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Nem sempre separar é romper, mas ambos são um desafio

Fátima Fontes 01/01/2016 PSICOLOGIA
Haverá sempre um novo de novo a nos esperar

por Fátima Fontes

Introdução
"Vamos começar colocando um ponto final. Pelo menos já é um sinal de que tudo na vida tem um fim"
(Paulo Moska, CD: Moska + novo de novo, 2004).

Estamos juntos mais uma vez desfrutando destas reflexões sobre nós e nossos vínculos, desta vez me inspirei em algo que vivo e acompanho ao longo desses meus 32 anos de cuidadora: o difícil momento das finalizações inter-relacionais.

Percebo que nosso apego primeiro, à mãe ou a quem de nós cuidou nos primeiros anos de nossa vida, parece deixar em nós um risco de laço eterno, que nos faz sofrer a todos, e a uns mais que a outros, quando chega o momento das separações.

Sim, porque separar é preciso, sem isso não nos desenvolveríamos como seres no mundo! Nosso desenvolvimento biológico, psíquico, afetivo e social e por que não Espiritual não ocorre se não aprendermos a nos separar.

Vale a pena lembrar que nem sempre separar-se é romper, às vezes é só o distanciar-se, mas às vezes é sim o romper e aí... a coisa nos pega bem mais.

Não separar para vingar um fim

Como cuidadora de casais e famílias sempre me intrigou o fenômeno que concretiza o ditado popular: "Vingança é um prato que se come frio...". Isso aparece em plenitude quando acompanhamos aqueles relacionamentos de décadas, cheios de conflitos, desqualificações e violências cotidianas, recheados de pequenas e grandes traições que só se rompem quando se descobre a presença 'fixa' de um terceiro, e não poucas vezes, já acompanhados com filhos e filhas do tal "amado agressor".

Normalmente depois da fase de ódio, revolta, afinal não dá mais para negar o fim da relação... Acompanhamos o momento da grande tristeza, às vezes da instalação de um quadro de depressão, que em seguida acompanhará uma estranha e nociva "nova/velha" construção: o fiar de uma trama de vingança cotidiana, onde invisivelmente vemos serem tecidos os fios de rancor, ódio e ressentimento que passam a nutrir o viver da pessoa nela enredada.

Nesse cenário, a "ruminação do mal que o outro fez", alenta a perene vinculação a ele: é como se a grande revanche fosse paga por quem foi abandonado ao se condenar a manter-se aquecido por esse tramado cobertor de mágoas e ressentimentos.

Mas também acompanho isso em outros vínculos, às vezes de amigos, pessoas com quem trabalhamos, chefes, colegas de cursos, vizinhos, etc... Sabemos que somos imperfeitos, que nossos laços relacionais são muitas vezes frágeis e passíveis de serem rompidos, mas queremos a todo custo 'manter' a ligação com quem temos dissabores e desencontros.

Também nesse cenário de não ruptura relacional, acompanhamos o tramar-se de uma 'colcha de mágoas', onde a pessoa desiludida, decepcionada, traída em seu vínculo de amigo, resiste a romper com esse 'desafeto', e assim quase que acende uma velinha diária, se é que não acende várias ao dia, para cultuar aquele ou aquela que me decepcionou, eternizando assim o vínculo.

Nesses cenários, o romper, o sair da relação que seriam a resolução do problema passam a ser evitados, a tal ponto que já acompanhei pessoas com grande adesão ao tratamento terapêutico, mas sem nenhuma adesão à mudança, que após bom tempo de acompanhamento terapêutico, o interrompe e assume que a tal mudança, que implicaria necessariamente do rompimento emocional, e às vezes relacional não é realmente desejado.

Isso não implica de modo algum em dizermos que não devemos tentar mediar nossos conflitos e procurar soluções criativas para nossos dissabores relacionais, mas existe o 'tempo' e a 'circunstância' em que a relação já não comporta mais a própria relação e aí, só cabe aprendermos a nos separar.

Separar-se para crescer

O formidável escritor e terapeuta de casal e família Marcel Rufo escreveu um livro que tem o título: "Me larga. Separar-se para crescer", no qual ele nos estimula a compreendermos e a vencermos esse tal visgo com o outro que não permite o desenvolvimento nosso e do outro.

Não é essa a situação que atravessamos como pais em relação aos nossos filhos adolescentes e jovens, a nossa dificuldade em nos separarmos deles?

Há pais que insistem em chamar e tratar seus filhos adolescentes de 'bebês', debaixo de um slogan sem pé nem cabeça: 'Para os pais os filhos são eternos bebês', uau, que cenário monstruoso: alguém com um corpo de adolescente, ou jovem, de fraldas, chupando chupeta e tomando mamadeira, não? Pois emocionalmente é assim que eles passam a se comportar, sem a menor noção do que seja a realidade adulta, as responsabilidades pessoais e sociais, um autêntico aleijão cidadão.

Outra vez vem o desafio: não se trata de romper com esses filhos, mas em distanciar-se sim deles, em respeitarmos seus pontos de vista, em procurarmos escutá-los e em estabelecermos os novos contratos de ação e responsabilidades relacionais.

E o casamento dos filhos? Bem, aí é muito comum que mesmo negando que se sentiram em 'luto', principalmente as mulheres do tipo 'ensinei meus filhos a partirem', em seus espaços mais secretos choraram o fim de um formato de relação. Não estamos falando aqui de chorar porque eles se desenvolveram e puderam se responsabilizar social e juridicamente por uma relação, e sim o luto aqui é o do fim do velho e o caos que sempre traz o novo.

E para terminar: tudo novo de novo

Bem, aqui nos separamos neste texto, mas sem choro nem vela, ok?! Voltaremos no próximo texto, ufa! Mas essa é a proposta que lhes faço frente a este nosso desatinado modo apegado de ser: haverá sempre um novo de novo a nos esperar, mas ele só terá o sabor da novidade se tivermos a coragem de dizer adeus, ok?!

Abraços e por hoje, adeus!

Acompanhem e degustem neste fim de reflexão a linda canção Tudo novo de novo, de Paulo Moska.

Tudo Novo de Novo
Paulinho Moska
Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos




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Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



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