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Reflita sobre o significado da Páscoa

Regina Wielenska 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Páscoa: oportunidade para exercitar a fantasia

por Regina Wielenska

Com a proximidade das Páscoa e de Pessach (Páscoa judaica), duas celebrações importantes para inúmeros cristãos e judeus, pensei em destacar aqui os motivos que me levam a valorizar certas cerimônias e rituais sociais. A título de preâmbulo, gostaria de relembrar duas cantigas dos meus remotos tempos de pré-escola.

COELHINHO DE OLHOS VERMELHOS

De olhos vermelhos
De pelo branquinho
Orelhas bem grandes
Eu sou coelhinho
Sou muito assustado, porém sou guloso
Por uma cenoura, já fico manhoso
Eu pulo prá frente, eu salto prá trás
Dou mil cambalhotas, sou forte demais
Comi a cenoura, com casca e tudo
Tão grande ela era
Fiquei barrigudo

COELHINHO DA PÁSCOA

Coelhinho da Páscoa
Que trazes pra mim?
Um ovo, dois ovos, três ovos, assim?
Coelhinho da Páscoa, que cor ele tem?
Azul, amarelo e vermelho também?

Nossa performance vocal era acompanhada por gestual compatível com a letra. Ensaiar as canções, recortar num molde de cartolina a máscara do coelho, pintar suas feições e, ao final de tudo, fazer uma apresentação para os pais, nos ocupava imensamente, por dias a fio, e era fonte de singela alegria.

Empenhada em resgatar na memória afetiva exemplos do positivo envolvimento familiar na celebração de rituais pascais, outras lembranças me ocorreram.

Recordo as idas, com uma das avós, a igrejas, para participar da procissão ou orar em frente à imagem do Cristo morto. Consegui recordar da vez em que meu avô, em pleno sábado de Aleluia, durante nossa hospedagem na cidade de Santos, saiu em busca de capim e cenoura. Pegou seu chapéu de palha e nele preparou um ninho para que eu pudesse receber, em alto estilo, o coelho da Páscoa. Depois, de madrugada, ele se deu ao trabalho de acordar para, na surdina, roer a cenoura, espalhar o capim pelo chão do quarto, e depositar no ninho o ovo de chocolate. Descobrir a cenoura mordida, chamar os adultos para mostrar-lhes a descoberta, abrir o ovo com lembrancinhas dentro, é muito a prazeroso o resgate da emoção infantil de que o coelho cumpriu sua promessa. Agora, adulta, valorizo o carinho da família que se dispôs delicadamente a cultivar aquela fantasia ou, em outro contexto, a me explicar o valor do sacrifício de Cristo pelos seus semelhantes (estes, por vezes, eram tão diferentes de nós).

Acho que no ano seguinte ao evento no litoral decidi enviar uma carta ao simpático mamífero. Ditei para minha mãe minha mensagem e ela prometeu postar a carta no “correio lá do centro”, perto do escritório. Embora a crença em Noéis e Coelho estivesse nos seus estertores, fiz aos cinco ou seis anos de idade uma despedida em “grand finale”. Uma tia paciente, cuja caligrafia eu desconhecia, escreveu a carta-resposta, encontrada por mim na caixa de correspondência de casa. O envelope com meu nome escrito tinha muito durex para prender o selo, representado por uma rodela já murcha de cenoura. O coelho afirmava reconhecer meus méritos e se comprometia a entregar o presente no dia de praxe. Sem muita coragem para questionar os fatos da vida, lembro que me perguntava se a carta poderia mesmo ser considerada evidência suficiente da existência do coelho. Achei de bom tom me dar por satisfeita com a veracidade da prova (um insólito documento postal a mim endereçado) e embarquei no espírito da coisa.

Páscoa: oportunidade para exercitar a fantasia

O que pretendo enfatizar é que essa história do coelho tem muito valor, além das óbvias implicações comerciais. Brincar, desse jeito surreal, é saudável exercício da fantasia, tanto para adultos como para crianças. Gente grande tende a endurecer com as cruezas do cotidiano. Ocasiões festivas podem servir de pretexto para o florescer da imaginação, da liberdade de brincar. Sou adulto que se permite pirar um pouquinho e ajuda um neto a se divertir também, interagindo com entidades impalpáveis, cujo advento traz alguma alegria.

Na idade adulta, Deus, entendido com seus múltiplos nomes e enquadres, talvez assuma o posto do Coelho, da Fada-madrinha ou do Papai Noel. Falo de muitos seres, igualmente impalpáveis, de indemonstrável existência. Apostando em sua existência e poder de proteção, eu posso me encantar e ficar em paz com a mera hipótese de que alguém, sei lá onde e de que jeito, zela por mim, está presente nas horas críticas do meu viver, fica de plantão para me dar força, um norte, a exata esperança. São todas relevantes entidades (físicas, energéticas ou verbais), que produzem emoções de conforto, modificam meu estado presente, influenciam o que faço, o que penso.

Então sugiro que celebre a Páscoa e quaisquer outros eventos, sejam eles religiosas, pessoais, coletivos. Agora, sinto que falta pouco para Verônica cantar sua tristeza, a via sacra seguir o doloroso rumo tão conhecido de todos. Tomara que no coração de cada um renasçam projetos, desejos acompanhados da esperança e vivacidade com as quais a criança se depara ao receber a discreta e delicada visita do Coelho.

Ah, antes que eu me esqueça, copio abaixo um resumo das interessantes explicações que dois amigos me enviaram em resposta a uma mensagem pascal que lhes enviei. Páscoa também é cultura!

“A Páscoa inicialmente era uma festa de fertilidade, marcava o inicio da Primavera, e também o início do ano, quando toda a natureza renascia. Até hoje é marcada pelo calendário lunar, por isso incide a cada ano em um dia. A Páscoa hebraica acontece no primeiro dia de lua cheia após o equinócio do dia 21 de março. A cristã é no primeiro domingo de lua cheia após 21 de março.”

Resumo feito, eu peço que aceitem meus melhores votos, endereçados a quem tem fé ou não. Celebrem ao menos a esperança de um viver digno para os indivíduos e seu meio ambiente, o que estará de bom tamanho. Feliz renascimento a todos.




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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