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A armadilha do nirvana

Regina Wielenska 01/01/2016 PSICOLOGIA
Busque as soluções possíveis, não as perfeitas, idealizadas

por Regina Wielenska

Viver é muito bom. Viver é muito ruim. Bom e ruim se alternam, ou se oferecem a nós numa louca mistura.

Convém que eu me explique. Desde os tempos da caverna, humanos lutam pela felicidade, mas a todo o momento precisam encarar eventos dolorosos, muitos imprevistos e incontroláveis. Saúde, enfermidades, mortes por tempestades, envolventes noites enluaradas, crianças que nascem e outras que morrem.

Em meio a tamanho imbroglio conduzimos nosso destino. Definimos metas que nos parecem desejáveis, sonhamos com o que podemos obter, sondamos o ambiente em busca do melhor caminho. Isto nem sempre significa que seremos capazes de chegar lá, mesmo que sejamos dedicados, esforçados, comprometidos com a meta. Impossível esquecer a devastação causada pelo tsunami em Bali, as chuvas em Santa Catarina e pelo rompimento da barragem no Piauí, por exemplo. Os moradores conduziam suas vidas e foram atingidos pela tragédia pessoal e coletiva. Para eles, restou lidar com a destruição e mortes. A nós, alguma solidariedade, insuficiente frente à extensão dos danos. O mundo nem sempre é justo e distribui prêmios aos virtuosos.

Parte expressiva da mídia, em particular a publicidade, nos sugere haver a real possibilidade de atingir um nirvânico estilo de vida, no qual parece haver constante glamour, alegria e bem-estar. O problema ao qual gostaria de dirigir o olhar do leitor é que todo dia, na vida de cada um, ocorrem minitsunamis de problemas cotidianos, inundações emocionais, abalos sísmicos nas finanças ou na saúde. A gente se sente péssimo, é claro. Mas boa parte do sofrimento se deve ao fato de nos sentirmos excluídos deste Grande Mundo dos Eleitos. Escolhi as maiúsculas para enfatizar a importância que aprendemos a dar a este imaginário e mítico estado perfeito, de alegria constante.

Através da armadilha das palavras, acreditamos que sofrimento é um estado do qual devemos fugir a qualquer preço, ou seremos considerados fracassados e desprezíveis, e que tombaremos porque a dor será insuportável e não seremos capazes de dar a volta por cima.

Assim, o que a cultura nos leva a fazer? Crianças são poupadas dos menores sofrimentos, deveres e frustrações, os pais querem ser amigos e cúmplices dos filhos e se isentam de educá-los, porque isso equivaleria a produzir algum conflito, tarefa obviamente trabalhosa para os pais e dolorosas para os filhos. Posso hoje obrigar a escola a demitir um professor exigente demais, que inferniza meu filho, mas não poderei demitir o chefe do meu eterno garoto de vinte anos, que acaba de ser admitido para seu primeiro estágio, após competir com outros duzentos jovens. Estará meu filho preparado para lidar com esta frustração?

Outra implicação deste "jeito fugitivo"" de lidar com o lado desagradável da vida se refere ao modo como (não) enfrentamos o fato de que todos morrem. Velórios, rituais religiosos e visitas de pêsames parecem práticas em extinção. A função desses fenômenos seria nos fazer entrar em contato com a perda, num contexto social que favorece a expressão da dor e gradualmente nos apoiar para reconstrução da vida, agora indelevelmente marcada pela presença do morto, que continua a nos influenciar direta, ou indiretamente. Talvez, "ausência do ente querido" fosse a expressão mais comum, porém preferi sinalizar a condição presente, de contato com a saudade e com as lacunas nos papéis desempenhados por aquele que se foi.

Há famílias que não oferecem a seus membros qualquer oportunidade de viver o luto, este é um processo que geralmente requer um período entre seis meses e um ano para se completar. Reformar a casa, partir em viagem, banir o nome do morto das conversas, entupir quem ainda chora de tranquilizantes são recursos frequentes para fugir do que teríamos que viver durante a jornada da reconstrução, ou seja, sentir saudade, manejar privações materiais ou de outro tipo, lidar com papelada, redistribuir funções na família, etc..

Impossível listar as situações que tenho testemunhado: pessoas vivem sentimentos de desajuste por não se sentirem tão felizes ou realizadas quanto supõem que deveriam estar, e criam para si novos problemas, pelo fato de precisarem fugir da dor, ao invés de destrinchá-la passo a passo, usando os recursos pessoais e coletivos em busca da superação efetiva. Atalhos possíveis são o abuso de álcool e outras substâncias, isolamento, mutismo, adiamento de responsabilidades, mentiras, autoenganos, compulsões, engajamento em comportamentos de risco e que produzem alguma adrenalina que possa competir com os problemas.

Há saída para isso?

Dilemas, para serem resolvidos, nos cobram um preço. No caso, é renunciar aos atalhos, arregaçar as mangas e se sujar com a lama da vida, sentir a dor sem se deixar afogar por ela, analisar os problemas e decompor as soluções em etapas menores, buscando as soluções possíveis, não as perfeitas ou idealizadas. E mais, enquanto choramos nossa dor e entramos ativamente em contato com os caminhos viáveis, não podemos esquecer que dias de sol, brisas suaves, caminhadas no parque e ombros amigos continuarão a existir ou poderão trombar conosco em algum momento da vida, desde que a gente fique atento. Esta é a graça do mundo imperfeito. Conviver com gente de carne e osso, tão maravilhosamente contraditória e imperfeita como nós, e comprometida com abraçar a experiência na sua totalidade, sem subterfúgios. Com boa companhia (o que inclui a nossa própria) estradas pedregosas ficam, no mínimo, mais suportáveis. E aí sobra sempre algum espaço para sorrisos, contato físico, conversas de acolhimento, ideias novas e apoio recíproco.

Para finalizar, e na tentativa de inspirar os leitores, sugiro escutarem a canção A Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque e Edu Lobo, da obra O Grande Circo Místico. Vocês verão que a bailarina do circo, e só ela, é perfeita, e por tal motivo, não é gente....

Ciranda da Bailarina
Composição: Edu Lobo/Chico Buarque

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem...




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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