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Fobia de dirigir: o que se passa?

Regina Wielenska 01/01/2016 PSICOLOGIA

por Regina Wielenska

O medo excessivo de dirigir, que incapacita a pessoa para assumir com calma, segurança e competência o volante de um veículo, afeta homens e mulheres em diferentes fases da vida, sendo o padrão fóbico mais comum aquele surgido por ocasião de tirar carta ou após se cometer um deslize ao volante, causando um acidente.

Como eu disse, na maior parte dos casos, o medo incapacitante surge junto com a oportunidade de se submeter ao processo de habilitação para motorista amador. Não há razão única para tal temor se manifestar, mas podemos imaginar que:

1ª) O temor de ser reprovado ou de cometer falhas num processo de aprendizagem e avaliação transtorna a vida de algumas pessoas. Elas geralmente são perfeccionistas, e com baixa tolerância aos erros próprios. E quem está aprendendo uma habilidade nova necessariamente atravessa uma fase na qual se sente incapaz, pouco seguro, inábil, um peixe fora d’agua, são coisas absolutamente naturais. Neste caso, não fazer o exame, ou adiar, sabe Deus por quanto tempo, a inscrição no centro de formação de condutores seriam formas de evitar contato com a situação temida;

2ª) Outra razão comum pode ser a sensação de que, de fato, com a carta, o motorista seria responsabilizado por quaisquer acidentes que possam ocorrer; trata-se de uma pessoa que se sente incapaz de lidar com as atribuições da vida adulta, a qual lhe concede o direito à posse da carta se passar nos testes e, ao mesmo tempo, torna a pessoa responsável pelas consequências de seus atos. O fóbico pode superestimar as chances de ocorrer um acidente grave, o indivíduo é tomado por ideias catastróficas e acaba optando por fugir do volante. Mesmo quem dirige habilidosamente, fazendo uso de técnicas de direção defensiva, se sujeita ao imponderável. Outra pessoa pode cometer um erro e prejudicar o motorista cuidadoso e responsável. Há pessoas para as quais isso se torna um fardo insuportável, as incertezas, a controlabilidade relativa que permeiam nossa vida, são esses alguns dos fatores que acabam por levar a uma renúncia a dirigir;

3ª) Às vezes, alguém que dirigia bem desiste de ser motorista depois de ter um ataque agudo de ansiedade ao volante. Sensação de falta de ar, taquicardia, atordoamento, muito medo (inclusive, de morrer), sudorese, tremor, tontura e outros sintomas que podem compor um ataque de pânico podem surgir de uma hora pra outra quando se está ao volante ou em qualquer outra situação. Por meio de processos de condicionamento, um tipo básico de aprendizagem, a pessoa passa a se sentir como se estivesse em pânico no contexto de direção do carro e, para se proteger de um perigo (na verdade, inexistente ou de menor monta), ela se põe a evitar o carro;

4ª) Há ocasiões de fobias  nas quais o carro “leva a culpa” , mas o problema reside em outro lugar. Um exemplo: uma moça, casada e com filhos em idade escolar, teve pânico em vários contextos (mas não no carro) e, mesmo estando muito melhor da ansiedade, passou a evitar dirigir, exceto dentro do condomínio fechado onde residia. Levou um bom tempo para que na terapia ela descobrisse que sua fobia nada tinha a ver com carro.

Ocorria o seguinte: antes de passar mal pela primeira vez, ela era o que se chama informalmente de mãetorista, passava boa parte do dia como motorista dos filhos, numa vida que em nada correspondia à sua expectativa.  Essa insatisfação descambou num ataque de ansiedade, e a fobia de volante se tornou o bode expiatório. Para ela parecia errado, vexaminoso e condenável afirmar-se como insatisfeita com a vida que levava. A doença tornou-se o melhor dos meios de justificar a evitação do que agora lhe parecia sem graça, desinteressante, talvez opressora. Ela só melhorou dos comportamentos evitativos depois de se trabalhar em terapia esse problema familiar e de comunicação com o marido. Foram revistos seus valores e necessidades, bem como maneiras de estabelecer a conciliação entre eles e seus atos no cotidiano.

De certo modo, como ilustra esse caso, a fobia de dirigir não é necessariamente um problema de desempenho ao volante e pode surgir a partir de outros fatores remotamente vinculados ao carro.

Em todos os casos, a solução é olhar de frente para o medo, decompor suas partes, escolher o enfrentamento e partir pra luta.

Há autoescolas que atendem pessoas com fobia, o atendimento é mais especializado, os professores são treinados para auxiliar o aluno a perder gradualmente o medo por meio de aulas práticas, associadas a exercícios de relaxamento respiratório e muscular. A psicoterapia pode ser associada ao tratamento, quando questões mais amplas de vida estão interpostas entre a pessoa e sua fobia.

Enfim, para todo mundo há solução, desde que exista no indivíduo fóbico a disposição de se viver o medo até que ele suavemente desapareça, de tanto enfrentar a situação e dela sair vitorioso ao final do processo.

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Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.

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