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Como lidar com o climatério

Joel Rennó Jr. 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Joel Rennó Jr.

Da mesma forma como o psíquico pode refletir impactos da condição biológica em processo de mudança, não é possível negar o caráter e importância dos significados atribuídos, por cada mulher, à sua vivência do fenômeno climatérico e menopáusico, enquanto anúncio e encerramento de sua vida reprodutiva.

Para muito além do biológico, este período comporta representações, deslocamentos, simbolizações e ressignificações importantes, seja quando se pensa no desenvolvimento feminino, seja quando se enfoca a psicopatologia. Assim, é interessante compreendermos a subjetividade feminina neste momento de vulnerabilidade e desestabilização.

Lax (1982) considerou a crise psíquica que a mulher experimenta durante a fase climatérica à luz do seu senso de integridade corporal, seu senso de funcionamento corporal, sua auto-imagem e suas tarefas vitais e interesses egóicos. O desequilíbrio ocorreria em todas estas áreas do funcionamento psíquico. As mulheres responderiam ao climatério de diferentes maneiras, algumas lidando em direção a uma nova e saudável integração, outras rumando em direção à patologia.

A perda do controle sobre o que ocorre com seu corpo faz reavivar fantasias e tendências regressivas, sentindo-se exposta e sem defesa contra sintomas como ondas de calor e suores, que inclusive a mortificam, pois revelam seu estado menopausal sem que possa ter controle sobre seu corpo e suas manifestações, promovendo, por vezes, interferência no sentimento de integridade corporal e funcionamento harmonioso, resultando em decréscimo do senso de bem-estar, e ocorrendo crises emocionais significativas.  .

Além do mais, a perda da capacidade reprodutiva para as mulheres de várias décadas atrás, sob a supremacia da maternidade como função principal em suas vidas, poderia resultar em reação depressiva.

Alguns aspectos são facilmente observados durante os atendimentos dessas mulheres:

Como o climatério influencia na saúde mental
 

- Mudanças na perspectiva cronológica: a relação com os pais se atualiza na relação com os filhos jovens e adolescentes, mas com papéis invertidos. (exemplo: cuidados com os pais idosos)

- Reversão nos ritmos exterior e interior de transformação: agora são os filhos que crescem rapidamente e os pais que envelhecem no mesmo ritmo. Luto pela consciência da natureza efêmera da vida humana.

- Limites da criatividade: percepção dos próprios limites do passado e a restrição para as realizações no futuro. Outras pessoas, provavelmente, ultrapassarão estas limitações, colocando em pauta a questão do amor e do ódio para consigo e para com os outros.

- Identidade do ego na perspectiva do tempo: o novo conhecimento da meia-idade sobre as próprias limitações consolida a identidade do ego, diferentemente do passado. Aceitar a si mesmo é aspecto importante da maturidade emocional, com reflexos em todos os relacionamentos.

- Ajuste de contas com a agressão exterior: enfrentamento realístico dos ataques que permeiam o ambiente adulto, sem explorá-los, sem negá-los, sem submeter-se ou por eles ser corrompido. Aceitação do fato de que a responsabilidade final é para consigo mesmo.

- Perda, luto e morte: o enfrentamento da perda dos pais, irmãos, parentes e amigos somam-se às próprias manifestações de envelhecimento, reforçando a consciência do possível adoecer e morte pessoal. A aceitação de perdas e fracassos pessoais deve permitir a sensação de contar com recursos suficientes para a aceitação de si mesmo e a reconstrução de uma vida significativa, tendo por base o narcisismo normal.

- Conflitos edipianos: nova reativação do Complexo de Édipo seja pelo crescimento dos filhos, pelas experiências concretas na vida social e grupal ou pelas vivências com os pais enfraquecidos rumo à morte.

Com a descrição da 'crise da meia-idade' e as tarefas desenvolvimentais próprias a este período do desenvolvimento, ficam pontuadas características marcantes às quais homens e mulheres devem fazer face quando atingem o ponto médio da vida, vivenciando pessoalmente estas dificuldades em maior ou menor grau. Conquanto, a conjugação desta crise psíquica com as contingências associadas ao climatério e menopausa, faz com que esta fase do desenvolvimento seja ainda mais complexa para as mulheres, devido à mútua influência de fatores de ordem biológica, psíquica e social. Assim, se o atendimento médico é imperativo nesta fase, o psicológico pode ser imprescindível, pois não há na medicina medicamento de metabolização e reposição que processe estas vivências e significados associados. Assim, a prevenção marca presença enquanto enfoque importante para a mulher que atinge o meio da vida e que enfrenta fase de vulnerabilidade com frequência solitariamente.

Como médico, do 'Pró-Mulher pude identificar na grande maioria destas mulheres, necessidades de mudanças mais profundas: a elaboração do luto pelas mudanças e perdas; revitalização de recursos pessoais adormecidos; início da superação criativa de golpe em sua feminilidade representado pelo climatério e menopausa; aceitação de desafios que colocam à prova sua capacidade e estrutura emocional; descoberta de possibilidades pessoais que só o maior desenvolvimento emocional pode fazer frutificar; início da concretização de projetos indicativos de maior independência afetiva e financeira; maior amadurecimento da condição de separação conjugal; encorajamento para a tomada de decisões importantes na vida profissional e procura de atividade que implica em empatia e doação afetiva aos que dela necessitam.

Por fim, é claro que as oscilações dos níveis hormonais femininos também podem contribuir para os sintomas psíquicos que incidem neste período; tal tema é um assunto para outro artigo. Em qualquer contexto relacionado à saúde mental, o biopsicossocial, além das questões culturais devem ser analisados em conjunto, evitando-se reducionismos e atrasos na compreensão ampla do psiquismo da mulher climatérica que se encontra nesta fase de transição entre a vida reprodutiva e a vida não reprodutiva.




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Joel Rennó Jr.

Dr. Joel Rennó Jr. MD, Ph.D. Professor do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria da USP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein- São Paulo. Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). www.psiquiatriadamulher.com.br



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