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Uso prolongado de antidepressivos pode causar Alzheimer ou algum tipo de demência?

Eduardo Ferreira Santos 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Eduardo Ferreira Santos

"Tenho 30 anos. Sofro de depressão há mais de dez anos e tomo remédios controlados, os famosos "tarja preta": Clonazepam, Mirtazapina, Escitalopram, Picolinato Cromo. Há algum risco de eu sofrer de Mal de Alzheimer?"

Resposta: Não conheço nenhum estudo científico publicado que relacione o uso prolongado de antidepressivos com o Mal de Alzheimer.

Esse tipo de demência (degeneração do tecido cerebral com perdas significativas de funções psíquicas e motoras) ainda é objeto de muitos estudos em Psiquiatria, mas não há nada conclusivo sobre suas causas. O uso prolongado de benzodiazepínicos (os tais calmantes) podem trazer prejuizos na esfera cognitiva como lapsos momentâneos de memória, letargia, distúrbios de concentração (manutenção do foco), cansaço, impotência, perda de libido; enfim, uma série de problemas que, segundo estudos ainda não confirmados, podem levar a sérios prejuízos da função mental do usuário, algo parecido como uma demência.

O Mal de Alzheimer é um tipo específico de demência, hoje em dia usado quase comumente para qualquer deficiência nas funções cognitivas básicas: consciência, orientação, atenção e memória. Resumindo, há alguns autores que citam efeitos tardios do uso prolongado e abusivo desses medicamentos, da mesma forma que o uso abusivo e prolongado da maconha pode provocar.

Cabe sempre ressaltar que as diferenças individuais são enormes e que esses estudos não valem “para todo mundo”, mas servem de um alerta e nos faz, na clínica psiquiátrica, indicar essas medicações apenas como “emergenciais”, assim como um clínico indica um antifebril, mas procura a causa verdadeira da doença. Há, sim, uma possível causa genética, hereditária, mas nem isso está eficientemente comprovado.

O que se sabe é que o uso prolongado de “calmantes” (os verdadeiros *“tarja preta”) podem sim causar, devido à sua tolerância e consequente aumento de dose para se ter um mesmo efeito, a longo prazo, causar um prejuizo funcional (explicado acima) nas atividades psíquicas.

Os chamados ANSIOLÍTICOS, como o próprio nome indica, são medicações que retiram (LISE) a ansiedade (ANSIO), isto é, são os famosos *calmantes amplamente conhecidos pelo público em geral pelos seus nomes comerciais tais como VALIUM, DIEMPAX, LEXOTAN, LORAX, FRONTAL, OLCADIL e vários outros.

São todos medicamentos da classe dos benzodiazepínicos cuja ação ainda não está muito bem esclarecida, mas funcionam para a ansiedade como um remédio para a febre (tipo NOVALGINA), isto é, atuam no SINTOMA, mas não na CAUSA do transtorno. Exatamente por isso, existe a grande possibilidade da pessoa ficar “viciada” na medicação que, por sinal, tende a ter seu efeito progressivamente diminuido levando o paciente a aumentar a dose ingerida, podendo chegar a níveis tóxicos e até fatais, pois podem interferir na função respiratória e, no limite, causar PARADA RESPIRATÓRIA, seguida de PARADA CARDÍACA e MORTE!

Nesta classe de medicamentos destaca-se o RIVOTRIL que, além de ser ansiolítico tem função anticonvulsivante e coadjuvante na estabilização do humor, mas incorre nos mesmos problemas do USO ABUSIVO dos seus parentes acima citados.

Ressalto que são todos nomes comerciais, os mais conhecidos, havendo uma variedade enorme de similares e genéricos que merecem uma extensa lista, o que não cabe aqui.

Isso não ocorre com os antidepressivos comumente usados (pelo menos não há nada que indique esse tipo de prejuizo) mas, a própria depressão, a Verdadeira Depressão, se não tratada, pode sim, a longo prazo trazer sequelas irreversíveis, causando os chamados “déficits cognitivos”, isto é, perda de memória, raciocínio lento, desorientação, apatia, perda de interesse e capacidade de pragmatismo (exercer atividade útil).

Quando falo de Verdadeira Depressão refiro-me ao chamado TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR, quadro clínico intrincado, amplo que envolve vários, complexos e diferentes sintomas verdadeiramente incapacitantes dentre os quais pode prevalecer seja a DEPRESSÃO seja a MANIA (euforia) com detalhes bastante específicos que vão muito além de uma tristeza ou alegria exagerada. Talvez o que mais caracterize esse quadro seja a perda do sentido crítico em que a pessoa na depressão se vê mergulhada no mais negro dos mundos, sem saída, sem forças, sem vontade para nada e na euforia pode até achar que possui poderes extraordinários, mania de grandeza e a fazer gastos exorbitantes.

Ressalto que tristeza e alegria são sentimentos naturais e não têm nada a ver com o TRANSTORNO BIPOLAR, ou melhor, podem fazer parte do quadro mais amplo do transtorno, mas são, repito, sentimentos naturais perante as situações de vida consistentes com eles.

Portanto, não há com o que se preocupar se você estiver se tratando adequadamente.

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Eduardo Ferreira Santos

Psiquiatra e psicoterapeuta. Obteve Titulo de Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e o de Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina na USP. Escreveu os seguintes livros sobre relacionamento amoroso: Casamento missão (quase) impossível; Ciúme: O medo da perda; Ciúme: O lado amargo do amor Mais informações: www.ferreira-santos.med.br



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