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Ser menos crítico consigo mesmo é uma forma de se cuidar

Rosemeire Zago 01/01/2016 PSICOLOGIA
Pense na maneira com que foi tratado quando criança

por Rosemeire Zago

Será que você cuida de si? Para responder esta pergunta é preciso voltar no tempo.

Todos sabemos que o afeto recebido nos primeiros anos de vida é essencial para fortalecer nossa autoestima e a capacidade de acreditar em nós mesmos. Mas infelizmente, nem todos nós recebemos o amor que esperávamos receber, gerando assim muitos conflitos quando adultos e muita dificuldade em cuidar de si mesmo.

Sim, é importante cuidarmos de nossa saúde, mantendo hábitos alimentares saudáveis e atividade física. Mas por que sentimos tanta dificuldade em cuidar de nossa saúde mental? Buscamos receitas mágicas para resolver alguns conflitos, mas resistimos em entrar em contato com o que verdadeiramente sentimos, geralmente pela dor que causam tais sentimentos guardados, e assim, os negamos.

A forma com você foi tratado nos primeiros anos de vida pode ser a maneira com que você continua se tratando até hoje, já pensou nisso? Qual a referência que você tem sobre como cuidar de si mesmo? Seus pais foram críticos, exigentes, autoritários, deixando a nítida sensação de tudo que você fazia, falava e pensava, estava errado? Ou eles o protegeram em excesso, causando a sensação de que só eles sabiam o que era certo e você, um ser indefeso, que nada sabia? Em ambos os casos a conseqüência é a mesma: sentir-se inferior, incapaz, errado, não merecedor. E isso pode causar muitas dificuldades quando adulto, comprometendo o amor por nós mesmos e afetando a maneira de nos cuidarmos.

Como cuidar de alguém que não faz nada certo? Que tudo que pensa e fala é bobagem? Que nunca corresponde às expectativas dos pais, considerados os mais sábios e inteligentes? Deve ser muito difícil cuidar de alguém cuja imagem é tão negativa. Cuidar significa respeitar, apoiar, e quando não temos essa referência dentro de nós, buscamos sermos cuidados por outras pessoas, pois nos sentimos incapazes de fazê-lo. Mas não somos.

Será que a forma crítica com que você age consigo mesmo sempre se exigindo mais e mais não é a mesma com que foi tratado? Alguém o tratava assim quando era criança? Quem? Ninguém gosta de ser criticado o tempo todo, mas nós mesmos somos os primeiros a nos criticar e depois queremos nos sentir bem em nossa própria companhia. Procure ser menos crítico consigo mesmo, em poucos dias sentirá uma enorme diferença.

É difícil fazer algo bom só para você? Por que ignora suas necessidades emocionais, que são tão básicas e importantes, esperando sempre que alguém as supra por você? Enquanto ignorar suas necessidades, aquilo que sua alma anseia, esperando que alguém venha lhe socorrer, poderá criar cada vez mais conflitos internos que com o tempo se acumulam e se intensificam, tornando-se cada vez mais difícil encontrar a origem de suas dificuldades.

Pode ser que a origem de não conseguir fazer mais por si mesmo esteja na falta de afeto e demonstrações de amor quando era criança. O que você se lembra dessa época? Ou essas lembranças lhe causam dor? Por mais que negue ou evite pensar sobre o assunto, tudo está registrado em seu inconsciente e em algum momento isso se tornará presente, podendo contaminar seu jeito de ser e agir, e principalmente seus relacionamentos.

Agora pense na maneira com que foi tratado quando criança. Será que não é dessa forma que continua se tratando até hoje sem sequer perceber? Se sente que seus pais não te deram o que merecia, lembre-se também que se não fizeram não é porque não queriam, mas provavelmente, porque não sabiam. Você já pensou como foi a infância deles? Se não tem informações, busque saber mais. Talvez compreenda um pouco mais as dificuldades que enfrentaram. Nem sempre conseguimos dar o que não recebemos.

Se hoje, com tanta informação, temos tanta dificuldade em mudar nossos próprios padrões de comportamentos, imagine isso há 10, 20, 40 anos atrás. Como diz a letra da música do Renato Russo: “Você me diz que seus pais não entendem, mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo, e isso é absurdo. São crianças como você...” Nesse momento pense em seus pais. Traga em seu pensamento a figura de seu pai e sua mãe. Veja-os como crianças. O que imagina que eles sentiam? Quantas necessidades deles próprios também não foram satisfeitas? Como eles poderiam dar o que muitas vezes nunca receberam? Pense no quanto podem ter sofrido em não saber ou não conseguir expressar o amor por você. Esforce-se um pouquinho e procure compreendê-los e quem sabe perdoá-los.

Pode ser que assim conseguirá se libertar de muitas mágoas que o impede de fazer um pouco mais por você, pensando que não é merecedor de receber amor como pode não ter recebido da forma com que gostaria. Mas por menos que tenha recebido, não continue se tratando da mesma maneira. Se for preciso, analise cada cantinho de sua vida até compreender quais são as coisas que faz que te levam a situações das quais não gostaria de estar. Se disponha a lembrar, chorar se for necessário, mas deixe sair de dentro de você mágoas antigas, que quanto mais você as reprimir mais intensas se tornam.

Enquanto não curar o que precisa ser curado, poderá repetir alguns padrões de comportamentos. Se estiver em algum padrão destrutivo de comportamento, procure identificar qual é. Pode ser em seu relacionamento afetivo, nas suas relações com seus familiares ou com seus filhos, ou algo relacionado com seu trabalho, ou ainda, consigo mesmo. Mas seja honesto, não tenha medo de identificar o que tanto o machuca, pois só assim conseguirá se libertar das amarras que o prendem ao passado.

Feito isso creio que será mais fácil ser mais amoroso e compreensivo consigo mesmo como gostaria que tivessem sido com você. E com certeza poderá cuidar de si mesmo da mesma maneira com que trata aqueles que você ama: com muito amor e carinho!




Rosemeire Zago

Psicóloga com abordagem junguiana com especialização em psicossomática. Desenvolve uma abordagem voltada para o autoconhecimento e criança interior.



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