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Por que o 'emprego dos sonhos' se torna uma tortura?

Monica Aiub 01/01/2016 COMPORTAMENTO

por Monica Aiub

Insatisfações com o trabalho são questões comuns no consultório de filosofia clínica.

De imediato podemos imaginar tratar-se de alguém que não conseguiu a colocação desejada no mercado de trabalho, ou que não atingiu as metas traçadas. Casos assim surgem, mas não é deles que desejo tratar aqui. Quero abordar casos de pessoas “bem-sucedidas” em seus objetivos iniciais, que alcançaram exatamente aquilo que planejaram ou até mais, porém, encontram-se totalmente insatisfeitas com a vida que levam, sem ver sentido em seu existir.

Diante da pergunta sobre o sentido da existência, poderíamos traçar inúmeras respostas – algumas contraditórias entre si, outras coincidentes – mas não temos uma resposta única à questão. Poderíamos afirmar que temos um número de respostas equivalente ao número de seres existentes no universo, em outras palavras, cada qual traça para si o sentido de seu existir, seja ele atribuído a um ser absoluto, seja ele atribuído a um determinismo natural, seja ele fruto das determinações sociais, seja ele construído singularmente no decorrer da própria existência.

Mas a pergunta é considerada “impertinente” quando trazida às questões cotidianas: “De que você está reclamando? Você está de ‘barriga cheia’! Tem seu trabalho, seu sustento, trabalha numa excelente empresa, tem seus bens, pode oferecer conforto à sua família...”. São muitos os motivos apontados para considerar a questão “impertinente”, afinal, o sentido da vida é este: nascer, crescer, trabalhar, constituir patrimônio, procriar, morrer. Será?

“Tudo tem seu preço”, dizem alguns. Para conquistarmos um grau de empregabilidade, adquirirmos segurança, constituirmos um patrimônio, é preciso abrir mão de uma série de coisas, é preciso “deixar de viver” uma série de coisas, é preciso abdicar, por vezes, da própria existência e das coisas que amamos. O prêmio para isso? O patrimônio constituído! E o que faremos com tal patrimônio? Você já se questionou sobre o sentido do patrimônio? Sobre o sentido de seu trabalho? Sobre o sentido de sua vida cotidiana? Quantas coisas fazemos diariamente que, se analisadas com um pouco mais de profundidade, deixaríamos de lado? Você consegue fazer uma lista delas?

Mas nossa educação, há tempo, pauta seus processos em preparar o educando para o mundo do trabalho, em formar para o mercado de trabalho, ensinando os elementos fundamentais para o ingresso e a permanência, e em alguns casos até mesmo para o sucesso dentro do mercado e de seus padrões instituídos.

Mas em que consiste o mercado? Que padrões são esses?

Boltanski e Chiapello, no livro “O novo espírito do capitalismo”, mostram como o capitalismo absorveu as críticas das décadas de 60 e 70, incorporando à sua estrutura as reivindicações do movimento de 68, sem perder o que lhe é característico, ou seja, os mecanismos de exclusão. Com base nos manuais de management os autores demonstram a formação de um “capitalismo em rede”, de um “capitalismo conexionista”.

O mundo do trabalho, antes pautado na rigidez; no respeito e na valorização da hierarquia; na forte burocracia; nos padrões fixos e repetitivos das atividades e dos modos de administração; no papel de administradores centralizadores, frios, calculistas que mandam, ordenam, passa, no capitalismo conexionista a ser fundamentado na flexibilidade, na autonomia, na liberdade e na criatividade. Ao invés de acumular, de centralizar, o administrador desloca-se mais; ao invés de mandar, motiva; ao invés de ser frio e calculista, é um visionário humanista. Em outras palavras, os autores apresentam um modelo de capitalismo enxuto, leve, com máximo de informações, móvel, com conexões úteis e capacidade de inventar sempre projetos interessantes.

As empresas que constituem este mercado, ainda segundo os autores, são magras, formadas por equipes multidisciplinares que trabalham por projetos, autônomas, sem uma escala hierárquica tradicional. As equipes são auto-organizadas e o trabalho ocorre em rede. A função do líder é catalisar e animar a equipe, inspirar confiança, comunicar-se com todos, ser intuitivo e criativo: é o homem da rede, que tem mobilidade para atravessar fronteiras. Como não há um controle rígido, tudo gira em torno do prazer e da satisfação do cliente, e ao trabalhador é necessário um autocontrole.

O perfil do administrador de empresas é de um ser afetivo, amigável, uma pessoa! Ele deve saber escutar, ser presente, trocar... está sempre a serviço do bem comum. É o conector, o animador das redes de conexão.

Todas as diferenças são deixadas de lado em prol de um projeto, e a vida é uma sucessão de projetos. Mais do que o capital econômico, o capital social, o capital humano, o capital de informação é que tem valor.

Tudo parece tão bonito, tão humanista, tão digno... Por que as pessoas não se satisfazem com um mundo do trabalho constituído de modo tão admirável? O que se dá na prática?

Não é preciso ir muito longe, basta olhar para o que se dá à nossa volta. Pensemos na famosa flexibilidade de horários. Você não precisa cumprir oito horas no seu trabalho, precisa ficar lá o tempo suficiente para atender à demanda. Quanto tempo, de fato, você fica? Quanto tempo de seu dia é dedicado ao trabalho? Não há mais distinção entre trabalho, casa, diversão, estudo, é o ócio criativo proposto por Domenico de Masi. O que aconteceu com isso, de fato?

Você ingressa em um trabalho e recebe um celular, computador ou tablet da empresa. E agora você precisa estar conectado à empresa e aos clientes 24 horas por dia. Mas não há quem lhe obrigue a fazer isso. Contudo, se você não fizer, perderá a eficiência no atendimento ao cliente, e consequentemente, não perderá apenas o emprego, mas sua capacidade de empregabilidade. Está externalizado o custo de manutenção de um espaço, pois a empresa economiza enquanto você trabalha em casa, mas estará externalizado também o controle. Ele é seu, é um autocontrole. É possível insubordinar-se contra si mesmo?

Observe como a responsabilidade pelo controle “deixa de ser” do empregador e passa a ser do empregado, que precisa cuidar não apenas da manutenção de seu emprego, mas da manutenção de sua capacidade de empregar-se futuramente, de situar-se no mercado.

Isso traz implicações fortes na vida cotidiana. Tornamo-nos cada vez mais workaholics. O que antes era um problema, o vício em trabalhar, agora é uma qualidade. Quanto mais workaholic for, maior seu grau de empregabilidade. Trata-se de vício, prazer ou obrigação? O que você pensa a respeito?

Outra implicação: não vamos mais a festas ou a encontros com amigos, fazemos network. Como ficam nossas relações? Atendo pessoas que abdicam de sua espontaneidade em festas porque isso poderá prejudicar sua imagem profissional. Outras ficam inseguras ao contar algo de si para os amigos, com receio de suas confidências pessoais gerarem uma imagem negativa no mercado.

Sutilmente, há toda uma articulação para que nos sintamos livres, criativos, inventivos, em relações amigáveis, prazerosas, mas a obrigação, a cobrança e o controle são cada vez maiores. Agora eles não permanecem apenas nos limites do local de trabalho, porque todo local é local de trabalho; eles não se encontram apenas nos limites do horário de trabalho, porque todo horário é horário de trabalho. E trabalho, que na origem da palavra – tripalium –era um instrumento de tortura, tornou-se prazer? Ou ficamos torturados todo o tempo, em todo lugar?

Mais do que isso, qual o sentido do que fazemos ao trabalhar? Atendo pessoas que trabalham com bens intangíveis, com mercado financeiro. Ao mesmo tempo em que elas observam as movimentações econômicas se perguntam: a que ou a quem isto serve? Qual a lógica da especulação?

São estas algumas das questões que geram insatisfação a pessoas muito bem “sucedidas” no mercado de trabalho, e que podem nos fazer pensar...

Estará correto educarmos nossas crianças e jovens para o mercado de trabalho?

Será o melhor caminho buscar formas de adaptação ao mercado de trabalho?

Haveria possibilidades diferentes para construir a vida cotidiana? E muitas outras questões...

Referências Bibliográficas:
AIUB, M. Como ler a filosofia clínica: Prática da autonomia do pensamento. São Paulo: Paulus,2010.
BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
MASI, D. O ócio criativo. São Paulo: Sextante, 2000.

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Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br

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