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Laços sanguíneos são agentes de separatividade

Patricia Gebrim 01/01/2016 PSICOLOGIA
O amor deveria sempre guiar nossas relações

por Patricia Gebrim

Neste último feriado fui participar de um seminário. Ando fugindo dos programas agitados que acontecem nos lugares onde todos costumam ir nessas épocas. Tudo o que eu queria era paz, comida saudável, natureza, informações luminosas e pessoas interessantes.

Que maravilha quando encontramos tudo isso em um só lugar.

Conheci muitas pessoas bacanas, reencontrei outras. Entre elas um rapaz de conversa agradável e energia boa.

Conversamos, não muito longamente, uma troca simples, agradável. Só quando voltei para São Paulo, descobri que ele era o menino que frequentava minha casa quando éramos crianças (ele mais do que eu), primo de uma prima. Imediatamente senti uma onda de reconhecimento, fragmentos de memória me assolaram em instantes, e ficou a vontade de ter lhe dado um abraço ainda mais caloroso do que o que trocamos por lá.

Tudo isso me fez pensar muito nesse conceito: o que é família, afinal?

A meu ver existem muitas distorções nesse assunto, e até mesmo escrever sobre isso pode ser perigoso, eu sei. A família é considerada sagrada. E é. Mas o que é família, afinal?

Devemos honrar a família, ouço e concordo ... Mas que família?

O nosso conceito de família, socialmente transmitido, baseia-se nos laços sanguíneos. A meu ver, laços sanguíneos são agentes de separatividade. Separam "os que são da minha família dos que não são". São como as linhas que separam os países, foi o que pensei. Como se demarcassem um território dos que devem ser mais amados e dos outros, "estranhos", com os quais não precisamos nos importar tanto.

Separatividade sempre cria distorção e mutila o amor.

Assim sendo, vejo muitas pessoas permitindo verdadeiras injustiças, permitindo-se ser maltratadas e abusadas em nome dos tradicionais laços familiares. Aceitam o que nunca deveriam aceitar, afinal, dizem:

- Esse é "meu pai" ... "minha mãe" ... "meu filho".

E por aí vai.

Ouçam, não somos obrigados a aceitar sermos indignamente tratados por ninguém, só por que possuem o mesmo sangue que nós correndo em suas veias. Se uma pessoa estabelece conosco uma relação de desrespeito e abuso, seja ela quem for, temos todo o direito de nos afastar. Não se trata de criticar, julgar ou de atacá-la de volta. Mas quando o entendimento de fato é impossível e aquela relação só nos traz dor, podemos e devemos tomar a distância necessária para que mais mal não se dê. Talvez em algum momento, quando os níveis de consciência se tornarem mais elevados, possamos retomar essa relação em outro nível, com mais respeito, com mais amor. Mas não há por que sentir-se culpado, se o afastamento foi necessário para preservar a paz e evitar que mais dano fosse causado.

Por outro lado, vejo pessoas negando-se friamente a ajudar outros, justificando sua atitude com a alegação de que "não são de minha família." Ora, podemos ajudar uma pessoa, mesmo que ela não possua uma única gota de nosso sangue em suas veias, não podemos? Não temos que salvar ninguém, mas quando alguém nos estende a mão, não deveria nos importar se o sangue que corre em suas veias é o mesmo que o nosso.

O Amor não vem do sangue. O Amor não vem de nenhuma regra ou determinação social. Amor vem do cuidado, do respeito, da troca.

Como diz Guimarães Rosa, "Amor vem de amor". Simples assim.

O amor deveria sempre guiar nossas relações, seja a pessoa de nossa família de sangue ou não. Talvez tenhamos que nascer em uma família apenas para aprender a perdoar e a amar, para um dia sermos capazes de estender esse aprendizado a todos que cruzam o nosso caminho.

Quanto mais acreditamos na luz que habita nosso peito, mais o nosso conceito de família se expande, e mais atraímos em nossa direção pessoas que vibram em uma sintonia parecida. É assim que vamos expandindo o significado dessa palavra, e muitos se tornam nossa família. Passamos a reconhecer como família as pessoas que falam a língua de nossa alma e que possuem corações capazes de conversar com o nosso. Conforme vamos evoluindo em consciência vamos compreendendo que todas as pessoas são nossa família. E também os animais, as plantas e o próprio planeta. Estamos todos juntos nessa mesma jornada, ansiando por nos unirmos novamente.

O mundo fica menos áspero e muito mais acolhedor quando o sentimos dessa forma. Definitivamente torna-se menos solitário.

Neste final de semana, minha família cresceu. Foram tantos presentes. Encontros e reencontros surpreendentes. Se foram encontros de sangue ou de luz, não importa.

A verdade é que às vezes é simplesmente impossível deixar de enxergar a magia em tudo.

Quanta gratidão!




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Patricia Gebrim

É Psicóloga Clínica, atua numa abordagem transpessoal. Seu trabalho é direcionado a favorecer o autoconhecimento e a transformação das crenças limitadoras que nos mantêm aprisionados a padrões repetitivos de escolhas. É escritora, publicou 'Gente que mora dentro da gente' e o best-seller 'Palavra de Criança' pela editora Pensamento



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