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O mundo da criança-cidadã

Ceres Alves Araujo 01/01/2016 PSICOLOGIA
Crianças ficam pouco tempo em casa

por Ceres Araujo

“Lugar de criança é em casa” – nossos avós afirmavam. Os tempos mudaram e, atualmente, as crianças participam muito mais da vida social de seus pais. Isso é vantajoso? Sem dúvida que sim. Há mais prós do que contras.

Antigamente, as crianças ficavam em casa, quando seus pais saiam, por vários motivos, dentre eles: existiam pessoas, familiares e babás, disponíveis para cuidar delas; acreditava-se, também, que as crianças ficavam mais tranquilas no ambiente familiar, não valendo a pena a vivência do estresse do enfrentar situações novas e, ainda, não se esperava encontrar crianças em ambiente sociais, na época reservados a adultos, como restaurantes e teatros. Crianças viajavam menos e, quando viajavam, eram para casas de avós, tios, casas de férias. As viagens, para lugares mais distantes ou para o exterior, aconteciam quando já tinham mais idade.

Hoje, pode-se afirmar que o lugar, no qual as crianças, em geral, menos ficam, é nas suas casas. Com a agenda cheia de atividades extraescolares, onde cabem aulas de línguas, de esportes, atividades culturais e sociais. A criança só fica em casa no fim de semana, isso se não viaja sistematicamente com a família para casa de praia, de campo ou para casa dos amigos, tios e avós. Nas férias e feriados prolongados, a criança se torna uma viajante a explorar mundos para ela desconhecidos. Viver a vida dessa maneira, traz para a criança desde a idade muito precoce, estímulos de ordens variadas, que a enriquecem muito, mas, sem dúvida, a estressam. Tal nível de estresse já passou a ser computado como normal à vida dos nossos tempos.

Vivemos em uma cultura-mundo, para usar a expressão do filósofo francês Gilles Lipovetsky. A cultura que caracteriza a nossa época não é mais um conjunto das normas sociais herdadas do passado e da tradição, mas é uma cultura globalizada, hipertecnológica, consumista ao extremo e que se renova a cada momento. Estamos, nós e nossos filhos, rumo a um planeta homogeneizado. As distâncias se tornaram pequenas, os meios de comunicação extremamente rápidos e as fronteiras entre mundo real e virtual estão se desvanecendo.

Existimos em um mundo que se reconfigura a cada instante e, possivelmente, estamos frente a uma civilização por vir, nova e talvez maravilhosa, que será a dos nossos filhos. Assim, filhos acompanham seus pais na grande maioria das atividades sociais, são apresentados ao mundo e aprendem in loco como se apresentar. Aprendem com a vivência das situações e essa é uma forma absolutamente instrutiva de absorver conhecimento e aprendizado social.

Restaurantes temáticos para crianças, restaurantes com cardápios para os pequenos, resorts com pacotes para todas as idades proliferam no nosso mundo atual, atraindo as famílias. É o mundo do “bebê-cidadão”, do reino da criança.

Mas, apesar de todos os estímulos que podem enriquecer as crianças fora de suas casas, alguns limites precisam ser estabelecidos, para o bem de todos. Alguns limites estão ligados diretamente com a vida social e outros com a qualidade de vida da criança.

Quanto aos limites impostos pelo social, as famílias que têm filhos devem ter a consciência de que existem casais e pessoas que não têm crianças e que não precisam ficar submetidas aos comportamentos, por vezes, inadequados dos filhos dos outros, em lugares que não são tão apropriados para crianças.

Limites

Exemplo emblemático de situação inadequada que pode ser lembrado é a presença de crianças pequenas, ou até mesmo mal-educadas, gritando, chorando, correndo entre as mesas em restaurantes típicos para adultos. Mesmo nos nossos tempos, na nossa cultura globalizada, na nossa sociedade mais permissiva, onde lugar de criança não é em casa, o respeito e a consideração ao outro continuam valendo. Os limites do espaço pessoal e os direitos dos outros são aprendizados que as crianças precisam adquirir com seus pais. É um aspecto precioso da educação.

Sabe-se que o tempo que a criança aguenta permanecer sentada, quieta em uma cadeira de restaurante é pequeno. Dessa constatação, proliferaram os DSs – Distractor systems – jogos e atividades que distraem as crianças, que vemos muito usados em restaurantes e lugares desse tipo. Porém, mesmo com os distratores, as crianças se sentem melhor em ambientes adequados à sua idade. O desejo dos pais de experimentarem determinados lugares ou comidas não justifica expor seus filhos a situações, nas quais eles não são vistos com bons olhos por perturbarem os outros.

O outro tipo de limite que deve ser estabelecido pelos pais, está diretamente ligado à qualidade de vida da criança. Bebês e crianças precisam de algumas rotinas, para terem garantidas a estabilidade e a segurança. Necessitam também de alimentação apropriada e de horas adequadas de sono para terem saúde. Faz-se necessário assim que os pais controlem a agenda de seus filhos, avaliando a intensidade de estresse que suas crianças possam administrar, sem danos à vida mental.

O fato é que, ao contrário do que muitos observadores menos atentos imaginam, as crianças hoje saem mais de casa do que as de gerações anteriores. O mundo contemporâneo estimula as crianças a uma série de atividades fora do lar, proporcionando a elas estímulos específicos para suas idades e com isso, favorecendo o desfrutar de outros habitats, jogando, brincando, dançando, comendo, consumindo e dessa forma aprendendo. Porém, cabe aos pais lembrar sempre dos limites, para ensinarem aos filhos o saber viver nesse mundo hiperinterativo, que dá espaço para a criança-cidadã.




Ceres Alves Araujo

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.



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