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É assim pra mim!: mazelas de um relativismo deturpado

Monica Aiub 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
Dizer "é assim pra mim", é um relativismo deturpado

por Monica Aiub

Certamente, você já se deparou com um interlocutor que encerra a discussão com a violenta afirmação: "É assim pra mim!", fechando a possibilidade de qualquer diálogo. Interessantemente, muitos de tais interlocutores defendem sua postura "democrática", afirmando que "é assim para ele", e se não "é assim para você", ele respeita. Em nome do respeito e da democracia, esse interlocutor encerra violenta e autoritariamente a conversa, sem que os argumentos existentes para a aceitação ou recusa de uma determinada ideia ou proposta venham a ser expostos e examinados.

Alguns filósofos clínicos têm defendido esta forma como a "verdadeira filosofia", professando um relativismo deturpado e abandonando a postura filosófica de suspensão de juízos e investigação. Parece que tal incompreensão do que venha a ser filosofia é derivada de uma leitura equivocada e descontextualizada de trechos de citações de alguns filósofos.

Alerto o leitor que esta deturpação do conceito de filosofia pode trazer sérias consequências, verdadeiras mazelas, não apenas para a existência cotidiana - o que já seria de grandissíssimo impacto e poderia trazer muitos prejuízos à pessoa - mas para a própria construção da vida em sociedade, o que em alguns contextos pode ser criminoso.

Imaginemo-nos, por exemplo, assumindo a postura do relativismo deturpado "É assim pra mim!" em todos os contextos de nosso existir. Nas situações em que nos enganamos - e nos enganamos muitas vezes, pois o erro é sempre possível em nossos processos de conhecimento - ao aceitarmos a ideia de que "É assim para mim", deixaríamos de pesquisar, investigar os conteúdos e fatos que justificariam nossas escolhas. Nossas escolhas e ações, então, seriam repetições irrefletidas e não fundamentadas que perpetuariam um erro. Tendo ou não consciência de nossos erros, as consequências de nossas ações existem de fato, e influenciam não somente em nossas vidas, mas vidas de muitas outras pessoas que convivem conosco ou, simplesmente, são atingidas pelas consequências de nossas ações.

Em se tratando de escolhas ou ações cujas consequências tragam um impacto social mais amplo, nossa recusa em pesquisar e refletir, em pensar junto com o outro, poderá trazer consequências nefastas para uma grande parcela da população.

A filosofia, desde suas origens, consiste em pesquisar os motivos que temos para aceitar ou não determinada ideia, para escolher este ou aquele caminho. Ela é, também, um pensar junto com o outro, um diálogo, no qual cada um expõe os motivos para pensar da forma como pensa, e todos examinam os diferentes modos de pensar e motivos expostos, a partir de critérios rigorosos, com base na lógica e nos dados da realidade.

O que é a realidade? Perguntam alguns filósofos. E embora de modo distinto, todos respondem ser algo que independe de minhas crenças, que independe de ser "assim pra mim", embora, muitas vezes, eu possa ler de uma maneira muito própria.

Como saber se a maneira como lemos é um erro ou aproxima-se mais daquilo que se apresenta a nós, dos dados que independem de nós? Não há outra forma senão a investigação. E para que nossa pesquisa não seja conduzida por nossas concepções prévias, por nossas paixões, os critérios de investigação se fazem necessários.

Os diferentes métodos filosóficos estabelecem critérios para a pesquisa, e tais critérios precisam ser claros e compartilhados. Eu posso pensar de modo diferente, mas devo ser capaz de demonstrar a outros o que me faz pensar desta maneira, de onde parti e como cheguei a minhas conclusões.

Quando nos deparamos com alguém que pensa muito diferente de nós e fazemos o exercício de apresentar ao outro o que nos faz pensar como pensamos, este exercício nos provoca a revisitar nossos processos de pensamento e, consequentemente, poderá gerar uma avaliação.

Você já se viu numa situação em que, na tentativa de explicar ao outro os motivos pelos quais chegou a uma conclusão, identificou um erro em seu próprio raciocínio? A correção do erro levou a uma mudança de posição? E se não tivesse corrigido tal erro, quais poderiam ter sido as consequências de suas ações?

O mesmo pode se dar quando o outro explica a nós os motivos pelos quais pensa como pensa. Ao acompanharmos seus motivos, é possível observarmos dados que não possuíamos acerca de uma situação. Tais dados poderão modificar nosso posicionamento.

Postura muito limitada

Desta forma, afirmar "é assim pra mim", e com isso recusar-se a pensar em outras possibilidades, pode ser uma postura muito limitada, geradora de erros, preconceitos e prejuízos não somente para quem assume esta postura, mas para muitos outros.

Voltando à tarefa do filósofo clínico, quando afirmamos o respeito à singularidade, à representação, não nos referimos à aceitação cega e irrefletida de "verdades" que "são assim para o partilhante (paciente)". Referimo-nos a uma postura filosófica de investigação junto com o outro. A pessoa que procura um filósofo clínico não encontrará alguém para simplesmente concordar com seus pensamentos e ações. Encontrará alguém para dialogar, alguém que utilizará métodos e critérios filosóficos, construídos no decorrer da história da humanidade, para investigar a pertinência ou não de suas ideias, para provocar a pensar nas consequências dos desdobramentos de suas ações, alguém para partilhar a pesquisa sobre novos e possíveis caminhos para o existir. Neste processo, é comum encontrarmos dados que não possuíamos, vermos perspectivas pelas quais não estávamos observando, ratificarmos ou retificarmos nossos pensamentos e ações.

Recusar-se a pensar afirmando "é assim pra mim" é um relativismo deturpado porque o próprio relativismo diz respeito a um posicionamento relativo a um contexto, e não à ausência do pensar, a recusa ao diálogo.

Infelizmente, esta postura equivocada tem se tornado padrão em muitos contextos de nossa sociedade, levando, cada vez mais, a um individualismo exacerbado e à impossibilidade do pensar. Entre suas consequências, as posturas inflexíveis e irrefletidas, a perpetuação dos erros, a discriminação, a violência contra o diferente são apenas algumas de suas mazelas.

Podemos evitá-las com um exercício que nos é próprio: o diálogo, a abertura para pensar junto com o outro.




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Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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