, hoje, pessoas que se envergonham diante de emoções como esta. Sentem-se ingênuos, ou denunciam a ingenuidade alheia. Também é comum encontrar aqueles que dizem amar seus companheiros, seus filhos, seus amigos, mas não os aceitam como são. Amam a si mesmos e àquilo que desejam que o outro seja ou se torne. Não amam, oprimem, e o fazem considerando fazê-lo para o bem do outro, para permitir a ele seu desenvolvimento, seu sucesso e sobrevivência futuros.

Declarar amor e agir com indiferença é extremamente comum, e justificável em nossa sociedade, na medida em que nossas formas de vida, por vezes, condenam a expressão de emoções, exigindo seu controle para uma boa aceitação social. Mecanismos sociais, medicamentos, formas de controle são desenvolvidos, tendo como fim aplacar as emoções e valorizar a razão: Amo? Quais as justificativas, os motivos que tenho para amar? O que esse amor traz de bom, de benefícios, de vantagens para mim? Amo porque venci uma competição pela conquista de um amor? Ou desdenho o amor porque só desejo aquilo que não tenho? Mantenho uma relação hipócrita, na qual suporto o outro por já tê-lo conquistado, e então finjo amá-lo para, em seguida, desprezá-lo?

Ouvi essas e muitas outras questões da mesma natureza no consultório de filosofia clínica. Para a filosofia clínica, não se trata de adotar uma ou outra concepção de amor e defendê-la, mas compreender as concepções construídas pela pessoa, suas formas de significação, os pesos que tais emoções trazem para a constituição de seus modos de vida. Podemos questionar tais formas diante de seus contextos, podemos provocar a pessoa a repensar os significados atribuídos às situações.

Distante de uma apologia do amor, apesar de considerá-lo fundamental, meu objetivo com esse texto é provocar você, leitor, a refletir acerca das relações amorosas que estabelece e, a partir de nossa co-existência virtual, constituir uma relação capaz de provocar movimentação existencial, colocando-o na direção de “ser aquilo que se é”.

Referências Bibliográficas:

MATURANA, H. Ontologia da Realidade. Belo Horizonte: UFMG, 2002.
MATURANA; H. VERDEN-ZÖLLER, G. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. São Paulo: Palas Athena, 2004.

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Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br

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