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Regina Wielenska 01/01/2016 PSICOLOGIA
Estudos indicam efeitos positivos em relação à convivência com animais

por Regina Wielenska

Pessoas que possuem animais em casa e se responsabilizam por cuidar deles acabam por zelar melhor da própria saúde, mantêm-se ativas, suportam melhor momentos difíceis quando acompanhadas dos animais Não os possuo, nem eles a mim. Azar o meu!

Há estudos interessantes que sinalizam os efeitos positivos advindos do convívio entre o ser humano e animais.

Quem der uma busca na web poderá conhecer, por exemplo, o trabalho interessante desenvolvido pela Dra. Hannelore Fuchs, psicóloga e veterinária, profissional com doutorado pela USP. Cães saudáveis, doces e sociáveis, com donos generosos, são levados semanalmente a serviços de saúde voltados para humanos, como clínicas, asilos e hospitais e por certo tempo interagem com os pacientes, são por eles conduzidos, acariciados, participam de brincadeiras.

Os animais demonstram “habilidades clínicas” extraordinárias: o humor dos pacientes se modifica, medidas diretas e indiretas apontam redução do estresse em pacientes (níveis menores de cortisol, regulariza-se a pressão arterial, o apetite volta, obtém-se maior adesão e tolerância aos tratamentos), pacientes com lesões motoras empenham-se em se mover, uma notável série de transformações ocorre através daqueles encontros semanais.

Não se indica a qualquer paciente a terapia mediada por animais, nem há disponibilidade inesgotável de recursos (cães em condições ideais, verba para o transporte deles, etc.), mas os resultados se mostram muito promissores, e cada vez mais instituições aderem à proposta, em caráter de teste ou definitivo. Faltam patrocinadores para o projeto, uma pena.

Li um artigo sobre uma fonoaudióloga que levava seu cachorro ao consultório onde atendia pacientes adultos, vítimas de AVC (derrame) e que perderam a capacidade de entender a linguagem e/ou de falar com fluência. O bicho permanecia sereno enquanto pacientes pregavam no animal post-its onde estavam escritos nomes de partes do corpo, um exercício de leitura mediado pelo animal. Exercícios articulatórios, se desempenhados adequadamente pelos pacientes, lhes dava acesso à chance de passear com o cão pelas dependências da clínica. Ou eram consequenciados com um truque canino, do tipo “dar a pata” ou “se fazer de morto”.

Benefícios para os humanos

Pessoas que possuem animais em casa e se responsabilizam por cuidar deles acabam por zelar melhor da própria saúde, mantêm-se ativas, suportam melhor momentos difíceis quando estão acompanhadas dos animais. Quem precisa levar seu cão a passeio acaba por criar nas cercanias de casa uma rotina, e se o cachorro é do tipo festeiro, é bem provável que a dupla cão-dono encontre outras duplas e se socialize com elas. Isto é antídoto para a solidão e incentivo ao exercício físico dos humanos e seus parceiros de quatro patas.

Cachorros bons em diagnósticos, enquanto outros guiam deficientes visuais...

Fiquei encantada ao ler que cães, pelo seu faro apurado, podem ser treinados a detectar em humanos diferentes tipos de câncer, flutuações na glicemia (taxa de açúcar no sangue) e que são capazes de sinalizar para seus donos, com antecedência suficiente, a ocorrência de crises epilépticas, evitando acidentes como queimaduras, fraturas e outros ferimentos decorrentes das perdas de consciência nas crises convulsivas.

Não nos esqueçamos dos cães que guiam cegos e lhe facilitam a vida independente. Os animais recebem treinamento rigoroso, de forma a conduzirem seus donos pelos caminhos da vida. Vira e mexe aparece a notícia de que uma instituição, meio de transporte ou estabelecimento comercial cismou de barrar a entrada do cão-guia e, por tabela, de seu dono. Clara desinformação, preconceito.

Cachorros bem adestrados auxiliam bombeiros a detectar vítimas sob escombros e há outros que aprendem a detectar a presença de drogas ilícitas e de explosivos. Os cachorros adquirem essas habilidades por meio de exercícios de obediência (ser recompensado por responder a comandos dos responsáveis pela sua guarda) e atuam com uma disposição como se a atividade de busca fosse brincadeira; eles aprenderam a desempenhar tarefas importantes para os humanos em troca de consequências como carinho, alimento ou oportunidade de acesso a um brinquedo.

A face triste da vida dos cães

O que me preocupa é o segmento de humanos que faz dos cachorros mais um item de consumo, um espécie de acessório fashion. Após o lançamento do desenho animado Os 101 Dálmatas, houve uma febre de consumo de cachorros da raça. Ninguém pensava nos custos para sustentar o apetite de um cão desse porte, e nem na necessidade de atividade física de animais grandes ou no espaço necessário para abrigar confortavelmente o dálmata. Esses aspectos, e outros tantos, poderiam constituir comportamentos de responsabilidade pela vida e bem-estar do cachorro. O resultado, no caso dos dálmatas, foi uma série de decepções. Nem todos cães eram tão “ajustados” quanto na animação da Disney e davam aos donos um enorme trabalho. Donos desistiram de seus cães e queria simplesmente se desfazer deles. Triste e óbvio, não?

Bichos “de estimação”, para quem?

Na Europa há quem abandone seus animais à beira de estradas na proximidade da estação de férias ou quando precisam mudar para um lugar incompatível com a posse de gatos ou cães. Descarte puro e simples. Como se a vida do animal fosse um guardanapo de papel. Aliás, até papel precisa de descarte adequado. Na recente crise econômica americana, abrigos para animais abandonados ficaram ainda mais sobrecarregados. E, por outro lado, houve gente que mesmo precisando morar em seus automóveis, por te perdido a casa própria, manteve consigo seu animal, amigos na alegria e na tristeza.

Nas grandes cidades, é comum a admirável a parceria entre o mendigo ou carroceiro e seu cachorro. Esse protege seu dono e, no frio inclemente da noite, um aquece ao outro. Em São Paulo alguns catadores de material reciclado, moradores de rua, recusaram abrigo em albergues mantidos por instituições exatamente porque lá era vedado acesso aos animais.

Cachorro pede pouco: água, comida e afago. Para sermos justos, mais medidas se fazem necessárias em prol do convívio saudável com os demais bichos, de duas ou quatro patas. Banho é de bom tom, tanto quanto vermifugação, vacina, tosa, escovação, atividade física e, não se esqueçam, ter coisas interessantes para fazer. Para os bichos de rua, inexistem esses cuidados, com exceção do último item, não lhes falta divertimento e ocupação na rua. Isto vale para um legítimo SRD (na linguagem de especialistas, sem raça definida, isto é, nossos conhecidos vira-latas) ou para cão com pedigree.

Na fase de testes que antecedeu o lançamento no mercado da substância fluoxetina (conhecido medicamento com função antidepressiva e antiobsessiva), cães fizeram uso do remédio e se beneficiaram disso. Eram animais com comportamentos obsessivos do tipo lambedura de pata (foram excluídos quadros alérgicos, de infestação por parasitas, etc.). Algumas das razões que favorecem comportamentos de destruir em alta frequência objetos da casa ou de ferir compulsivamente a si mesmo é a ausência de atividade, solidão, falta de espaço adequado. Mais um motivo pelo qual devemos pensar com cuidado antes de adotar um cão ou de largar um deles ao Deus dará em uma área de serviço por longos períodos.

Vida de cão, vida de gente: paralelos inevitáveis

Em co-autoria com Teca (Teresa Grassi) escrevi, há alguns anos, um livro infantil sobre a guarda responsável de cachorros. Protagonizada por Pingo, a história mostrava suas desventuras ao ser negligenciado em termos de banho, ração adequada, vacinas e companhia. Como autoras, precisávamos criar um jeito dos leitores pequenos desenvolverem empatia pelo sofrimento animal, e aprenderem que cabia a eles e a seus pais tomar providências, sinais de amor e respeito pelo bicho que não pediu para ser levado do pet shop por aquela família. O tema dá margem também à discussão da importância do “cuidar” de alguém desprotegido, como um bebê, enfermo, idoso. Nossas experiências com os leitores são geralmente emocionantes. O recado chega a eles: guarda responsável é sinal de amor.

Preciso me preparar para conseguir escrever sobre outras modalidades do cuidar: será que tratamos nossos cônjuges, filhos, enteados, pais, amigos tão mal como algumas pessoas lidam com seus bichos? Gente é fascinante, capaz de atos de generosidade e desvelo inesquecíveis. Do mesmo modo, podemos matar alguém por falta de zelo, de respeito, de cuidados básicos. Por enquanto, não direi mais do que isso.




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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