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Quais as consequências do uso prolongado de crack e cocaína? Como largar?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Terapia familiar deve ser instituída em muitos casos

por Danilo Baltieri

Resposta: São inúmeras as consequências nocivas do uso de cocaína/crack. Após o consumo dessa substância, o usuário pode experimentar sintomas psíquicos e físicos, a saber:

a) Sintomas Psíquicos: euforia, aumento da vigília, sensação de bem-estar, autoconfiança exagerada, aceleração do pensamento;

b) Sintomas Físicos: aumento da frequência cardíaca, aumento da temperatura corpórea, aumento da frequência respiratória, sudorese, tremor de extremidades, espasmos musculares, tiques e dilatação das pupilas.

As complicações associadas ao consumo dessa substância envolvem praticamente todos os tecidos orgânicos. Abaixo, citarei alguns desses tecidos e algumas das respectivas complicações mais frequentes.

1) Mucosa nasal e oral:

Efeito Agudo: quando a cocaína é inalada, ocorre ressecamento das narinas com posterior congestão nasal;

Efeito Crônico: se inalada, a cocaína pode provocar necrose da mucosa nasal até o desenvolvimento de ulcerações ou perfuração do septo nasal.

2) Complicações cardiovasculares:

Taquicardia, hipertensão, palpitações, arritmias cardíacas. O aumento do esforço cardíaco para bombear o sangue através da circulação pode levar ao infarto do miocárdio, mesmo em pessoas jovens e sem doença cardíaca prévia.

Indução de aneurismas, especialmente da aorta, tem sido bastante descrita.

3) Complicações pulmonares:

São principalmente relacionadas ao fumo do crack. São elas: pneumomediastino (ruptura dos alvéolos pulmonares com consequente extravasamento de ar entre os pulmões - mediastino), a conhecida síndrome “pulmão de crack” (caracterizada por dores no peito, falta de ar, tosse sanguinolenta), edema e necrose da mucosa da laringe.

4) Complicações neurológicas:

Hemorragias intracranianas, convulsões generalizadas, infartos cerebrais, prejuízo das funções cognitivas (memória, atenção, concentração).

5) Complicações gastrintestinais:

Colites induzidas pelo crack (caracterizadas por diarréia aquosa, cãibras abdominais dolorosas, vômitos).

6) Complicações oftálmicas:

Úlceras e escaras nas córneas de indivíduos que colocaram cocaína na conjuntiva ocular, ou submetidos às altas temperaturas da fumaça emitida pelo crack.

7) Psiquiátricas:

Além dos quadros de Abuso e Síndrome de Dependência, os usuários podem desenvolver quadros psicóticos (com presença de delírios e/ou alucinações), agitação psicomotora, síndromes maniformes (aceleração do curso do pensamento, idéias de grandeza, inquietação psicomotora).

8) Impacto na gestação:

Anormalidades fetais, parto prematuro, diminuição da superfície craniana e encefálica, desnutrição fetal, dentre muitas outras.

A melhor forma para se evitar essas danosas complicações é a abstinência total dessa substância. Infelizmente, muitos dos usuários somente procuram ajuda especializada, quando as várias complicações citadas já estão instaladas.

O tratamento da Síndrome de Dependência de Cocaína/Crack deve ser realizado por especialista na área. Infelizmente, até o momento, não existem medicações comprovadamente eficazes no manejo dessa condição, embora algumas tenham mostrado eficácia em estudos controlados.

O tratamento da síndrome pode ser realizado em ambulatórios, clínicas especializadas ou até mesmo em regime de internação. Isso dependerá da gravidade do quadro do paciente. Grupos de mútua ajuda têm auxiliado alguns desses pacientes.

O primeiro passo na direção do sucesso do tratamento é a motivação do dependente em cessar o consumo das substâncias. Além disso, a modificação do estilo de vida, associada com o apoio real dos familiares, são ingredientes indispensáveis durante o processo terapêutico.

A Síndrome de Dependência de Cocaína/Crack é um quadro, geralmente, bastante grave e o paciente deve receber intenso apoio dos familiares. Infelizmente, muitos familiares querem ajudar, mas não conhecem a melhor maneira de fazê-lo. Dessta forma, a terapia familiar deve ser instituída em muitos casos, já que, comumente, os familiares adoecem junto com o paciente, em um processo conhecido como codependência.

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As respostas do profissional desta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um profissional de psiquiatria e não se caracterizam como sendo um atendimento.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.

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