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Meu relacionamento acabou. E agora?

Tatiana Ades 01/01/2016 PSICOLOGIA
Luto da separação deve ser vivido

por Tatiana Ades

Costumo usar a palavra luto no consultório pra trabalhar com pessoas que acabam de se separar.

Freud quando escreveu sobre o luto e a melancolia definiu muito bem o conceito, deixando claro que o luto é a dor da perda, seja por um ente querido ou por um processo de separação amorosa.

A dor sentida numa separação para algumas pessoas pode ser até maior do que a dor da perda pela morte. Para muitos isso pode parecer ilógico e irracional. Porém, só quem sente essa dor que não para de cessar, entende que há um luto a ser vivido.

Nesse processo de luto, em geral, a pessoa sente uma mistura de sentimentos: sensação de vazio, solidão, angústia, perda de apetite, insônia, podendo chegar a uma depressão severa. Há sentimentos contraditórios também, como a raiva pela pessoa que se foi, necessidade de vingança, ódio e ideia fixa de eliminar o outro de alguma forma. Mas geralmente esses sentimentos são invadidos novamente por saudade, desespero, necessidade de ver a pessoa, ouvir a voz, qualquer vestígio que possa aliviar esse processo tão doloroso.

É muito importante dizer que o luto pela separação deve ser vivido sim e não camuflado, pois inevitavelmente ele voltará, mesmo que seja muito tempo depois, pois é um processo de limpeza onde o organismo aos poucos vai se acostumando com a ideia da perda.

Mas a questão do tempo é essencial. Um luto que se estende por anos é sinal de anormalidade. Aí estamos nos referindo ao que Freud chamava de melancolia, uma dor que ultrapassa a dor saudável do luto. A melancolia seria uma depressão muito grave, podendo chegar ao suicídio ou ao pensamento de que sem o outro não haveria uma forma de se viver novamente: a sensação de “não estou me bastando”.

Nesse caso é imprescindível que a pessoa busque ajude terapêutica.

Mas você deve estar se perguntando, como saber qual o tempo exato do luto saudável?

Não há tempo exato, mesmo por que cada caso é um caso, mas em geral dura alguns meses. Mas há características que nos avisam quando estamos num processo saudável ou patológico.

No luto saudável

- verá que será capaz de falar sobre a pessoa separada com mais naturalidade;

- começará a sentir que a raiva se escassa e a necessidade de vingança ou suicídio se torna absurda;

- o sofrimento vai dando espaço para você reerguer sua autoestima e voltar a fazer coisas que gostava;

- perceberá que você sozinha (o) se basta e não mais enxergará o outro como parte sua necessária para viver.

No luto patológico

- você evitará falar da pessoa, ou quando o fizer, será sempre com raiva, angústia e dor emocional;

- perceberá que a sensação que deveria passar com o tempo, irá aumentar;

- você terá uma ideia fixa de ter a pessoa de volta e não haverá descanso para sua mente;

- sentirá uma depressão cada vez maior e falta de vontade de viver.

Por isso, fique atenta (o), o luto deve ser vivido, mas não ampliado. Ele não pode ser eterno, ele possui um começo, um meio e um fim. Se esse fim parece não acontecer, você está num processo doentio. Seu luto virou melancolia e há necessidade urgente de tratamento.

Lembre-se que o tempo deve ser o seu maior aliado num processo de cura, mas caso esse tempo pareça “atemporal”, o seu organismo não está reagindo como deveria.

Dicas para superar um processo de separação

- tente não afastar amigos e atividades que costumava fazer;

- pense em coisas que gostaria de ter feito e nunca fez;

- exercite-se, o exercício físico ajuda no processo de cura;

- leia livros, deixe a sua mente ativa;

- quando sentir vontade, chore, já sabendo que esse choro terá um tempo e um dia cessará.




Tatiana Ades

É psicanalista e escritora e teatróloga. Em seus livros, o foco de estudo é o comportamento humano e o amor patológico. Tem em seu currículo várias peças escritas e encenadas nos teatros de São Paulo, além de ter concorrido ao prêmio Shell de melhor texto teatral com Os Viúvos – Teatro Ruth Escobar (2003). Como escritora, em 1998, ganhou um concurso com o conto O silêncio da raposa. Eles são o resultado de uma pesquisa de três anos: Hades – Homens que amam demais e As escravas de Eros.



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