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Idoso possui melhor capacidade de avaliar nível de estresse

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Lidar com estresse envolve lidar com crenças sobre a própria capacidade

por Elisandra Vilella G. Sé

Assim como as demandas da vida mudam ao longo do tempo, ao longo da vida todos nós também apresentamos mudanças no nosso comportamento no diz respeito aos esforços ou estratégias de enfrentamento diante dos eventos estressantes que vivenciamos. A maneira como as pessoas enfrentam essas mudanças e seus efeitos sobre a personalidade diferenciam de acordo com as fases da vida.

A vida constitui um processo contínuo de mudança e adaptação a desafios que em maior ou menor grau podem ser avaliados como estressantes ou não. Na vida adulta e na velhice o estresse não é novidade, todas as pessoas podem experimentar situações ou eventos de vida estressantes ou aborrecimentos do dia-a-dia mesmo numa idade mais avançada.

O que diferencia são os tipos de eventos que uma pessoa tem mais possibilidade de se confrontar nessa fase da vida.

Dessa forma, devido a mudanças físicas, biológicas, psicológicas e sociais comuns a certa faixa etária, os idosos têm maior probabilidade de experimentar eventos de vida estressantes específicos diferentes daqueles enfrentados em outra fase da vida, bem como de “lançar mão” de recursos que o ajudem na avaliação, reflexão e adaptação a tais eventos.

Estudos na área de psicologia do envelhecimento e qualidade de vida na velhice mostram que os idosos tendem a enfrentar um total menor de grandes eventos de vida, embora enfrentem mais eventos de perda, como por exemplo, o declínio da saúde física, os afastamentos do mercado de trabalho, aposentadoria, viuvez, perda de papéis sociais, perda de amigos e familiares. Os idosos têm que enfrentar aborrecimentos associados com a saúde. Enquanto que sobre os aborrecimentos do dia-a-dia os idosos enfrentam menores eventos estressantes do que os mais jovens.

Idoso avalia melhor se estresse é relevante ou não

Na velhice a pessoa tende a avaliar mais o seu estresse psicológico diante das adversidades da vida, avaliar a qualidade do seu relacionamento com o ambiente, suas redes de relações, suporte social, recursos, etc... Portanto, o indivíduo é mais capaz de julgar se o estresse é relevante ou irrelevante em sua vida, quando o evento estressante traz perda ou ganho e se ele promove algum bem-estar ou não como consequência.

São considerados benignos quando os eventos são caracterizados como alegria, harmonia, paz, contentamento, são vistos como emoções positivas e considerados perdas quando são caracterizados de emoções negativas tais como apreensão, aflição, preocupação, tristeza, ameaça, etc...

Todos os eventos trazem possibilidade de adaptação e crescimento. As avaliações e reflexões ajudam a produzir no indivíduo esforços cognitivos (capacidade de adquirir e usar conhecimento) para lidar com o evento estressante. Entre os fatores pessoais que influenciam a avaliação cognitiva dos eventos e suas mudanças com o decorrer da idade estão o envolvimento que consisti na dedicação em uma atividade ou tarefa que tenha significado pessoal, é a busca de atividades, valores, ideais, investimento de tempo e energia, outro fator é a crença, crença sobre eficácia ou controle pessoal sobre os eventos e crenças existenciais relacionadas à religiosidade.

Lidar com os eventos e com o ambiente não é só uma questão de saber o que fazer, mas também envolve crenças sobre a capacidade.

Pessoas com autoeficácia baixa desistem facilmente de desafios e de enfrentar as dificuldades. Outro fator é a novidade de situações, isto é, pessoas que não tiveram experiências prévias de determinada situação podem ter a tendência de avaliar o estresse como ameaça e não como uma situação de desafio.

A temporalidade (noção de passagem de tempo vivido) ajuda a pessoa a entender que algo aconteceu normalmente ou não, se um evento estressante ocorreu num momento que seria propício para acontecer. Quando um evento ocorre “fora do tempo”, também conhecido como não-normativo são não-controláveis e privam o indivíduo de buscar apoio. Por exemplo quando acontece a morte de um filho por acidente ou doença, afastamento do mercado de trabalho de forma abrupta, perda de status social. Eventos não esperados tendem a ser avaliados como os mais estressantes.

Após avaliação e reflexão dos eventos estressantes o indivíduo é capaz de acionar estratégias de enfrentamento ao estresse que ajudam a lidar com as mudanças causadas pelo estresse na velhice. São recursos que o indivíduo dispõe de acordo com o estágio em que ele se encontra. Alguns recursos dizem respeito à saúde e energia, referem-se à saúde física que é relevante para o bem-estar e promove uma mobilização.

Indivíduos mais fragilizados com sua saúde física podem apresentar mais dificuldade para manter um comportamento mais efetivo e utilizar estratégias diferentes. Novamente as crenças existenciais, espirituais e religiosas que tendem a aumentar na velhice são recursos que podem diminuir o estresse percebido. O envolvimento também é outro recurso que ajuda a aumentar a motivação para enfrentar os eventos estressantes e recursos de competências, que consistem nas habilidades sociais e capacidade de resolução de problemas.

Papel social

O papel social é importante na adaptação humana, é um recurso valioso para os comportamentos, sobretudo na velhice. Quanto às capacidades de resolução de problemas, as pessoas que se adaptam mais facilmente e com maior velocidade às mudanças e avanços tecnológicos e com mais capacidade de reserva cognitiva (anos de estudos e uso do conhecimento) tendem a utilizar estratégias mais eficazes para resolver problemas do dia-a-dia.

Os recursos materiais também influenciam. Na velhice os recursos financeiros podem diminuir e aumentar o número de doenças crônicas e isso se transforma em fonte de estresse. Recursos materiais e suporte social e familiar diminui a vulnerabilidade da pessoa aos eventos estressantes.

São esses recursos que permite o ser humano ser singular, cada um ter sua história de vida e com sua competência para viver e enfrentar com dignidade cada dificuldade. As avaliações, a reflexividade sobre o que se vivencia é fundamental, nos ajuda a empreender força e coragem para se mostrar vivo não importando a idade que se tenha. É fundamental não se deixar abater pelas pressões e aflições e poder tirar proveito de cada obstáculo.




Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.



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