DESTAQUES

De outro ponto de vista

Redação Vya Estelar 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Solidariedade desarma o outro

por Angelina Garcia

A secretária recebeu-o com seu simpático sorriso, pedindo-lhe que se sentasse e aguardasse a profissional que estava a caminho. De quebra já se encaminhava para oferecer-lhe um café, que acreditava bem-vindo na manhã bem fria.

A voz veio dura:

- Não tenho esse tempo. E ameaçou sair.

Helena poderia, sim, tê-lo tomado por estúpido, arrogante e fechar a conversa com o clássico “sinto muito”, mas reconhecia que seu emprego dependia também da habilidade no trato às crianças e a seus familiares.

Secretárias costumam saber que estão sujeitas a esse tipo de situação e como contorná-la, mas quanto mais usava esse conhecimento treinado para amaciar o pai, mais ele se irritava, pois também tinha secretária. Percebeu, então, que por esse caminho poderia, indiretamente, colaborar com a perda de um paciente.

Enquanto buscava novas formas de abordar o pai, pôs-se a pensar na razão pela qual ele estaria lhe pedindo o impossível, que a fonoaudióloga do filho se fizesse presente naquele instante.

Falta de tempo não era, pois ele poderia encurtar a conversa que, nesses casos, é sabido, não dura menos que meia hora. Afinal, nem chegava a cinco minutos o atraso da terapeuta.

O que antecedera àquela visita, que levava o pai a querer agarrar-se à primeira desculpa para sair correndo? Estaria substituindo a mãe? Fora pressionado pela mãe para que desta vez fosse ele a ouvir sobre os problemas do filho? Fora intimado pela terapeuta? Alguma coisa na sua relação com o filho estaria impedindo uma progressão satisfatória do tratamento? Consciente ou inconscientemente ele se culpava pelas dificuldades do filho?

Não saberia o que passava pela cabeça dele, mas ainda assim se compadeceu. Não que ele fosse um coitado que merecesse pena, mas um pai, cuja angústia merecia consideração.

Anos e anos atrás daquela mesa, esforçando-se para manter a simpatia, mesmo em circunstâncias adversas, Helena nunca atinou para a possibilidade de ver por trás da agressividade, do rompante, da frieza, apenas a fragilidade humana. E nessas horas, ou colocamos mais lenha na fogueira, dando ao outro motivos que reforcem seu estado de espírito, ou nos colocamos ao seu lado, de verdade, e assim o desarmamos.

Nem precisou fazer esforço. O sorriso surgiu espontâneo, acolhedor, quando pegou o telefone e olhou com ternura para o senhor Alfredo.

- Eu também detesto esperar. Vamos ver se ela já está chegando?




Criteo Publicidade:

Redação Vya Estelar



ENQUETE

Qual é o seu meio preferido para expressar suas opiniões políticas?








VOTAR!
Vya Estelar - Qualidade de vida na web - Todos os direitos reservados ®1999 - 2017
O portal Vya Estelar não se responsabiliza pelas informações e opinião de seus colunistas emitidas em artigos assinados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação.