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Por que fazer o bem faz bem?

Patricia Gebrim 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Faça o que sempre fez, mas com outra qualidade e com mais respeito

por Patricia Gebrim

Quando comecei a escrever este artigo comecei a rir sozinha... me lembrei de um e-mail de um irado leitor que certa vez me escreveu dizendo que eu parecia uma “catequizadora” e precisava “cair na real”!!! ...rs ... ah ... é mesmo impossível agradar a todos! Este artigo com certeza o desagradará novamente . Mas estou certa de que não faltarão aos desejosos muitas pessoas que escrevem a partir de opiniões diversas das minhas, cada uma se expressando de acordo com a própria essência, com as próprias crenças.

Ao meu ver a diversidade é saudável. Existem os leitores românticos, os ácidos, os céticos, os crentes, os realistas, os sonhadores... assim sendo, existe espaço para todo tipo de escritor... isso me consolou um pouco.

Quanto a mim, resta apenas ser quem sou, e quem sou é essa pessoa que ainda acredita que “fazer o bem faz bem” ... fazer o quê?

Eu me considero uma pessoa privilegiada. Como sabem, sou psicóloga. Meu trabalho consiste basicamente em estar com pessoas, ouvir suas angústias, suas alegrias, seus medos ... e em tentar ajudá-las a reencontrarem em si próprias aquele lugar silencioso onde moram as respostas e a paz que tanto procuram para suas vidas.

Algumas vezes já me perguntaram se eu não ficava “mal” por “ouvir problemas” o dia todo (estou usando as palavras exatamente como foram ditas). E foi então que eu reforcei a minha teoria que virou título deste artigo.

- Não, eu não fico mal!

Isso foi uma das coisas importantes que aprendi com meu trabalho: quando uma pessoa tira de si própria o foco, quando não pensa apenas nos próprios problemas, nas próprias questões e se volta para o outro com o intuito de fazer algum bem, por incrível que pareça, isso lhe faz bem também.

Por que isso acontece?

A meu ver podemos encontrar mais de uma explicação (neste mundo tudo vem em “parzinhos de opostos”, nada é só mau ou só bom!).

Podemos pensar em uma explicação menor, bem egoísta... que seria mais ou menos assim:

- Ah, você fica bem ao ajudar o outro porque se sente “bonzinho”, valorizado... o que quer dizer que na verdade queria mesmo é fazer bem para si mesmo, e não para o outro!... Bingo! (Sabe que isso pode muito bem ser uma verdade, e às vezes de fato é?)

Mas ... vamos procurar o outro lado? ... Também pode ser que “fazer bem” nos faça bem porque ao, nos voltar para o outro, estamos ultrapassando essa imensa separatividade que cria uma linha de desamor e medo entre as pessoas. Pense! Somos partes de um todo. Se é verdade que a vida é indivisível, um “todo”, que funciona como uma vasta e milagrosa rede de relações, não há sentido algum em querermos o nosso bem às custas do bem do outro. Seria como se jogássemos o nosso lixo doméstico nos reservatórios da água que nós mesmos bebemos! (que pena, ainda fazemos isso)

Não há como ficarmos “bem” quando olhamos ao redor e existe tanto sofrimento. Por mais muros e blindagens que criemos, é impossível, a não ser que nos tornemos insanos! É claro que podemos fazer o nosso melhor, encontrar um ponto dentro de nós que nos permita certa paz e seguir adiante mesmo em meio a tantos desafios ... mas não podemos ignorar o que nos circunda.

Para colorir um pouco este artigo cito uma singela passagem de um delicioso livro do Fernando Sabino que leio no momento. O livro chama-se  “O menino no espelho” .  Este trechinho fala de um menino que encontra um homem “que sabe das coisas”... aí vai um pedacinho do diálogo entre os dois:

“ - Você quer conhecer o segredo de ser um menino feliz para o resto de sua vida?

- Quero _ respondi.

O segredo se resumia em três palavras, que ele pronunciou com intensidade, mãos nos meus ombros e olhos nos meus olhos:

- "Pense nos outros”


Achei fantástico!

“Pense nos outros“ ... Deixem-me, no entanto, tornar claro o que quero dizer com “fazer o bem”.

A primeira coisa que pode nos ocorrer é que para que façamos o bem precisamos ter alguma atitude humanitária. Claro! Afiliar-se a uma ONG, entrar em um grupo de voluntariado, engajar-se em trabalhos sociais ... É claro que esses são caminhos bacanas aos que se sentirem sintonizados com eles, afinal existe muito trabalho a ser feito!

Mas não é disso que estou falando

No meu entender, de pouco adianta passar o dia inteiro trabalhando para ajudar as crianças carentes se chegamos em casa cansados e mal damos atenção a nossos filhos. De pouco adianta ter lindos objetivos humanitários se distribuímos farpas e mau humor por onde passamos.

“Fazer o bem”, a meu ver, é algo que pode começar sem que você precise mudar nada em sua rotina.

Experimente! Faça o que sempre fez, mas com outra qualidade. Com mais respeito, com mais atenção, mais olho no olho... mais gentileza. Tire o foco de você mesmo, dessa crença de que a coisa mais importante do mundo é a “sua” felicidade.

Comece a prestar mais atenção nas pessoas e, aos poucos - você verá - algo mágico começará a acontecer. Aos poucos o mundo se tornará mais gentil ao seu redor. E o mundo se tornará mais cuidadoso ao seu redor. E surgirão olhos que olharão também em sua direção...

Aah... eu queria saber explicar tudo isso tão melhor mas... vejam... sou imperfeita... resta a minha esperança de que você capte por trás de minhas palavras o seu verdadeiro significado.

Um último aviso (são tantas as armadilhas ...).

“Fazer o bem” inclui fazer o bem a si mesmo!!!

Não adianta nada querer “fazer o bem” ao outro às custas de abandonar a si próprio. Para muitas pessoas o melhor “bem” que podem fazer é aprender a cuidar melhor de si mesmos, aprender a se respeitar mais, a ser mais gentil com seu próprio ser. Não podemos oferecer o que não temos, não é?

Espero que este artigo os inspire.

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Patricia Gebrim

É Psicóloga Clínica, atua numa abordagem transpessoal. Seu trabalho é direcionado a favorecer o autoconhecimento e a transformação das crenças limitadoras que nos mantêm aprisionados a padrões repetitivos de escolhas. É escritora, publicou 'Gente que mora dentro da gente' e o best-seller 'Palavra de Criança' pela editora Pensamento

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